Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 – Se os religiosos estão obrigados ao trabalho manual.

O terceiro discute–se assim. – Parece que os religiosos estão obrigados ao trabalho manual.

1. – Pois, os religiosos não estão dispensados de observar os mandamentos. Ora, há um mandamento que ordena o trabalho manual, conforme aquilo do Apóstolo: Que trabalheis com as vossas mãos, com vê–lo temos ordenado. E por isso diz Agostinho: Demais, quem suportará que homens contumazes – isto é, religiosos que não trabalham aos quais se refere S. Paulo – que resistem às salubérrimas advertências do Apóstolo, longe de serem suportados como fracos sejam louvados como mais santos que os outros? Logo, parece que os religiosos estão obrigados ao trabalho manual.

2. Demais. – Aquilo do Apóstolo – Se algum não quer trabalhar, não coma – diz a Glosa: Alguns ensinam, que o Apóstolo assim o ordenou, referindo–se às obras espirituais, e não ao trabalho corporal, próprio dos agricultores ou dos artífices. E mais abaixo: Mas se esforçam em vão por obnubilar a compreensão própria e a dos outros, não querendo, não somente deixar de fazer, mas nem mesmo entender as úteis advertências da caridade. E ainda: Quer que os servos de Deus trabalhem manualmente, para viverem. Ora, os religiosos são chamados os servos de Deus por excelência, como quem se lhe consagrou totalmente ao serviço, segundo está claro em Dionísio. Logo, parece que estão obrigados ao trabalho manual.

3. Demais. – Agostinho diz: Bem quereria saber que farão os que não querem trabalhar manualmente? Entregam–se às orações, dirão, à salmodia, à leitura e à palavra de Deus. Mas, que nenhuma dessas atividades os escusa do trabalho manual facilmente o demonstra, Assim, primeiro, da oração diz: Mais depressa é ouvida a oração de um que obedece, do que a de dez que desprezam; e entende como contemptores e indignos de serem ouvidos os que irão trabalham manualmente. Segundo, dos divinos louvores, acrescenta: Quanto a cantar cânticos divinos também o podem os que trabalham manualmente. Em terceiro lugar, da leitura, ajunta: Porventura nunca descobriram, na leitura, o preceito do Apóstolo aqueles que dizem vacar a ela? Pois que anomalia é essa de querer vacar à oração sem nada praticar de que ela manda? E em quarto lugar pergunta ainda, a respeito da pregação: Se há quem deva exercer o ministério da palavra e se entregue a essa obra a ponto de não poder exercer o trabalho manual, seria esse o proceder conveniente a todos os monges? Mas, se todos não podem pregar, por que, a esse pretexto, querem todos se isentar do trabalho manual? E ainda mesmo que todos o pudessem, deveria fazê–lo cada um por sua vez, não só para que os outros se ocupassem com o necessário, mas ainda por bastar a palavra de um só a um grande número de ouvintes. Logo, parece que os religiosos não devem abandonar o trabalho manual por causas dessas obras espirituais a que pretendem vacar.

4. Demais. – Aquilo do Evangelho – Vendei o que possuís, etc., – diz a Glosa. Não somente deveis distribuir os vossos mantimentos com os pobres, mas ainda, vender os vossos bens afim de, renunciando a todos de uma vez por amor de Deus, trabalhardes depois o trabalho de vossas mãos, para terdes com o que viver e fazer esmolas. Ora, é dever dos religiosos renunciar a todos os seus bens. Logo, parece que também o é viver do trabalho das próprias mãos e dar esmola.

5. Demais. – Parece que mais que ninguém os religiosos estão obrigados a imitar os Apóstolos, pois professam o estado de perfeição. Ora, os Apóstolos exerciam o trabalho manual, segundo S. Paulo: Trabalhamos obrando por nossas próprias mãos. Logo, parece que os religiosos estão obrigados ao trabalho manual.

Mas, em contrário. – À observância dos preceitos dados, em geral para todos estão igualmente obrigados tanto religiosos como seculares. Ora, o preceito do trabalho manual foi geralmente estabelecido para todos, como está claro no Apóstolo: Nós vos intimamos que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente, designando com o nome de irmão qualquer Cristão. E, noutro lugar: Se algum irmão tem mulher infiel, etc.; e ainda: Se algum não quer trabalhar, não coma. Logo, não estão os religiosos, mais que os seculares, obrigados ao trabalho manual.

SOLUÇÃO. – O trabalho manual se ordena a um quádruplo fim. – Primeiro, ao granjeio do necessário à vida. Por isso foi ordenado ao primeiro homem: Tu comerás o pão com o suor do teu rosto. E noutro lugar diz a Escritura: Comerás do trabalho das tuas mãos, etc. ­ Além disso, o trabalho tem por fim, combater a preguiça, donde se originam muitos males. Daí o dito da Escritura: Ao teu escravo manda–o à tarefa, para que não esteja ocioso; porque a ociosidade tem ensinado muita malícia. – Em terceiro lugar o trabalho se ordena a refrear a concupiscência, porque macera o corpo. Por isso, diz o Apóstolo: Nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na castidade. – E por fim, em quarto lugar, o trabalhe nos dá o meio de fazer esmolas. Donde o dizer o Apóstolo: Aquele que furtava não furte mais; mas ocupe–se antes no trabalho, fazendo alguma obra de mãos que seja boa e útil, para daí ter com que socorra ao que padece necessidade.

Ora, na medida em que o trabalho manual se ordena ao buscar o nosso sustento, é de necessidade de preceito, como necessário a um tal fim. Mas, o que se ordena para um fim tira deste a sua necessidade, de modo que é necessário por isso mesmo que o fim não pode ser alcançado sem esse meio. Portanto, quem não tem outro meio de vida está obrigado ao trabalho manual, seja qual for a sua condição. E é o que significam as seguintes palavras do Apóstolo: Se algum não quer trabalhar, não coma, quase se dissesse que todos temos necessidade de trabalhar com as nossas mãos, como temos de comer. Por onde, quem pudesse passar a vida sem comer também não estaria obrigado ao trabalho manual. O mesmo devendo dizer–se daqueles que não têm outro meio lícito de vida. Pois, entende–se que não podemos fazer o que licitamente não o podemos. Por isso, o Apóstolo, como vemos, não ordenou o trabalho manual senão para excluir o pecado dos que buscavam sustento ilicitamente. Pois, primeiro, o Apóstolo ordena o trabalho manual para se evitar o furto, como está claro nas suas palavras: Aquele que furta não furte mais; mas ocupe–se antes do trabalho, fazendo alguma obra de mãos. Segundo, para evitarmos a cobiça das causas alheias: Trabalhai com as vossas mãos como vô–lo temos ordenado e que andeis honestamente com os que estão fora. Terceiro, para evitar os meios desonestos com que certos procuram manter–se: Ainda quando estávamos convosco vos denunciávamos isto – que se algum não quer trabalhar não coma. Porquanto temos ouvido que andam alguns entre vós inquietos, que nada fazem senão indagar o que lhes não importa. Ao que a Glosa diz: os que desonestamente buscam o seu sustento. A estes, pois, continua o Apóstolo, que assim se portam lhes denunciamos e rogamos que comam o seu pão trabalhando em silêncio. Por isso, diz Jerônimo, que o Apóstolo assim o determinou, não tanto pelo dever de ensinar, como pelo vício do povo. – Devemos porém saber que nas obras do trabalho manual se incluem todos os ofícios humanos pelos quais o homem pode ganhar a sua vida licitamente, quer o realize com as mãos ou com os pés ou com a língua. Pois, os guardas noturnos, os correios e outros tais que vivem do seu trabalho, entende–se que vivem das obras das suas mãos. Porque as mãos, sendo os órgãos dos órgãos, por obras manuais se entendem todas as obras com que pode um licitamente granjear a vida.

Mas, quando o trabalho manual se ordena a dissipar o ócio ou à maceração do corpo, não é de necessidade de preceito, em si mesmo considerado. Pois, de muitos outros modos podemos macerar a carne, ou combater a ociosidade, do que pelo trabalho manual. Assim, macera–se a carne com jejuns e Vigílias; e a ociosidade se combate meditando a Sagrada Escritura e louvando a Deus. Por isso, àquilo dos Salmos ­ Os meus olhos se enfraqueceram de atentos à tua palavra – diz a Glosa: Não é ocioso quem é todo atenção às palavras de Deus; nem faz mais o que se dá ao trabalho exterior do que aquele que se aplica ao conhecimento da verdade. Por onde, essas causas dispensam o religioso do trabalho manual, como dispensam os seculares; salvo se as regras da sua ordem o obrigarem a tal trabalho, como ensina Jerônimo: Os mosteiros dos Egípcios tem o costume de não receber ninguém a quem não imponham o trabalho manual, não tanto para manter a vida por meio dele, mas, em benefício da salvação da própria alma, pois, não vagueará em vãos pensamentos. Mas, o trabalho manual com o fim de ter com o que dar esmolas não pode obrigar sob preceito, salvo no caso de estar um necessariamente obrigado a fazer esmolas sem ter meios de socorrer aos pobres senão pelo trabalho manual. Mas, em tal caso, ao trabalho manual estariam obrigados tanto religiosos como seculares.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O preceito estabelecido pelo Apóstolo é de direito natural. Por isso àquele lugar Que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente – diz a Glosa: de modo diferente do que exige a lei da natureza. Pois, nesse lugar o Apóstolo se refere aos que abandonavam o trabalho manual. Por isso a natureza deu mãos ao homem, em lugar de armas e de pelos, com que dotou os outros animais, de modo a, com o trabalho delas, poder satisfazer a todas as suas necessidades. Por onde é claro, que tanto religiosos como seculares estão geralmente obrigados ao referido preceito, assim como o estão a todos os demais preceitos da lei natural. Contudo, não pecam os que não trabalhem manualmente. Pois, a esses preceitos da lei natural relativos ao bem geral não está obrigado cada um em particular; bastando ocupar–se este com um determinado trabalho e aquele, com outro. Assim, serão uns artífices, outros agricultores, outros juízes, outros, professores e assim por diante, segundo as palavras do Apóstolo: Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato?

RESPOSTA À SEGUNDA. – A Glosa referida é tirada de Agostinho, onde fala contra certos monges que ensinavam não ser lícito aos servos de Deus o trabalho manual, pelo fato de o Senhor ter dito: Não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis. Ora, por essas palavras não se impõe aos religiosos a necessidade do trabalho manual, se de outra origem tiverem o com que viver. O que é claro pelo que a Glosa acrescenta: Quer que os servos de Deus vivam do trabalho manual. Ora, esse não é um dever mais dos religiosos que dos seculares. E isso resulta de duas razões. Primeiro, conclui–se tal do mesmo modo de falar do Apóstolo; Que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente. Pois, chama irmãos a todos os Cristãos, porquanto não havia ainda religiões estabelecidas. Segundo, porque os religiosos não tem deveres diferentes do dos seculares, senão pela profissão da regra. Por onde, se as prescrições da regra nada dispõem sobre o trabalho manual, não ficam os religiosos, mais que os seculares, obrigados a ele.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A todas essas obras espirituais a que se refere Agostinho, pode um vacar, de dois modos. Ou como servindo à utilidade comum, ou como visando a utilidade particular. Assim, os que vacam a essas obras espirituais para o bem geral ficam por isso mesmo escusados do trabalho manual, por duas razões. Primeiro, porque essas obras necessariamente lhes ocupam toda a atividade. Segundo. porque a esses que as exercem devem fornecer o sustento aqueles a quem elas aproveitam. Quanto aos que as exercem, não para a utilidade pública, mas para a particular deles, não é forçoso fiquem por causa delas isentos do trabalho manual, nem lhes assiste o direito de viverem, com estipêndios dos fiéis. E é a eles que se refere Agostinho. – Quando diz – cantar cânticos divinos também o podem os que trabalham manualmente, dando como exemplo os artífices, que conversam ao mesmo tempo que trabalham manualmente, é manifesto que isso não pode entender–se dos que cantam na Igreja as horas canônicas; mas, entendem–se tais palavras dos que recitam salmos ou hinos como orações privadas. – Semelhantemente, o que diz da lição e da oração refere–se às orações e lições privadas, que às vezes os leigos também fazem; e não aos que publicamente recitam orações na igreja, ou fazem lições públicas nas escolas. Por isso não disse – Os que dizem, vacar ao ensino ou à instrução, mas – os que dizem vacar à lição. – Semelhantemente, quando fala da pregação, refere–se não à pública, feita para o povo, mas à especialmente feita a um ou a poucos, a modo de advertência privada. Por isso sinaladamente diz – Se há quem deva exercer o ministério da palavra; pois, ramo adverte a Glosa, o ministério da palavra se exerce privada mente, ao passo que a pregação é pública.

RESPOSTA À QUARTA. – Os que desprezaram tudo por amor de Deus estão obrigados ao trabalho manual quando de outro modo não tiverem com o que viver ou com o que fazer esmolas, em caso em que estejam sujeitos ao dever de fazê–las; mas não de outro modo, como dissemos. Ora, é neste sentido. que fala a Glosa citada.

RESPOSTA À QUINTA. – Os Apóstolos exerceram o trabalho manual, umas vezes por necessidade e outras, superrogatariamente. Por necessidade, quando ninguém lhes dava com que subsistir; por isso, àquilo do Apóstolo – Trabalhamos obrando por nossas próprias mãos – diz a Glosa: porque ninguém nos dá. Superrogatariamente, como se vê pelo dizer o Apóstolo, que não usou do poder que tinha de viver do Evangelho. E dessa superrogação usou o Apóstolo em três casos. – Primeiro, para tirar aos pseudo–Apóstolos a ocasião de pregarem, a eles que só pregavam com a mira nas recompensas temporais. E por isso diz: Mas eu o faço e farei sempre por cortar a ocasião de se gloriarem, etc. – Segundo, para evitar um gravame àqueles a quem pregava. Por isso diz: Em que não é que em nada vos quis eu mesmo ser pesado? – Terceiro, para dar o exemplo do trabalho aos ociosos. E por isso diz: Trabalhando de noite e de dia, por não sermos pesados a nenhum de vós. – O que porém o Apóstolo não fazia nos lugares em que tinha a faculdade de pregar todos os dias, como em Atenas, conforme diz Agostinho. Mas, nem por isso estão os religiosos obrigados a imitar o Apóstolo, pois, não o estão a todas as obras superrogatórias. E por isso os outros Apóstolos não se davam ao trabalho manual.