Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 6 – Se o ato da contemplação se discrimina pelos três movimentos – o circular, o retilíneo e o oblíquo.

O sexto discute–se assim. – Parece que o ato da contemplação se discrimina inconvenientemente pelos três movimentos: o circular, o retilíneo e o oblíquo.

1. – Pois, a contemplação é toda ela fundada no repouso, segundo a Escritura: Entrando em minha casa, acharei o descanso com ela. Ora, o movimento se opõe ao repouso. Logo, as operações da vida contemplativa não devem ser designadas pelo movimento.

2. Demais. – A atividade contemplativa pertence ao intelecto, pelo qual o homem se assemelha aos anjos. Ora, Dionísio atribui esses movimentos aos anjos diferentemente do que o faz aos homens. – Assim, diz que o movimento circular do anjo é segundo as iluminações do belo e do bem. Ao passo que no movimento circular da alma distingue vários elementos. O primeiro é o separar–se a alma das coisas exteriores e concentrar–se em si. O segundo é o concentrar–se a alma nas suas potências, livrando–se assim do erro e das agitações exteriores. O terceiro é a união ao que lhe é superior. – Também discrimina diferentemente de uma e de outro. Assim, diz que o movimento retilíneo do anjo consiste em tomar providências dos seus subordinados. Enquanto que atribuiu dois objetos ao movimento retilíneo da alma: pelo primeiro ela dirige a sua atividade aos seres que a rodeiam; pelo segundo, eleva–se das coisas exteriores à contemplação pura – E ainda, o movimento Oblíquo ele o determina diversamente nos dois casos. Assim, considera como o movimento oblíquo dos anjos o proverem os superiores aos inferiores, permanecendo nas mesmas relações para com Deus. Ao passo que o movimento Oblíquo da alma ele o faz consistir em ser a alma iluminada pelo conhecimento racional e difusivamente de Deus. Logo, os modos supra–referidos não discriminam convenientemente as operações da contemplação.

3. Demais. – Ricardo de S. Vitor introduz muitas outras diferenças de movimentos, à semelhança do das aves do céu. Assim, certas elevam–se às maiores alturas para de lá arremessarem–se para baixo, uma e muitas vezes; outras voam repetidamente para a esquerda e para a direita; ainda outras volteiam mil vezes da frente para trás; certas voam girando em circuitos mais dilatados ou mais reduzidos; outras enfim quase imóveis pairam suspensas no ar. Logo, parece não serem só três os movimentos da contemplação.

Em contrário, a autoridade de Dionísio.

SOLUÇÃO. – Como dissemos a operação do intelecto, no qual consiste essencialmente a contemplação, é considerada movimento, no sentido em que este é o ato de um ser perfeito, segundo o Filósofo. Pois, como chegamos ao conhecimento dos inteligíveis por meio dos sensíveis, e as operações sensíveis implicam o movimento, por isso também as operações inteligíveis são discriminadas quase como movimentos, sendo as diferenças delas assinaladas corretamente às dos diversos movimentos. Ora, dos movimentos dos corpos, o mais perfeito e o primeiro é o local, como o prova Aristóteles. Por isso é sobretudo, por semelhança com ele, que se discriminam as operações intelectuais. Ora, há três movimentos diferentes. O circular, pelo qual um corpo se move uniformemente em torno do mesmo centro; o retilíneo, pelo qual vai de um ponto para outro; e o terceiro é o oblíquo, quase composto de um e de outro. Por onde, nas operações inteligíveis, ao que tem a uniformidade pura se atribui o movimento circular; à operação inteligível pela qual procedemos de uma para outra coisa, se atribui o movimento retilíneo; e à operação inteligível, que tem uma certa uniformidade simultânea com o movimento para pontos diversos, se atribui o movimento oblíquo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O movimento exterior dos corpos se opõe à quietude da contemplação, enquanto que esta é contrária às ocupações externas. Ao contrário, o movimento das operações inteligíveis implica essa quietude mesma da contemplação.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Pelo intelecto o homem convém genericamente com o anjo, embora a penetração intelectiva seja muito mais aguda neste que naquele. Por onde, tal movimento há de discriminar–se diferentemente num e noutro, enquanto realizam diversamente a uniformidade. Pois, o conhecimento do· intelecto angélico é uniforme a dupla luz. Primeiro, porque não haure a verdade inteligível da variedade das coisas compostas. Segundo, porque não intelige a verdade dos inteligíveis discursivamente, mas por uma simples intuição. Ao contrário, o intelecto da alma haure a verdade inteligível nas coisas sensíveis; e a intelige mediante um certo discurso da razão.

Por isso Dionísio atribui o movimento circular aos anjos, por contemplarem eles a Deus, uniforme e ininterruptamente, sem princípio nem fim; assim como o movimento circular, carecente de princípio e de fim gira uniformemente em torno de um mesmo centro. – Ao passo que a alma, antes de chegar a essa uniformidade, há de livrar–se da sua dupla deformidade. – Primeiro, da que provém da diversidade das coisas externas; e isso ela o consegue apartando–se delas. Por isso, Dionísio compreende, primeiramente, no movimento circular da alma, o separar–se a alma das coisas exteriores e concentrar–se em si. – Depois, há de a alma remover a sua segunda deformidade, proveniente do discurso da razão. E isto ela o alcança reduzindo todas as suas operações à pura contemplação da verdade inteligível. Por isso exige em segundo lugar o concentrar–se a alma nas suas potências intelectuais, de modo a, cessado todo discurso, aplicar o seu intuito à contemplação da pura e única verdade. Nem há erro nesta operação da alma, como o demonstra o fato de não errarmos na inteleção dos primeiros princípios, que conhecemos por simples intuição. ­ E então, vencidos esses dois obstáculos, Dionísio coloca em terceiro lugar a conformidade uniforme com os anjos, resultante de a alma, separada de tudo, perseverar na só contemplação de Deus. Por isso diz: Depois, assim feita toda ela uniformidade, unidamente, isto é, conforme às potências perfeitamente unas, e entregar–se à contemplação do belo e do bem.

Quanto ao movimento retilíneo, não pode ser atribuído aos anjos, como se eles conhecessem passando de uma para outra coisa, mas só em ordem à providência deles, enquanto que os anjos superiores iluminam os inferiores, pelos intermediários. Por isso diz, que os anjos se movem em linha reta, quando os superiores exercem a sua providência sobre os inferiores, que segue sempre a linha reta, isto é, conforme o exige uma reta disposição. – Ao passo que atribui o movimento retilíneo à alma, por proceder ela dos sensíveis exteriores ao conhecimento dos inteligíveis.

Enfim, o movimento oblíquo, composto do retilíneo e do circular, ele o atribui aos anjos, por proverem os superiores aos inferiores, por meio da contemplação divina. – E também à alma atribui esse mesmo movimento, por semelhança, composto do retilíneo e do circular, enquanto que ela, raciocinando, se socorre da iluminação divina.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Estão contidos no movimento retilíneo ou no oblíquo todas as diversidades de movimentos, fundados nas diferenças de cima para baixo, de direita para a esquerda, de diante para trás e pelos diversos circuitos; pois, todas designam o discurso da razão. O qual, se proceder do gênero para a espécie ou do todo para a parte, terá o sentido, como ele o expõe, do movimento de cima para baixo. Se partir de um contrário para outro, será como o movimento da direita para a esquerda. Se passar das causas para os efeitos, será comparável ao de diante para trás. Se, porém tiver por objetos os acidentes circunstanciais das coisas, próximos ou remotos, será como o movimento em circuito. Mas o discurso da razão, quando parte dos sensíveis para chegar ao inteligível, conforme a ordem da razão natural, pertence ao movimento rebilíneo. Quando porém se processar por iluminação divina, constitui o movimento oblíquo, como do sobredito se colhe. Só o que chama imobilidade é que pertence ao movimento circular. – Donde claramente se conclui, que Dionísio muito suficiente e subtilmente discriminou os movimentos da contemplação.