Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 – Se a polução noturna é pecado.

O quinto discute–se assim. – Parece que a polução noturna é pecado.

1. – Pois, o mérito e o demérito devem se referir ao mesmo objeto. Ora, quem dorme pode merecer, como se deu com Salomão que, dormindo, obteve de Deus o dom da sabedoria, como se lê na Escritura. Logo, dormindo podemos desmerecer e, portanto, parece que a polução noturna é pecado.

2. Demais. – Todo aquele que tem o uso da razão pode pecar. Ora, dormindo. temos o uso da razão, pois, frequentemente raciocinamos durante o sono; e preferimos uma coisa a outra, consentindo ou dissentindo. Logo, dormindo, podemos pecar. E, portanto, não impede o sono de ser pecado a polução noturna, pois, genericamente é ela um ato pecaminoso.

3. Demais. – Em vão censuramos e instruímos a quem não pode agir conforme ou contra a razão. Ora, durante o sono Deus instrui e censura o homem, como se lê na Escritura: Por sonho de visão noturna, quando cai sopor sobre os homens, então abre os ouvidos dos homens e, admoestando–os, lhes adverte o que delem fazer. Logo, durante o sono, podemos agir de acordo com a razão ou contra ela; o que é agir retamente ou pecar. E assim parece que a poluçâo noturna é pecado.

Mas, em contrário, Agostinho: A fantasia da nossa imaginação, que manifestamos aos outros em conversa, quando nitidamente se apresenta, durante o sono, em visão, de modo a não ser possível discernir entre a verdadeira e a imaginária união carnal, imediatamente provoca a carne, donde resulta o movimento em questão, tão isento de pecado como o é a palavra na qual pensou uma pessoa acordada, para depois proferi–la.

SOLUÇÃO. – A polução noturna pode ser considerada a dupla luz. – Primeiro em si mesma, e então não é por natureza pecado. Pois, todo pecado depende do juízo racional; e é porque o movimento primeiro da sensualidade não constitui pecado, senão na medida em que pode ser dominado pelo juízo da razão. Portanto, onde não há juízo racional, não há pecado. Ora, durante o sono, a razão não está no seu livre juízo. Pois, não há ninguém que, dormindo, não tome certas figuras da imaginação pela realidade mesma, como resulta do que dissemos na Primeira Parte. Logo, aquilo que fazemos dormindo, sem o livra juízo da razão, não se nos imputa como culpa, como não se lhe imputa como culpa aquilo que pratica um furioso ou um demente. – De outro modo, a polução noturna pode ser considerada relativamente à sua causa.

E isto de três maneiras. – Primeiro, corporalmente. Pois, superabundando no corpo o humor seminal, ou sendo emitido, pelo excessivo calor do corpo ou por qualquer outra comoção, o adormecido sonha que está expulsando esse humor abundante ou secretado. O que também se dá quando a natureza está sobrecarregada de quaisquer outras superfluidades, de modo que se formam na imaginação fantasmas, que provocam a emissão delas. Se, portanto, a super­abundância desse humor provém de uma causa culposa, por exemplo, da comida ou da bebida excessivas, então a polução noturna é culposa na sua causa. Se porém, a superabundância ou a resolução desse humor não tiver nenhuma causa culposa, então, nem em si nem na sua causa, será culposa a polução.

Quanto à outra causa da polução noturna, ela pode ser animal e interior; assim, quando alguém, dormindo, sofre–a, em consequência de pensamentos precedentes. Mas, os pensamentos, que se têm, acordado, podem ser puramente especulativos; por exemplo, quando alguém, numa discussão, pensa nos pecados carnais. Outras vezes, porém, esses pensamentos são acompanhados de um certo afeto, de concupiscência ou de aversão. Ora, sobretudo os pensamentos dos vícios carnais, acompanhados de complacência neles, é que provocam a polução noturna. Porque esses pensamentos deixam um certo vestígio e inclinação na alma, de modo que o adormecido é mais facilmente levado, na sua imaginação, a consentir nos atos que provocam a polução .. E por isso o Filósofo diz, pois que certos movimentos passam lentamente do estado de vigília para o do sono, melhores são os fantasmas dos virtuosos que os de quaisquer outros; e Agostinho diz, os méritos das almas dotadas de bons atetos se manifestam ainda mesmo no sono. Por onde é claro, que a polução noturna pode ser culposa pela sua causa. – As vezes porém se dá que o pensamento, durante a vigília, de atos carnais, ainda especulativos e com repugnância, produz a polução, durante o sono. – E então esta não é culposa nem em si mesma nem na sua causa.

Enfim, a terceira causa é espiritual extrínseca; assim, quando a influência do demônio provoca imaginações em quem dorme, causadoras do efeito em questão. E isto às vezes provém do pecado precedente de termos descuidado de nos precaver contra as ilusões do demônio; por isso é que se canta à noite: Comprime o nosso inimigo afim de que os nossos corpos não sejam poluídos. Outras vezes, sem nenhuma culpa do homem, mas só por nequícia do demônio; assim, nas. Conferências dos Padres se lê de um, que sempre sofria poluções noturnas nos dias de festa, por provocação do demónio, para que ficasse privado da sagrada comunhão. Por onde é claro, que a polução noturna nunca é pecado, mas é, às vezes, consequência de um pecado precedente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Salomão não mereceu, dormindo, receber a sabedoria, de Deus; mas, recebeu–a como sinal de um desejo precedente, e por isso diz Agostinho, que o seu pedido agradou a Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Na medida em que as potências sensitivas interiores são mais ou menos paralisados pelo sono, por causa dos vapores pesados ou leves, nessa mesma o uso da razão fica mais ou menos impedido, durante o sono. Sempre porém, sob certo aspecto, fica impedido, de modo que não pode de nenhum modo o adormecido exercer o seu livre juízo, como foi dito na Primeira Parte. Logo, não se lhe imputa como culpa o que então faz.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A apreensão racional não fica impedida pelo sono, como o fica o juízo racional, que se completa convertendo–se às causas sensíveis, que são os primeiros princípios do conhecimento humano. Portanto, nada impede apreendermos pela razão alguma causa, de novo, dormindo, em virtude de uma lembrança das reflexões precedentes ou pelas imagens vistas em sonho, ou ainda por divina revelação, ou enfim por influência de um anjo bom ou mau.