Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 – Se o honesto difere do útil e do deleitável.

O terceiro discute–se assim. – Parece que o honesto não difere do útil e do deleitável.

1. – Pois, chama–se honesto ao que é desejado por si mesmo. Ora, o prazer é por si mesmo desejável; porquanto, seria ridículo perguntar a alguém por que quer gozar, como diz o Filósofo. Logo. o honesto não difere do deleitável.

2. Demais. – As riquezas estão contidas no bem útil; pois, diz Túlio, que há uma, causa desejável, não pela sua própria virtude e natureza, mas, pelo seu fruto e pela sua utilidade, e é o dinheiro. Ora, as riquezas têm a mesma natureza da honestidade, conforme à Escritura: a pobreza e a honestidade, isto é, as riquezas, vêm de Deus; e, noutro lugar: Tomará sobre si uma pesada carga o que tem comunicação com outro mais poderoso, isto é, mais rico, que ele. Logo, o honesto não difere do útil.

3. Demais. – Túlio prova que nada pode ser útil, que não seja honesto. E o mesmo diz Ambrósio. Logo, o útil não difere do honesto.

Mas, em contrário, diz Agostinho: chama­se honesto ao que é por si mesmo desejável; e útil, o referido a um outro bem.

SOLUÇÃO. – O honesto tem o mesmo sujeito que o útil e o deleitável; mas, deste difere racionalmente. Pois, como dissemos, chama–se honesto ao que tem uma certa beleza subordinada à razão. Ora, o ordenado segundo a razão é naturalmente conveniente ao homem. Pois, cada um naturalmente se deleita com o que lhe é conveniente. Por isso, o honesto é naturalmente deleitável ao homem, como o prova o Filósofo ao tratar dos atos de virtude. Mas, nem todo o deleitável é honesto; porque um bem pode ser conveniente aos sentidos e não, à razão. Mas, é deleitável, segundo a razão do homem, o que lhe aperfeiçoa a natureza. E também a virtude, honesta em si mesma, se refere a outro bem como ao fim. a saber, a felicidade. E, a esta luz. o honesto, o útil e o deleitável têm o mesmo sujeito. Mas, diferem racionalmente. Pois, chama–se honesto ao que tem uma certa excelência digna de honra, por causa da sua beleza espiritual; deleitável, enquanto aquieta o apetite; e útil, enquanto relativo a outro bem. Mas, o deIeitável tem maior extensão que o útil e o honesto; pois, ao passo que todo o útil e todo honesto é de algum modo deleitável, o inverso não se dá, como diz Aristóteles.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÁO. ­– Chama–se honesto ao desejável por si mesmo, por um apetite racional, que busca o conveniente à razão. Ao passo que o deleitável é desejado. em si mesmo, por um apetite sensitivo.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Às riquezas damos o nome de honestidade, de conformidade com a opinião geral, que as honra; ou enquanto organicamente se ordenam aos atos de virtude, como dissemos.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A intenção de Túlio e Ambrósio é dizer que nada pode ser simples e verdadeiramente útil, que repugne à honestidade, porque haveria também de repugnar ao último fim do homem, que é o bem racional; embora possa talvez ser útil, a certos respeitos, em relação a um fim particular. Mas, não tem a intenção de dizer que tudo o que é útil, em si mesmo considerado, seja por natureza honesto.