Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 – Se a virgindade é mais excelente que o matrimônio.

O quarto discute–se assim. – Parece que a virgindade não é mais excelente que o matrimônio.

1. – Pois, diz Agostinho: Não é desigual o mérito da continência em João, que nunca contraiu núpcias, ao de Abraão, que gerou filhos. Ora, a maior virtude corresponde um maior mérito. Logo, a virgindade não é virtude superior à castidade conjugal.

2. Demais. – Da virtude depende o mérito do virtuoso. Se, pois, a virgindade fosse preferível à continência conjugal, parece consequente que qualquer virgem seria mais meritória que qualquer casada. Ora, isto é falso. Logo, a virgindade não é superior ao casamento.

3. Demais. – O bem comum é superior ao particular, como esta claro no Filósofo. Ora, o casamento é ordenado ao bem comum; assim, diz Agostinho: O que é a comida para a vida do homem é a união dos sexos para a vida do gênero humano. Mas, a virgindade se ordena ao bem especial de evitar as tribulações da carne, a que estão sujeitos os casados, como claramente o diz o Apóstolo. Logo, a virgindade não é superior à continência conjugal.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Por uma razão certa e apoiado na autoridade das santas Escrituras, achamos que nem o casamento é pecado nem o equiparamos à continência virginal nem mesmo à da viuvez.

SOLUÇÃO. – Como o demonstra Jerônimo, erro foi de Joviniano ensinar, que a virgindade não deve ser preferida ao matrimônio. E esse erro é principalmente eliminado tanto pelo exemplo de Cristo, que escolheu mãe virgem e conservou ele próprio a virgindade, como pela doutrina do Apóstolo, que aconselhou a virgindade como um bem melhor. E ainda pela razão; quer porque o bem divino é superior ao humano; quer porque o bem da vida contemplativa é superior ao da ativa, Ora, a virgindade se ordena ao bem da alma, segundo a vida contemplativa, que consiste em estarmos cuidadosos das causas que são de Deus. Ao passo que o casamento se ordena ao bem do corpo, que é a multiplicação corporal do gênero humano e pertence à vida ativa ; porque o homem e a mulher, vivendo em matrimônio hão de necessariamente cuidar das coisas que são do mundo, como está claro no Apóstolo. Por onde e indubitavelmente a virgindade é preferível à continência conjugal.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O mérito não se funda só no gênero do ato, mas sobretudo, no ânimo de quem age. Ora, Abraão tinha o ânimo disposto a conservar a virgindade, se o fosse em tempo conveniente; por isso, o mérito da continência conjugal nele se equipara ao da continência virginal em João, quanto ao prêmio essencial; mas não, quanto ao acidental. Por isso diz Agostinho, que S. João combateu por Cristo no celibato e Abraão, no casamento, conforme as diferenças de tempo; mas, ao passo que S. João tinha em ato a virtude da continência, Abraão só em hábito a possuía.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Embora a virgindade seja melhor que a continência conjugal, pode, contudo o casado ser melhor que o virgem por duas razões. – Primeiro, relativamente à castidade mesma; isto é, se o casado tiver o ânimo mais disposto a guardar a virgindade, se for necessário, do que o atualmente virgem. Por isso Agostinho instrui o virgem para que diga: Eu não sou melhor que Abraão, mas é melhor a castidade do solteiro que a do casado. E logo depois, dá a razão: O que eu agora faço ele melhor o faria se o tivesse de fazer; e o que eles fizeram também eu agora faria se o devesse. – Segundo, porque talvez o que não é virgem tenha uma virtude mais excelente. Donde o dizer Agostinho: Como sabe a virgem, embora cuidadosa das coisas de Deus, que está madura para o martírio e se não tem alguma fraqueza da alma que dele o afaste? Ao passo que a mulher a que se julgava preferível, talvez lá possa beber o cálice da paixão do Senhor.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O bem comum é superior ao bem privado, se forem do mesmo gênero; mas, o bem privado pode ser superior, no seu gênero. E, deste modo, a virgindade dedicada a Deus é preferível à fecundidade carnal. Por isso diz Agostinho, que a fecundidade da carne, mesmo a daquelas que, neste mundo, não têm outro fim, no casamento, senão o de dar filhos a Cristo, não pode compensar, segundo se deve crer a perda da virgindade.