Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a vergonha é uma virtude.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a vergonha é uma virtude.

1. – Pois, ser uma mediedade, segundo a determinação da razão, é próprio da virtude, como resulta da definição de virtude dada por Aristóteles. Ora, a vergonha constitui tal mediedade, como está claro no Filósofo. Logo, a vergonha é uma virtude.

2. Demais. – Todo o louvável ou é virtude ou pertence à virtude. Ora, a vergonha é algo de louvável. Mas, não faz parte de nenhuma virtude. Assim, não faz parte da prudência, porque tem a sua sede, não na razão, mas, no apetite. Também não faz parte da justiça, porque implica certa paixão, ao passo que a justiça não respeita às paixões. Semelhantemente, não faz parte da fortaleza, a que é próprio enfrentar e atacar as dificuldades; ao passo que fugir delas é o próprio da vergonha. Nem faz parte da temperança; pois, ao passo que esta modera as concupiscências, a vergonha é um certo temor, como está claro no Filósofo e em Damasceno. Donde se conclui, que a vergonha é uma virtude.

3. Demais. – O honesto se identifica com a virtude, como está claro em Túlio. Ora, a vergonha é uma parte da honestidade; pois, diz Ambrósio, que a vergonha é companheira e amiga da paz do espírito, foge da protérvia, alheia–se a toda luxúria, ama a sobriedade, promove a honestidade e exige o acordo. Logo a vergonha é uma virtude.

4. Demais. – Todo vício se opõe a alguma virtude. Ora, certos vicias, a saber, a inverecúndia e a insensibilidade desordenada se opõem à vergonha. Logo, a vergonha é uma virtude.

5. Demais. – Dós atos geram–se os hábitos semelhantes, como diz Aristóteles. Ora, a vergonha implica um ato louvável. Logo, tais atos, sendo frequentes, causam um hábito. Ora, o hábito de boas obras é uma virtude, como está claro no Filósofo. Logo, a vergonha é uma virtude.

Mas, em contrário, diz o Filósofo, que a vergonha não é uma virtude.

SOLUÇÃO. – A virtude pode ser considerada em duplo sentido: próprio e comum. – Em sentido próprio, a virtude é uma determinada perfeição, como diz Aristóteles. Portanto, tudo o que repugna à perfeição, mesmo se for um bem, contraria à ideia de virtude. Ora, a vergonha repugna à perfeição. – Pois, é o temor de uma desonestidade, que é digna de censura por isso, Damasceno diz, que a vergonha é o temor de praticar um ato desonesto. Pois, assim como a esperança refere a um bem possível e árduo, como estabelecemos, assim, o temor supõe um mal possível e árduo, como provamos quando tratamos das paixões. Ora, quem é perfeito, por ter o hábito da virtude não concebe a prática de nenhum ato censurável e desonesto, nem nenhum ato possível e árduo, isto é, difícil, a evitar; nem pratica realmente nada de torpe donde venha a temer o opróbrio. Por onde, a vergonha, propriamente ralando, não é uma virtude, pois, não lhe realiza a perfeição. – Mas, em sentido comum, chama–se virtude a tudo o que têm de bom e de louvável os atos humanos ou as paixões. E, neste sentido, a vergonha às vezes se chama virtude, por ser uma paixão digna de louvor.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Ser uma mediedade não constitui só por si li virtude, na sua natureza mesma, embora seja uma das partes compreendidas na definição dela; mas, a virtude há de ser, ulteriormente, um hábito eletivo, isto é, que obra por eleição. Ora, a vergonha não designa nenhum hábito, mas uma paixão; nem o seu movimento provém da eleição, mas, de um certo ímpeto da paixão. Por isso, não realiza a ideia de virtude.

RESPOSTA A SEGUNDA. – Como dissemos, a vergonha é o temor da desonestidade e da censura. Pois, como já foi dito, o vicio da intemperança é o torpíssimo e o mais censurável. Por isso, a vergonha mais principalmente respeita à temperança que a qualquer outra virtude, em razão do motivo, que é desonesto; mas, não pela espécie de paixão, que é o temor. Mas, por serem desonestos e censuráveis os vícios opostos às outras virtudes, a vergonha pode também fazer parte das outras virtudes.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A vergonha promove a honestidade, afastando o que lhe é contrário; não porém porque realize a ideia perfeita da honestidade.

RESPOSTA À QUARTA. – Qualquer defeito causa um vício; mas, nem qualquer bem é capaz de realizar a ideia da virtude. Por onde, não há de necessariamente ser virtude tudo o que diretamente se opõe a um vício. Embora todo vício se oponha a alguma virtude, pela sua origem. E assim, a inverecúndia, enquanto proveniente do demasiado amor dos atos desonestos, opõe–se à temperança.

RESPOSTA À QUINTA. – O nos envergonharmos muitas vezes causa o hábito da virtude adquirida, que nos faz evitar certos atos desonestos, objeto da vergonha; mas, esse hábito não faz com que continuemos a nos envergonhar. O resultado desse hábito da virtude adquirida é fazer tão somente com que nos envergonhemos, quando houver matéria para tal.