Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 – Se é ilícito ao bispo, por causa de alguma perseguição abandonar materialmente o rebanho que lhe foi confiado.

O quinto discute–se assim. – Parece que não é lícito ao bispo, por causa de alguma perseguição, abandonar materialmente o rebanho que lhe foi confiado.

1. – Pois, diz o Senhor, que é mercenário e não verdadeiro pastor, aquele que vê vir o lobo e deixa as ovelhas e foge. Ora, Gregório diz, que o lobo vem contra as ovelhas, quando um tirano injusto e roubador oprime os fiéis e os humildes. Se, portanto, pela perseguição de um tirano o bispo abandonar materialmente o rebanho que lhe foi confiado, parece que é mercenário e não pastor.

2. Demais. – A Escritura diz: Filho meu, se ficares por fiador do teu amigo, deste por ele a tua mão a um estranho. E acrescenta: Discorre duma para outra parte, apressa–se, desperta ao teu amigo. Expondo o que, diz Gregório: Comprometer–se por um amigo é devotar–se pela alma de outrem com o perigo da sua virtude própria. Pois, quem é proposto como exemplo aqueles com quem vive, está na obrigação de não somente velar pelo amigo, mas também de adverti–lo. Ora, isto não o pode fazer quem materialmente abandonou o seu rebanho. Logo, parece que o bispo não pode, por causa de perseguição, abandonar materialmente o seu rebanho.

3. Demais. – A perfeição do estado episcopal exige que o bispo se consagre ao zelo do próximo. Ora, a quem professou o esta do de perfeição não é lícito resolutamente abandonar a prática da mesma. Logo, não parece lícito ao bispo materialmente furtar–se às obrigações do seu ofício, salvo para vacar, num mosteiro, às obras de perfeição.

Mas, em contrário, aos Apóstolos, de quem os bispos são os sucessores, mandou o Senhor: Quando vos perseguirem numa cidade fugi para outra.

SOLUÇÃO. – Em toda obrigação devemos antes de tudo considerar o fim. Ora, os bispos obrigam–se a cumprir o ofício pastoral para a salvação dos súbditos. Por onde, sempre que a salvação deles exigir a presença do pastor, não deve ele abandonar pessoalmente seu rebanho, nem por qualquer vantagem temporal, nem mesmo por nenhum perigo pessoal iminente, porque o bom pastor está obrigado a dar a vida pelas suas ovelhas. Se porém na sua ausência, o pastor puder velar, por meio de outrem, pela salvação dos súditos, então lhe é lícito, para alguma vantagem da Igreja ou por um perigo que lhe ameaça a pessoa, abandonar pessoalmente o seu rebanho. Donde o dizer Agostinho: Fujam os servos de Cristo de cidade para cidade, quando forem especialmente visados pelos perseguidores, contanto que a Igreja não seja abandonada pelos que não forem assim perseguidos. Se porém, o perigo for comum a todos, os que precisam dos outros não sejam abandonados por aqueles que os devem socorrer. Se, pois, é condenável o navegante abandonar a nau quando o mar está tranquilo, quanto mais o é na tempestade? como diz o Papa Nicolau.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Foge como mercenário aquele que antepõe uma vantagem temporal ou mesmo a salvação da vida do corpo à salvação espiritual dos próximos. Por isso diz Gregório: Não enfrenta o perigo que lhe ameaça as ovelhas aquele que, nas suas funções de pastor, em vez de amar as ovelhas, busca lucros temporais; pois, teme arrostar o perigo afim de não perder o que ama. Mas aquele que, para evitar o perigo, se afasta sem detrimento do rebanho, não foge como mercenário.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Quem se compromete por outro, se não pode pessoalmente cumprir o prometido, basta que o faça por meio de um terceiro. Por isso o prelado, se tem um impedimento pelo qual não pode pessoalmente exercer a cura dos súditos, satisfaz o seu compromisso se o cumprir por meio de outrem.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Quem foi escolhido para o episcopado assume o estado de perfeição num gênero determinado dela; mas se ficar impedido de o exercer, não está obrigado a entregar–se a outro género de perfeição de modo que devesse passar para o estado de religioso. Impõe–se lhe porém a necessidade de conservar a intenção de velar pela salvação dos próximos, quando se apresentar a oportunidade e as circunstâncias o exigirem.