Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 7 – Se devemos ser solícitos pelo futuro.

O sétimo discute-se assim. – Parece que devemos ser solícitos pelo futuro.

1. – Pois, diz a Escritura: Vai ter, ó preguiçoso, com a formiga, e considera os seus caminhos, e aprende dela a sabedoria; a qual, não tendo condutor, nem mestre, nem príncipe, faz o seu provimento no estio, e ajunta no tempo da ceifa de que se sustentar. Ora, isto é ter solicitude pelo futuro. Logo, é louvável a solicitude pelas coisas futuras.

2. Demais. – A solicitude é própria da prudência. Ora, a prudência se ocupa principalmente com o futuro; pois, parte principal dela é a providência sobre as coisas futuras, como se disse. Logo, é virtuoso termos solicitude pelo futuro.

3. Demais. – Quem reserva uma coisa, para conservá-la, é solícito pelo futuro. Ora, do próprio Cristo diz o Evangelho que tinha uma bolsa para guardar algum dinheiro, que entregava ajudas. E também os Apóstolos conservavam os preços das propriedades que lhes punham aos pés, como se lê na Escritura. Logo, é lícita a solicitude pelo futuro.

Mas, em contrário, o Senhor diz: Não andeis inquieto, pelo dia de amanhã. Ora, amanhã significa aí futuro, como diz Jerônimo.

SOLUÇÃO. – Nenhuma obra pode ser virtuosa se não vem revestida das circunstâncias devidas; entre elas, uma é o tempo devido, conforme aquilo da Escritura: Todas as coisas têm o seu tempo e a sua oportunidade. O que tem lugar, não só relativamente às obras externas, mas também à solicitude interna. Pois, a cada tempo é própria a sua solicitude; ao verão, a de colher; ao do outono, a da vindima. Quem, pois, já no verão começasse a ocupar-se com a vindima, teria solicitude exagerada pelo futuro. E essa, como exagerada que é, o Senhor a proíbe, dizendo: Não andeis inquieto com o dia de amanhã. E acrescenta por isso: O dia de amanhã a si mesmo trará seu cuidado, isto é, terá a sua solicitude própria, que basta para afligir a alma. E tal é o que acrescenta: ao dia basta a sua própria aflição, isto é, a aflição causada pela solicitude.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A formiga tem solicitude no tempo oportuno; e é isso que nos é proposto à imitação.

RESPOSTA À SEGUNDA. – À prudência é próprio ter a providência devida com o futuro. Ora, seria desordenada a providência ou a solicitude pelo futuro se buscássemos, como fins, os bens temporais, em relação aos quais há passado e futuro. Ou se buscássemos coisas supérfluas, além das necessidades da vida presente; ou se antecipássemos o tempo da solicitude.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como diz Agostinho, quando virmos algum servo de Deus providenciar para que não lhe falte o necessário, não o julguemos como preocupado com o dia de amanhã. Pois, o próprio Senhor, para dar exemplo, dignou-se ter algum dinheiro em reserva. E nos Atos dos Apóstolos está escrito, que eles buscavam de ante mão o necessário à vida, por causa da fome iminente. Logo, o Senhor não censura uma providência tão natural ao coração humano; mas sim, que sirvamos a Deus por causa de tais bens.