Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se os que alcançaram o dom das línguas falavam todas as línguas.

O primeiro discute–se assim. – Parece que os que alcançaram o dom das línguas não falavam todas as línguas.

1. – Pois, o dom concedido por Deus a alguém é óptimo no género; assim o Senhor converteu a água em bom vinho, como se lê no Evangelho. Ora, os que tiveram o dom das línguas falaram melhor na própria língua. Pois, diz a Glosa: Não é para admirar se a Epístola aos Hebreus é ilustrada com maior facúndia que outras, por nos ser natural falar melhor a nossa que as outras línguas. As outras epístolas o Apóstolo as compôs em grego, língua para ele estrangeira; mas, aos Hebreus escreveu na língua própria. Logo, pela graça gratuita que receberam os Apóstolos não alcançaram a ciência de todas as línguas.

2. Demais. – A natureza não faz por muitos meios o que pode fazer para um só; e ainda menos Deus, autor da natureza. Ora, Deus podia fazer os seus discípulos falarem uma só língua e serem compreendidos por todos. Por isso, àquilo da Escritura – A eles os ouvia falar cada um na própria língua – diz a Glosa: Porque falavam todas as línguas; ou porque falando a própria a eles, isto é, a hebraica, eram entendidos por todos como se falassem a língua particular de cada um. Logo, parece que não tiveram a ciência de falar todas as línguas.

3. Demais. – Todas as graças derivam de Cristo para seu corpo, que é a Igreja, conforme a Escritura: Todos nós participámos da sua plenitude. Ora, como lemos no Evangelho, Cristo falou uma só língua; nem atualmente cada um dos fiéis fala mais de uma. Logo, parece que os discípulos de Cristo não receberam a graça de falar todas as línguas.

Mas, em contrário, a Escritura: Foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em várias línguas. conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. O que assim comenta a Glosa de Gregório: O Espírito Santo apareceu sobre os discípulos em línguas de fogo e lhes deu a ciência de todas as línguas.

SOLUÇÃO. – Cristo escolheu os seus primeiros discípulos para percorrerem o mundo pregando a sua fé a todos, como se lê no Evangelho: Ide e ensinei todas as gentes. Ora, não era conveniente que os enviados a ensinar os outros precisassem de ser instruídos por eles sobre o modo com que lhes houvessem de falar ou de lhes entender a língua. Sobretudo que os discípulos enviados eram da mesma nação, a Judéia, como diz a Escritura: Os que investem com ímpeto a Jacó encherão de fruto a face do orbe. Além disso os discípulos enviados eram pobres e sem poder; nem poderiam a principio encontrar facilmente quem com fidelidade lhes interpretassem aos outros as suas palavras, ou lhas explicasse. principalmente por terem sido enviados a povos infiéis. Por isso era necessário sempre a Providência vír–Ihes em socorro com o dom das línguas. De modo que assim como as gentes, que caíram na idolatria, vieram a falar línguas diversas, segundo o refere a Escritura, assim também, quando foram convertidas ao culto de um só Deus, o dom das línguas vem a ser o remédio a essa diversidade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Como diz o Apóstolo, a manifestação do Espírito é dada para proveito. Por isso, Paulo e os outros Apóstolos foram suficientemente instruídos por Deus nas línguas de todas as gentes, quanto o exigia o ensinamento da fé. Mas, no concernente a certas particularidades acrescentadas pela arte, como ornato e elegância da locução, nisso o Apóstolo fora instruído na própria língua e não nas alheias. Assim também foram suficientemente instruídos na sabedoria e na ciência, quanto o exigia a doutrina da fé; mas não em relação a tudo o que se conhece pela ciência adquirida, por exemplo, sobre as conclusões da aritmética ou da geometria.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Bem podiam ambas as coisas se darem: serem os apóstolos, falando uma só língua, entendidos de todos; ou falarem as línguas de todos. Contudo era mais conveniente falarem eles as línguas de todos; porque a perfeição da ciência deles exigia não somente o falarem, mas ainda o poderem entender a fala dos outros. Mas se todos entendessem a língua única, que os discípulos falassem, sê–lo–ia pela ciência dos que lhes entendessem a fala, ou uma como ilusão, pela qual as palavras dos discípulos chegassem aos ouvintes em sentido diferente daquele com que foram proferidas. Por isso a Glosa diz que por um milagre maior começaram a falar em várias línguas. E Paulo diz: Graças dou ao meu Deus, que falo todas as línguas que vós falais.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Cristo devia pregar, em pessoa, à única nação dos Judeus. Por isso, embora sem nenhuma dúvida tivesse perfeitissimamente a ciência de todas as línguas, não tinha contudo necessidade de as falar todas. ­ Por isso, diz Agostinho: Atualmente, quando recebe o Espírito Santo, ninguém fala as línguas de todos os povos, porque já a Igreja as fala todas; e quem a ela não pertence recebe o Espírito Santo.