Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se a profecia é um hábito.

O segundo discute–se assim. – Parece que a profecia é um hábito.

1. – Pois, como diz Aristóteles, três coisas há na alma: a potência, a paixão e o hábito. Ora, a profecia não é uma potência, porque então existiria em todos os homens que têm todas as potências da alma. Semelhantemente, não é uma paixão, porque as paixões pertencem à potência apetitiva, como se estabeleceu; ora, a profecia respeita principalmente o conhecimento, como se disse. Logo, a profecia é um hábito.

2. Demais. – Toda perfeição da alma, que não é sempre atual, é um hábito. Ora, a profecia é uma perfeição da alma; mas nem sempre está em ato; do contrário não se diria de um profeta, que está adormecido. Logo, parece que a profecia é um hábito.

3. Demais. – A profecia é computada entre as graças gratuitas. Ora, a graça é um hábito da alma, como se estabeleceu. Logo, a profecia é um hábito.

Mas, em contrário. – É pelo hábito que agimos quando queremos como ensina o Comentador. Ora, não se pode profetizar quando se quer; como está claro na Escritura, a respeito de Eliseu, o qual, tendo–o Josatá interrogado sobre o futuro, e lhe faltando o espírito de profecia, mandou chamar um homem que tocava o saltério, afim de, pela virtude da salmodia, descesse sobre ele o espírito de profecia e lhe enchesse a alma do conhecimento do futuro, como diz Gregório. Logo, a profecia não é um hábito.

SOLUÇÃO. – Como diz o Apóstolo, tudo o que se manifesta é luz, porque, assim como a manifestação da visão corporal se faz pela luz material, assim também a manifestação da visão espiritual, pela luz intelectual. Por onde, há necessariamente a manifestação de proporcionar–se à luz pela qual se realiza, como o efeito se proporciona à sua causa. Ora, a profecia, supondo um conhecimento supra–racional, como se disse, há de por consequência exigir um certo lume inteligível, excedente à luz da razão natural. Donde o dizer a Escritura: Depois de ter estado assentado nas trevas, o Senhor é a minha luz. Ora, um corpo pode ser luminoso de dois modos: por lhe ser a luz a forma permanente, tal a luz material do sol e do fogo; ou por lhe ser a luz ou uma certa paixão ou impressão transitiva, tal a luz do ar. Ora, o intelecto do profeta não tem a luz profética, como forma permanente; do contrário, o profeta teria sempre a faculdade de profetizar, o que é evidentemente falso. Pois, diz Gregório: As vezes falta aos profetas o Espírito de profecia, que nem sempre lhes ilumina a alma; e assim, o não o terem sempre falsos saber que o têm como dom, quando profetizam. Por isso, Eliseu disse, da mulher Sunamite: A sua alma está em amargura e o Senhor mo encobriu e não mo manifestou. E a razão disto é, que o lume intelectual, quando é forma permanente e perfeita, de um ser, aperfeiçoa o intelecto, principalmente para conhecer o princípio daquelas coisas que por esse lume se manifestam; assim, pelo lume do intelecto agente sobretudo, o intelecto conhece os primeiros princípios de todas as coisas naturalmente conhecidas. Mas, o princípio do que pertence ao conhecimento sobrenatural, e que se manifesta pela profecia, é Deus mesmo, desconhecido, na sua essência, dos profetas. Ao passo que, corno tal, ele é contemplado pelos bem–aventurados, na pátria, que têm esse lume, a modo de forma permanente e perfeita, segundo aquilo da Escritura: No teu lume veremos o lume.

Donde se conclui, que o lume profético mora na alma do profeta a modo de paixão ou impressão transitiva. O que está significado na Escritura: Quando passar a minha glória, eu te porei ao buraco da pedra, etc.; e noutra parte, se diz a Elias: Sai e tem–te no monte diante do Senhor; e eis que passa o Senhor, etc.. E daí vem, que assim como os exige sempre nova iluminação, assim também, o espírito do profeta precisa sempre de uma nova revelação, do mesmo modo que o discípulo, ainda não exercido nos princípios da arte, precisa ser ensinado em todas as partes dela. Por isso, diz a Escritura: Pela manhã me levanta o ouvido, para que eu o ouça como ao mestre. E também o modo mesmo de falar designa a profecia, pelo qual se diz, que o Senhor falou a tal ou tal profeta; ou que a palavra do Senhor se fez ouvir; ou, a mão do Senhor se estendeu sobre ele. – Quanto ao hábito, ele é uma forma permanente. Por onde é manifesto, que a profecia, propriamente falando, não é um hábito.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Essa divisão do Filósofo não compreende, de modo absoluto, tudo o que existe na alma; mas, aquilo que pode ser princípio dos atos morais e que, ora, procede da paixão, ora, do hábito, e ora, da simples potência, como o demonstram aqueles que, pelo juízo da razão, praticam um ato, antes de terem o hábito. – Pode contudo a profecia provir da paixão, contanto que se tome o nome de paixão por qualquer recepção, no sentido em que o Filósofo diz, que inteiigir é, de certo modo, sofrer. Pois, assim como, no conhecimento natural, o intelecto possível recebe passivamente a luz do intelecto agente, assim também, no conhecimento profético, o intelecto recebe passivamente a ilustração do lume divino.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Assim como as coisas corpóreas, quando a paixão desaparece, guardam uma certa capacidade para de novo padecerem uma ação, como é o caso da lenha que, uma vez queimada, de novo e mais facilmente se queima, assim também, no intelecto do profeta, quando cessa a ilustração atual, permanece uma certa capacidade para ser de novo e mais facilmente ilustrada. E como também na alma, uma vez provocada à devoção, mais facilmente volta, depois, à devoção primitiva. Por isso Agostinho diz, que são necessárias orações continuadas, afim de não se extinguir totalmente a devoção incipiente. – Pode–se porém dizer, que um tal chama–se profeta, mesmo depois de ter cessado a ilustração profética atual, por deputação divina, conforme aquilo da Escritura: E te estabeleci profeta entre as gentes.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Todo dom da graça eleva o homem a um estado superior à natureza humana. O que de dois modos pode dar–se. ­ Primeiro, quanto à substância do ato, assim, fazer milagres e conhecer as coisas incertas e ocultas da sabedoria divina. E, para tais atos não é dado ao homem o dom da graça habitual. – Segundo, esse estado superior à natureza humana se refere ao modo do ato, mas não à sua substância; assim, amar a Deus é conhecê–lo no espelho das criaturas. E para isso é conferido o dom da graça habitual.