Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se os maus podem fazer milagres.

O segundo discute–se assim. – Parece que os maus não podem fazer milagres.

1. – Pois, os milagres se impetram pela oração, como se disse. Ora, Deus não ouve a oração do pecador, segundo a Escritura: Nós sabemos que Deus não ouve a pecadores. E noutro lugar: Daquele que desvia os seus ouvidos para não ouvir a lei, a mesma oração será execrável. Logo, parece que os maus não podem fazer milagres.

2. Demais. – Os milagres se atribuem à fé, segundo o Evangelho: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte passa daqui para acolá, e ele há de passar e nada vos será impossível. Ora, a fé sem as obras é morta, diz a Escritura; e portanto, não parece que tenha uma operação própria. Logo, parece que os maus, que não praticam boas obras, não podem fazer milagres.

3. Demais. – Os milagres são uns testemunhos divinos, segundo o Apóstolo: Confirmando Deus com sinais e maravilhas e com virtudes diversas. Por isso, a Igreja canonizou certos, tomando–lhes como testemunhos os milagres. Ora, Deus não pode ser falsa testemunha. Logo, parece que os maus não podem fazer milagres.

4. Demais. – Os bons estão mais próximos de Deus que os maus. Ora, nem todos os bons fazem milagres. Logo, muito menos os maus.

Mas, em contrário, o Apóstolo: Se eu tiver o dom da profecia até o ponto de transferir montes, e não tiver caridade não sou nada. Ora, todo aquele que não tem caridade é mau, pois, como ensina Agostinho, só este dom do Espírito Santo é o dividido entre os filhos do reino e os da perdição. Logo, parece que também os maus podem fazer milagres.

SOLUÇÃO. – Certos milagres não são verdadeiros mas obras fantásticas com que se o homem ilude, julgando mal o que não o é. Outros são verdadeiros, embora não constituam essencialmente milagres, por se realizarem em virtude de certas causas naturais. Ora, essas duas espécies de milagres os demônios podem fazê–las.

Mas, os verdadeiros milagres não se podem realizar senão por virtude divina, pois, Deus os faz para a utilidade do homem. E isto de dois modos. Primeiro, para confirmação da verdade anunciada. Segundo, para manifestar a santidade de alguém, que Deus quer propor aos homens como exemplo de virtude.

Ora, do primeiro modo, os milagres podem ser operados por todos os que pregam a verdadeira fé e invocam o nome de Cristo; o que também às vezes o fazem os maus. E, neste sentido, também os maus podem fazer milagres. Por isso, aquilo do Evangelho – Não é assim que profetizamos em teu nome, etc. – diz Jerônimo: Profetizar ou operar virtudes e expulsar demônios não é às vezes mérito de quem o faz; mas, quem o realiza é a invocação do nome de Cristo, para os homens honrarem a Deus, por cuja invocação se operam tão grandes milagres.

No segundo sentido, milagres só os fazem os santos, para manifestarem a sua santidade, quer em vida deles, quer depois da morte, tanto por si mesmos como por meio de outros. Assim, lemos na Escritura: Deus fazia milagres por mão de Paulo, e também sendo aplicados aos enfermos os lençóis que tinham tocado no corpo de Paulo, fugiam deles as doenças. – E deste modo também nada impede de algum pecador fazer milagres, invocando algum santo. Mas, não dizemos que esse talos operou, senão aquele cuja santidade os milagres manifestam.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Como dissemos, quando tratámos da oração, a oração impetratória não se funda no mérito, mas na divina misericórdia que também se estende aos maus. Por isso, às vezes Deus ouve também a oração dos pecadores. Donde o dizer Agostinho, que o cego pronunciou as palavras referidas no Evangelho, quase ainda não ungido, isto é, ainda não perfeitamente esclarecido; pois, Deus ouve os pecadores. – Quanto ao outro lugar citado da Escritura. – a oração do que não ouve a lei é execrável, deve ele ser entendido relativamente ao mérito do pecador. Mas, às vezes, a oração impetra a misericórdia de Deus, quer para a salvação do que ora, como quando foi ouvido o publicano, segundo refere o Evangelho; quer também para a salvação dos outros e para a glória de Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Diz–se que a fé sem as obras é morta, relativamente ao crente, que por ela não vive a vida da graça. Mas nada impede o vivo operar por um instrumento morto; assim o homem age por meio de um bastão. E deste modo Deus age instrumentalmente por meio da fé do homem pecador.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os milagres sempre são testemunhos verdadeiros daquilo em favor do que são feitos. Por isso, os maus, anunciadores de uma falsa doutrina, nunca operam verdadeiros milagres para a confirmação da sua doutrina. Embora às vezes possam fazê–los para glorificação do nome de Cristo, que invocam, e em virtude dos sacramentos que administram. Mas, os anunciadores de doutrinas verdadeiras fazem às vezes verdadeiros milagres para confirmá–las, mas não para testificar a santidade. Por isso, Agostinho diz: Os magos, os bons cristãos e os maus não fazem milagres do mesmo modo. Assim, os magos os operam por pactos particulares com os demônios; os bons cristãos, pela justiça pública; e os maus cristãos, por sinais da justiça pública.

RESPOSTA À QUARTA. – Como diz Agostinho no mesmo lugar, esses fatos milagrosos não são concedidos a todos os santos, afim de os fracos não caírem no erro perniciosíssimo de pensarem que tais fatos constituem um dom maior que as obras de justiça, com que se ganha a vida eterna.