Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 – Se devemos por humildade nos sujeitar a todos.

O terceiro discute–se assim. – Parece que não devemos por humildade nos sujeitar a todos.

1. – Pois, como se disse, a humildade sobretudo consiste em nos sujeitarmos a Deus. Ora, o que devemos a Deus não devemos prestá–lo aos homens, como o demonstram todos os atos de latria. Logo, por humildade não devemos nos sujeitar aos outros.

2. Demais. – Agostinho diz: A humildade deve se fundar na verdade e não na falsidade. Ora, os que ocupam as posições mais elevadas não poderiam, sem falsidade, sujeitar–se aos que lhes são inferiores. Logo, não devemos por humildade nos sujeitar a todos.

3. Demais. – Não devemos praticar nada que redunde em detrimento da salvação de outrem. Ora, às vezes o nos sujeitarmos a outrem por humildade poderia redundar em detrimento dele, pois, poderia ensoberbecer–se ou nos desprezar; donde o dizer Agostinho, que não devemos desmoralizar a autoridade por queremos praticar uma humildade excessiva. Logo, não devemos por humildade nos sujeitar a todos.

Mas, em contrário, o Apóstolo: Com humildade tenha cada um aos outros por superiores.

SOLUÇÃO. – Duas coisas podemos distinguir no homem: o que lhe pertence e o que é de Deus. Pertence–lhe tudo quanto é defeituoso; e é de Deus tudo quanto respeita à salvação e à perfeição, segundo a Escritura: A tua perdição, ó Israel, vem de ti; só em mim está o teu auxílio. Ora, a humildade, como se disse, visa propriamente a veneração, que devemos a Deus. Por onde, todo homem, com o que lhe pertence, deve sujeitar–se a qualquer dos seus próximos, considerando o que tem de Deus. – Mas, a humildade não exige submetamos o que há, de Deus, em nós, ao que outrem tenham aparentemente, de Deus. Pois, os que participam dos dons de Deus sabem que os têm, segundo aquilo do Apóstolo: Para sabermos as causas que por Deus nos foram dadas. Por isso, sem prejuízo da humildade, podemos antepor os bens, que recebemos, aos dons de Deus, que parece, foram conferidos a outrem, conforme o diz o Apóstolo: O qual em outras gerações não foi conhecido dos filhos dos homens, assim como agora tem sido revelado aos seus santos apóstolos. – Semelhantemente, também a humildade não exige que nos submetamos, com o que temos, ao que o próximo é, como homem. Do contrário, seria mister nos considerássemos mais pecadores que qualquer outro; e contudo o Apóstolo, sem prejuízo da humildade, diz: Nós somos judeus por natureza e não, pecadores dentre os gentios. – Podemos porem, considerar o próximo como tendo um bem que não temos; ou como tendo nós um mal que ele não tem – o que nos poderá levar a nos sujeitarmos a ele por humildade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Devemos não só venerar a Deus em si mesmo, mas também o que é seu, em quem quer que isso se manifeste; não devemos, porém, neste segundo caso, prestar a mesma reverência que prestamos a Deus. Por onde, devemos por humildade nos sujeitar a todos os próximos, por amor de Deus, conforme a Escritura: submetei–vos a toda humana criatura por amor de Deus; mas, só a Deus devemos prestar o culto de latria.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Não podemos incorrer em falsidade se antepomos o que há de Deus, no próximo, ao que temos nós de próprio. Por isso, àquilo do Apóstolo – Tenha cada um aos outros por superiores – diz a Glosa: Não temos necessidade de estimar nada fingidamente; mas estimemos verdadeiramente um bem oculto que outrem possa ter e que no–lo torna superior, mesmo se o nosso bem, pelo qual a nós mesmo nos parecemos superior, não for oculto.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A humildade, como todas as virtudes, consiste numa atividade interna da alma. Por isso, podemos nos sujeitar a outrem por um ato interno da nossa alma, sem lhe dar ocasião de sofrer, por isso, nada que redunde em detrimento da sua salvação. E é o que diz Agostinho: Pelo temor, na presença de Deus, que o prelado se vos deite aos pés. Mas, nos atos exteriores da humildade, como nos atos das outras virtudes, devemos introduzir a moderação devida, para não redundarem em detrimento de outrem. Se, pois, fazendo o que devemos, outros daí tirarem ocasião de pecado, isso se não pode nos imputar a nós, que agimos com humildade; pois, se eles se escandalizam, não os escandalizamos nós a eles.