Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a morte foi a pena do pecado dos nossos primeiros pais.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a morte não foi a pena do pecado dos nossos primeiros pais.

1. – Pois, o que é natural ao homem não pode ser considerado pena do pecado, porque o pecado não aperfeiçoa a natureza, mas a corrompe. Ora, a morte é natural ao homem, como o demonstra o fato de ser o seu corpo composto de elementos contrários; e também o de ser o termo mortal introduzido na definição do homem. Logo, a morte não foi a pena do pecado elos nossos primeiros pais.

2. Demais. – A morte e as demais deficiências corporais tanto se encontram no homem como nos outros animais, segundo a Escritura: Uma é a morte dos homens e dos brutos e de uma e de outros é igual a condição. Ora, nos brutos a morte não é a pena do pecado. Logo, nem nos homens.

3. Demais. – O pecado dos nossos primeiros pais foi de pessoas especiais. Ora, a morte resulta da natureza humana total. Logo, não parece ser a pena do pecado dos nossos primeiros pais.

4. Demais. – Todos nos originamos igualmente dos nossos primeiros pais. Se, pois, a morte fosse a pena do pecado dos nossos primeiros pais, resultaria que todos os homens haveriam de sofrer igualmente a morte. O que é evidentemente falso, pois, uns morrem mais depressa e com maiores sofrimentos que outros. Logo, a morte não é a pena do primeiro pecado.

5. Demais. – O mal da pena vem de Deus, como se estabeleceu. Ora, parece que a morte não vem de Deus; pois, no dizer da Escritura, Deus não fez a morte. Logo, a morte não é a pena do primeiro pecado.

6. Demais. – Parece que as penas não são meritórias; pois, ao passo que o mérito supõe o bem, a pena supõe o mal. Ora, a morte às vezes é meritória, como o é a dos mártires. Logo, parece que a morte não é uma pena.

7. Demais. – A pena implica um sofrimento. Ora, a morte não pode implicá–lo, segundo parece; pois, quando ela chega, nós não a sentimos e, quando ainda não chegou, não podemos senti–la. Logo, a morte não é pena do pecado.

8. Demais. – Se a morte fosse a pena do pecado, teria resultado imediatamente dele. Ora, tal não é verdade, pois, os nossos primeiros pais viveram muito tempo depois do pecado, como lemos na Escritura. Logo, não parece a morte a pena do pecado.

Mas, em contrário, o Apóstolo diz: Por um homem entrou o pecado neste mundo e pelo pecado, a morte.

SOLUÇÃO. – Se alguém, por culpa sua, foi privado de algum benefício, que lhe fora dado, a privação desse benefício será a pena da culpa cometida. Ora, como dissemos na Primeira Parte, o homem, desde o primeiro instante da sua criação, recebeu de Deus o benefício de, enquanto tivesse o seu espírito sujeito a Deus, ter sujeita à alma racional as potências inferiores dela, e o corpo, à alma. Ora, tendo o espírito do homem repelido, pelo pecado, a sujeição divina, daí resultou que as potências inferiores já não se sujeitaram totalmente à razão, donde procedeu a tão grande rebelião dos apetites carnais contra ela, nem já o corpo se subordinou totalmente à alma: donde resultou a morte e as outras deficiências corporais. Ora, a vida e a saúde do corpo consiste em sujeitar–se à alma, como o perfectível, à sua perfeição. Por onde e ao contrário, a morte, a doença e todas as misérias do corpo resultam da falta de sujeição do corpo à alma. Donde, é claro que, assim corno a rebelião do apetite carnal contra o espírito é a pena do pecado dos nossos primeiros pais, assim também o é a morte e todas as misérias do corpo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Chama–se natural o que é causado pelos princípios da natureza. Ora, os princípios essenciais da natureza são a forma e a matéria. Ora, a forma do homem é a alma racional, por essência imortal. Por onde, a morte não é natural ao homem, quanto à sua forma. Quanto à matéria do homem, ela é um corpo tal que é composto de elementos opostos, donde resulta necessariamente a corruptibilidade. E, por aí, a morte é natural ao homem. Mas, essa condição da natureza do corpo humano é uma consequência necessária da matéria; porque o corpo humano haveria de ser o órgão do tato e, por consequência, o medianeiro entre as cousas tangíveis; e isto não podia dar–se se não fosse composto de elementos contrários, como está claro no Filósofo. Mas, essa condição não é a pela qual a matéria se adapta à forma; pois, se fosse possível, desde que a forma é incorruptível, a matéria deveria ser, antes, incorruptível. Assim como, o ser uma serra de ferro é exigido pela sua forma e pela sua atividade, pois, deve ter uma dureza que a torne apta para cortar; mas, o ser susceptível de enferrujar–se resulta necessariamente da matéria de que é feita e não, da eleição do agente, pois, se o artífice o pudesse, faria a serra de um ferro, que não pudesse enferrujar–se. Ora, Deus, criador do homem, é onipotente. Por isso, por benefício seu, livrou o homem, desde o primeiro instante da sua criação, da necessidade de morrer, resultante da matéria que o constituía. Ora, esse benefício perderam–no pelo pecado os nossos primeiros pais. E assim, a morte é natural pela condição da matéria; e é penal pela perda do beneficio divino, que dela preservava.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A referida semelhança entre os homens e os brutos se funda na condição da matéria, isto é, no corpo enquanto composto de elementos contrários; mas não, na forma, pois, ao passo que a alma do homem é imortal, as almas dos brutos são mortais.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os nossos primeiros pais foram criados por Deus, não só enquanto pessoas singulares, mas, como os princípios de toda a natureza humana, que deles deveria derivar para os pósteros, simultaneamente com o benefício divino preservativo da morte. Por isso, pelo pecado deles, toda a natureza humana, nos pósteros, destituída desse benefício, incorreu na morte.

RESPOSTA À QUARTA. – Uma privação pode resultar do pecado de dois modos. – De um modo, como pena determinada pelo juiz. E essa privação deve ser igual em todos os que igualmente pecaram. – Outra privação é a resultante por acidente da, referida pena; tal o caso de quem, cegado por culpa sua, caiu no caminho. E essa privação não se proporciona à culpa, nem é pesada pelo juiz, que não pode ter a presciência dos acontecimentos fortuitos. – Assim, pois, a pena infligida ao primeiro pecado e que proporcionalmente lhe corresponde foi a subtração do benefício divino, pelo qual se conservava à natureza humana a sua retidão e a sua integridade. E as misérias consequentes à subtração desse benefício são a morte e as outras penalidades da vida presente. Por onde, não é necessário sejam tais penas iguais naqueles que foram igualmente atingidos pelo primeiro pecado. – Ora, tendo Deus a presciência de todos os acontecimentos futuros, por disposição da sua presciência e da sua providência, tais penalidades se aplicam a diversos diversamente. Não, certo, por causa de quaisquer méritos precedentes a esta vida, como pensava Orígenes; o que vai contra as palavras do Apóstolo: Não tendo eles ainda jeito bem ou mal algum, e também contra o demonstrado na Primeira Parte, a saber, que a alma não foi criada antes do corpo. Mas, ou como pena dos pecados paternos, pois, sendo o filho de certo modo parte do pai, frequentemente os pais são punidos na prole; ou ainda como remédio para a salvação do que sofre tais penalidades, que o faça deixar o pecado ou não ensoberbecer–se pelas suas virtudes, de modo a ser coroado pela paciência.

RESPOSTA À QUINTA. – A morte pode ser considerada a dupla luz. – Primeiro, como um mal da natureza humana. E, como tal, não vem de Deus, mas, de uma certa privação resultante da culpa humana. – Segundo, enquanto implica de certo modo o bem, isto é, enquanto uma certa e justa pena. E, nesse sentido, vem de Deus. Por isso, diz Agostinho, que Deus não é autor da morte senão como pena.

RESPOSTA À SEXTA. – Diz Agostinho: Assim como os maus usam mal não somente dos males, mas também dos bens; assim, os bons usam bem, não só dos bens, mas ainda dos males. Donde vem o usarem os maus mal da lei, embora a lei seja um bem; e o morrerem bem os bons, embora a morte seja um mal. Na medida, pois, em que os santos usam bem da morte, ela se lhes torna meritória.

RESPOSTA À SÉTIMA. – A morte pode ser considerada em duplo sentido. – Primeiro, como a privação mesma da vida. E, então, não pode ser sentida, pois, é a privação dos sentidos e da vida. Portanto, a esta luz, não é pena do sentido, mas, do dano. – Segundo, enquanto designa a corrupção mesma, cujo termo é a referida privação. – A corrupção, porém, bem como a geração, podemos compreendê–las de dois modos. De um modo, enquanto termo da alteração; e, nesse sentido, dizemos chegar a morte, no primeiro instante mesmo em que há a privação da vida; e, então, também não é a morte pena do sentido. Mas, de outro modo, a corrupção pode ser entendida como acompanhada de uma alteração precedente, no sentido em que dizemos, que morre quem caminha para a morte, e em que também consideramos como sendo gerado o ser que se encaminha à geração, e, então, a morte pode ser causa de sofrimento.

RESPOSTA À OITAVA. – Diz Agostinho: A referida morte se consumou no dia em que foi praticado o que Deus proibiu: porque então os nossos primeiros pais contraíram, no corpo mortal, uma qualidade mórbida e mortífera. Ou, como diz noutra parte, embora os nossos primeiros pais vivessem ainda durante muitos anos, começaram porém a morrer no dia em que sofreram a lei da morte pela qual principiaram a envelhecer.