Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a abstinência é uma virtude.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a abstinência não é uma virtude.

1. – Pois, diz o Apóstolo: O reino de Deus não consiste nas palavras, mas na virtude. Ora, na abstinência não consiste o reino de Deus, pois, ensina o Apóstolo: O reino de Deus não é comida nem bebida; o que comenta a Glosa: A justiça não consiste em comer nem em beber. Logo, a abstinência não é uma virtude.

2. Demais. – Agostinho diz, falando a Deus: Tu me ensinaste a tomar os alimentos como se fossem remédio. Ora, moderar os remédios não é próprio de nenhuma virtude, mas, à arte da medicina. Logo, pela mesma razão, moderar os alimentos, o que é próprio da abstinência, não é ato de virtude, mas, da arte.

3. Demais. – Toda virtude consiste numa mediedade, como diz Aristóteles. Ora, parece que a abstinência não constitui uma mediedade, mas, uma deficiência, pois, tira o seu nome de uma privação. Logo, a abstinência não é uma virtude.

4. Demais. – Nenhuma virtude exclui outra. Ora, a abstinência exclui a paciência; pois, diz Gregório, que a impaciência, às vezes, tira do seio da tranquilidade o espírito dos abstinentes. E no mesmo lugar acrescenta, que o pensamento dos abstinentes é às vezes contaminado pela culpa da soberba; e portanto exclui a humildade. Logo, a abstinência não é uma virtude.

Mas, em contrário, a Escritura: Vós outros, aplicando pois todo o cuidado, ajuntai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência; e à ciência, a abstinência; ora, neste lugar, a abstinência é enumerada junto com as outras virtudes. Logo, a abstinência é uma virtude.

SOLUÇÃO. – A abstinência, como a sua própria denominação o indica, implica a privação da comida. Por onde, pode ser tomada em dupla acepção. Numa, designa a privação absoluta da comida. E, neste sentido, a abstinência não designa nem uma virtude nem um ato de virtude, mas, algo de indiferente. – Noutra, pode ser considerada como regulada pela razão. E então significa o hábito ou o ato da virtude. E neste sentido é que é tomada no lugar citado de Pedro, onde diz que a abstinência deve ser aplicada com ciência; isto é, que devemos nos abster de alimentos, quando necessário, conforme às exigências das pessoas com quem vivemos e às da nossa pessoa e segundo o requer a nossa saúde.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O uso e a abstinência da comida, em si mesmo considerados, não respeitam ao reino de Deus. Pois, diz o Apóstolo: A comida não nos faz agradáveis a Deus, porque nem comendo–a seremos mais ricos, nem seremos mais pobres não na comendo, isto é, espiritualmente. Ora, uma e outra coisa, quando praticadas racionalmente por fé e amor de Deus, levam ao reino de Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A moderação no comer, relativamente à quantidade e à qualidade, é regulada pela arte da medicina, quanto à saúde do corpo; mas, quanto aos afetos internos, em relação ao bem da razão, é regulada pela abstinência, Por isso, diz Agostinho: Absolutamente não importa, a saber, à virtude, o que ou o quanto de alimentos tomamos, se procedermos de acordo com as exigências das pessoas com quem convivemos com as da nossa pessoa e com as necessidades de nossa saúde; mas, o meritório é suportar a privação com uma grande facilidade e tranquilidade de alma, quando o for necessário.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A temperança pertence refrear os prazeres, que exercem sobre a alma uma grande atração; assim como à fortaleza, confirmá–Ia contra os temores, que nos desviam do bem racional. Por isso, assim como o mérito da fortaleza consiste num certo excesso, donde derivam as denominações de todas as suas partes, assim, o mérito da temperança está numa certa deficiência, donde derivam os nomes das suas partes todas. Por onde, a abstinência, que faz parte da temperança, é assim denominada por causa de uma deficiência. E contudo constitui uma mediedade, por ser regulada pela razão reta.

RESPOSTA À QUARTA. – Os referidos vícios provêm da abstinência quando esta se desvia da razão reta. Pois, a razão reca manda–nos abster como é necessário, isto é, com alegria de alma; e pelo que é necessário, isto é, pela glória de Deus e não, pela glória própria nossa.