Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a honestidade é o mesmo que a virtude.

O primeiro discute–se assim. –– Parece que a honestidade não é o mesmo que a virtude.

1. – Pois, como diz Túlio, honesto é o desejado em si mesmo. Ora, a virtude não é desejada em si mesma, mas, por causa da felicidade; pois, no dizer do Filósofo, a felicidade é o prémio e o fim da virtude. Logo, o honesto não é o mesmo que a virtude.

2. Demais. – Segundo Isidoro, a honestidade é chamada como que o estado de honra. Ora há muitas outras coisas a que é devida a honra, além da virtude; pois, à virtude é propriamente devido o louvor, como diz Aristóteles. Logo, a honestidade não é o mesmo que a virtude.

3. Demais. – A virtude consiste principalmente na eleição interior, como diz o Filósofo. Ora, a honestidade parece pertencer sobretudo à convivência exterior, segundo o Apóstolo: Faça­se tudo com decência e com ordem. Logo, a honestidade não é o mesmo que a virtude.

4. Demais. – Parece que a honestidade consiste nas riquezas exteriores, segundo a Escritura: Os bens e os males, a via e a morte, a pobreza e as riquezas, tudo isto vem de Deus. Ora, a virtude não consiste nas riquezas exteriores. Logo, a honestidade não é o mesmo que a virtude.

Mas, em contrário, Túlio divide o honesto nas quatro virtudes principais, em que também se divide a virtude. Logo, o honesto é o mesmo que a virtude.

SOLUÇÃO. – Como diz Isidoro, a honestidade é assim chamada por ser como o estado da honra. Por onde, chama–se honesto o que é digno de honra. Ora, a honra, como dissemos, é devida à excelência. Mas, a excelência do homem é considerada sobretudo segundo a virtude, pois, é a disposição do perfeito para o que é ótimo, no dizer de Aristóteles. Portanto. o honesto, propriamente falando, identifica–se com a virtude.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÁO. –­ Como diz o Filósofo das coisas desejadas, em si mesmas, umas só por si mesmas o são, e nunca por causa de outras; tal a felicidade, que é o fim último. Outras, porém são desejadas, por si mesmas, enquanto por si mesmas são de natureza boa, embora nenhum outro bem nos possam proporcionar; e contudo são desejadas por causa de outros bens, por nos conduzirem a um bem mais perfeito. E, neste sentido, as virtudes são desejáveis, em si mesmas. Por isso Túlio diz que certos bens, como a virtude, a verdade e a ciência nos aliciam pela sua própria força e nos atraem pela sua própria dignidade. E isto basta para a realização da ideia de honesto,

RESPOSTA À SEGUNDA. – Dos bens honrados, superiores à virtude, há uns mais excelentes que ela, a saber, Deus e a felicidade. E esses não nos são conhecidos pela experiência, como o são as virtudes, de acordo com as quais agimos todos os dias. Por isso à virtude cabe melhor a designação de honesto. Mas, os outros bens, que lhe são inferiores, são honrados, enquanto lhe coadjuvam a atividade; tais são a nobreza, o poder e as riquezas. Por isso, o Filósofo diz que esses bens são honrados por certo; mas, só a bem merece verdadeiramente honrado. Ora, bons o somos pela virtude. Portanto, à virtude devido o louvor, enquanto um bem desejável por causa de outro; e lhe é devida a honra, enquanto em si mesma desejável. E, a esta luz, tem a natureza de honesto,

RESPOSTA A TERCEIRA. – Como dissemos, o honesto implica a honra devida. Ora a honra é o testemunho, que damos da excelência de alguém, como provámos. Ora, só damos testemunho do que conhecemos. Mas, a eleição interior de outrem não a conhecemos senão pelos atos externos. Logo, a convivência exterior é de natureza honesta, enquanto demonstrativa da retidão interior. E por isto, a honestidade consiste, fundamentalmente, na eleição interior; e aparentemente na convivência externa.

RESPOSTA À QUARTA. – Na opinião vulgar, a excelência das riquezas torna o homem digno das honras; donde vem que, às vezes, o nome de honestidade é empregado para designar a prosperidade exterior.