Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 – Se aos religiosos é lícito mendigar.

O quinto discute–se assim. – Parece que aos religiosos não é lícito mendigar.

1. – Pois, diz Agostinho: Há muitos hipócritas que, com hábito de monges, se espalham por toda parte, instigados pelo inimigo de todo bem e que vão assim percorrendo as províncias. E acrescenta: Todos pedem, todos exigem ou o tributo de uma pobreza lucrativa ou o preço de uma santidade simulada. Logo, parece que deve ser reprovada a vida dos religiosos mendicantes.

2. Demais. –– O Apóstolo diz: Que trabalheis, com as vossas mãos como vo–lo temos ordenado e que andeis honestamente com os que esteio fora e não cobiceis coisa alguma de alguém. Ao que diz a Glosa: O apóstolo quer que os servos de Deus se deem ao trabalho normal para terem com o que viver e não sejam forçados pela pobreza a pedir o necessário. Ora, isto é mendigar. Logo, parece ilícito mendigar, deixando de lado o trabalho manual.

3. Demais. – O proibido pela lei e contrário à justiça não o podem fazer os religiosos. Ora, a lei divina proíbe mendigar quando diz: Absolutamente não haverá entre vós pobre algum nem mendigo; e noutro lugar: Não vi o justo desamparado nem a sua descendência mendigando pão. Ora, o direito civil pune o mendigo válido. Logo, não podem os religiosos mendigar.

4. Demais. – Nós nos envergonhamos por atos desonestos, como diz Damasceno. Ora, Ambrósio afirma que a vergonha que sentimos ao mendigar trai os sentimentos de uma nobre natureza. Logo, é vergonhoso mendigar e portanto não devem fazê–la os religiosos.

5. Demais. – Sobretudo de esmolas é que devem viver os pregadores do Evangelho, como o denominou o Senhor, segundo se disse. E, contudo não devem mendigar, pois, àquilo do Apóstolo – O lavrador que trabalha, etc. – diz a Glosa: O Apóstolo quer que o evangelista entenda, que receber o necessário daqueles por quem trabalha, não é mendicância mas poder seu. Logo, parece que os religiosos não podem mendigar.

Mas, em contrário. – O religioso deve viver imitando a Cristo. Ora, Cristo mendigou, segundo o diz a Escritura: Mas eu sou mendigo e pobre. Ao que diz a Glosa: Isto afirmou Cristo de si, sob a forma de escravo. E mais adiante: Mendigo é quem pede aos outros; e pobre é quem não possui o suficiente. E noutro lugar da Escritura: Eu sou necessitado e pobre. O que comenta a Glosa: Eu sou necessitado, isto é, mendigo; e pobre, isto é, não tenho o suficiente para mim, pois não possuo bens temporais. E Jerônimo diz: Toma cuidado em não acumulares riquezas alheias, quando o teu Senhor mendiga, isto é, Cristo. Logo, devem os religiosos mendigar.

SOLUÇÃO. – Duas causas podemos distinguir na mendicância. – Uma relativa ao ato mesmo da mendicância, que implica uma certa abjeção. Pois, são considerados os abjetíssimos dos homens os que, além de serem pobres, são necessitados a ponto de receber dos outros o seu sustento, E, assim, são dignos de louvor os que mendigam por motivo de humildade; do mesmo modo que praticam outros atos, que implicam uma certa abjeção, como remédio eficacíssimo contra a soberba, que querem extinguir, ou em si mesmos, ou ainda nos outros, por meio do exemplo. Pois, assim como a enfermidade resultante do excesso do calor cura–se eficazmente pelo excesso do frio, assim também é remédio eficacíssimo contra a inclinação para a soberba a prática dos atos considerados como os mais abjetos. Por isso uma decretar diz: O exercício da humildade consiste em nos sujeitarmos aos deveres mais vis e prestarmos os serviços mais baixos; pois, assim, poderá ser curado o vicio da arrogância e da vangloria. Donde o elogiar Jerônimo a Fabíola pelo seu desejo de distribuir todas as suas riquezas com os pobres, para viver de esmolas. O que também fez S. Aleixo que, renunciando a todos os seus bens por amor de Cristo se regozijava em receber esmolas, mesmo dos seus servos. E de S. Arsénio se lê, que dava graças de a necessidade tê–lo forçado a pedir esmolas. Daí vem a penitência imposta a certos grandes pecadores de peregrinarem mendigando. Mas, como a humildade, bem como as outras virtudes, não pode existir sem o discernimento, é mister praticar a mendicância, como causa de humilhação, discretamente, para que não se dê a impressão de cobiça ou de qualquer outro sentimento menos conveniente. A outra luz podemos considerar a mendicidade relativamente ao que é adquirido pela mendicância. E assim pode alguém ser levado a mendigar por duas razões. – Primeiro, por cobiça de riquezas ou de viver na ociosidade. E essa mendicidade é ilícita. – Segundo, por necessidade ou utilidade. Por necessidade, quando não pode um ter donde viva, senão mendigando. Por utilidade, quando visa a realização de um fim útil, que não poderia conseguir sem as esmolas dos fiéis. Assim, quando se pedem esmolas para a construção de uma ponte, de uma igreja ou a realização de obras semelhantes, que redundam em utilidade comum. Tal é também o caso dos estudantes para quem se esmola, afim poderem vacar na aquisição da sabedoria. E deste modo a mendicidade é lícita tanto aos seculares como aos religiosos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – No lugar citado, Agostinho se refere expressamente aos que mendigam por cobiça.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A primeira glosa alude aos que pedem esmola por cobiça, como o demonstram as palavras do Apóstolo. – A segunda se refere aos que, não visando nenhum fim útil, pedem o necessário, afim de viverem ociosos. Mas, não vive na ociosidade quem de qualquer modo realiza alguma utilidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O referido preceito da lei divina a ninguém proíbe mendigar; mas proíbe aos ricos de serem tão apegados às suas riquezas a ponto de serem a causa de certos mendigarem por pobreza. – Quanto à lei civil, impõe uma pena aos mendicantes válidos, que mendigam sem ser por nenhuma utilidade ou necessidade.

RESPOSTA À QUARTA. – Há duas sortes de vergonha: a da desonestidade e a de uma deficiência externa, como a do enfermo ou do pobre. E tal é a vergonha que causa a mendicidade. Por isso não constitui nenhuma culpa, mas pode constituir a prática da humildade, como se disse.

RESPOSTA À QUINTA. – Aos que pregam por obrigação é devido o sustento por parte daqueles para quem pregam. Mas, mais útil será se quiserem pedir, mendigando, que se lhes de, não como um débito, mas como um dom gratuito.