Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 – Se alguma religião deva ser instituída, cujo fim seja o estudo.

O quinto discute–se assim. – Parece que nenhuma religião deve ser instituída, cujo fim seja o estudo.

1. – Pois, diz a Escritura: Porque não conheci a literatura, me internarei nas obras; do poder do Senhor. Ao que diz a Glosa: isto é, na virtude cristã. Ora, a perfeição da virtude cristã é o fim principal do religioso. Logo, não é ocupar–se com o estudo das letras.

2. Demais. – O que é princípio de dissensão não deve existir entre religiosos, congregados na unidade da paz. Ora, o estudo produz dissensão e dele nasceu a diversidade de seitas entre os filósofos. Por isso Jerônimo diz: Antes de, por inspiração do diabo, ter–se introduzido o estudo na religião, de modo que viesse um a dizer ao povo – eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, eu sou de Celas, etc. Logo, parece que nenhuma religião deva ser instituída com o fim de estudar.

3. Demais. – A profissão da religião cristã; deve diferir da profissão dos gentios. Ora, entre os gentios, certos professavam a filosofia. E ainda hoje certos seculares se dão como professores de certas ciências. Logo, não compete aos religiosos o estudo das letras.

Mas, em contrário, Jerônimo convida Paulino a aprender, no estado monástico: Aprendamos na terra uma ciência, do que perdura no céu. E mais adiante: Tudo o que buscares saber eu me esforçarei por saber contigo.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, a religião pode ordenar–se à vida ativa ou à contemplativa. Ora, dentre as obras da vida ativa as mais principais são as ordenadas diretamente à salvação das almas, como pregar e outras semelhantes. Logo, cabe aos religiosos estudar as letras, por três razões. – Primeiro, o estudo das letras ajuda a conseguir o objeto próprio da vida contemplativa e isso de dois modos. ­ Primeiro, diretamente, auxiliando a contemplação pela iluminação do intelecto. Pois, a vida contemplativa, de que agora tratamos, principalmente se ordena à consideração do divino, como estabelecemos; pela qual o homem contempla as cousas divinas. Por isso, em louvor do varão justo, diz a Escritura: Na sua lei meditará de dia e de noite. E noutro lugar: O sábio investigará a sabedoria de todos os antigos e fará o seu estudo nos profetas. ­ De outro modo o estudo das letras ajuda a vida contemplativa indiretamente, removendo os obstáculos à contemplação, isto é, os erros que, na contemplação das coisas divinas, frequentemente assaltam os ignorantes da Escritura. Assim, lemos que o Abade Serapião caiu, por simplicidade, no erro dos Antropomorfitas, isto é, daqueles que ensinavam ter Deus forma humana. Donde o dizer Gregório, que certos, buscando elevar–se na contemplação acima das suas forças, caem em doutrinas erradas e, desdenhando ser discípulos humildes da verdade, tornam–se mestres de erros. E por isso diz a Escritura: Pensei dentro no meu coração apartar do vinho a minha carne, afim de passar o meu ânimo à sabedoria e evitar a estultícia. – Segundo, o estudo das letras é necessário à religião instituída para o fim da pregação e o exercício de ministérios semelhantes. Donde o dizer o Apóstolo, do bispo, a cujo ofício pertence essa atividade: Que abrace a palavra da fé, que é segundo a doutrina, para que possa exortar conforme à sã doutrina e convencer aos que o contradizem. – Nem obsta o facto de os Apóstolos terem sido enviados a pregar, sem o estudo as letras. Pois, como diz Jerônimo, tudo o que o exercício e a quotidiana meditação na lei de Deus nos faz adquirir, isso o Espírito Santo lhes sugeria.

Terceiro, o estudo das letras convém à religião, pelo que todas as religiões tem de comum. – Pois, ajuda a evitar a lascívia da carne. Por isso diz Jerônimo: Ama o estudo das Escrituras e não amarás os vícios da carne. Pois, desvia o pensamento das coisas lascivas; e o trabalho do estudo macera a carne como o ensina a Escritura: A vigia que se tem para ajuntar bens definhará as carnes. – Também contribui para nos livrar da cobiça das riquezas. Donde o dizer a Escritura: Julguei que as riquezas nada valiam em sua comparação. E noutro lugar: Nós não tínhamos necessidade de nenhuma destas causas, isto é, do auxílio dos outros, tendo para nossa consolação os santos livros, que estão entre nossas mãos, – E também vale para ensinar a obediência. Por isso, pergunta Agostinho: Mas que desordem é essa de não se levarem em conta as leituras próprias, embora se queira vacar a elas? Por onde é manifesto que pode muito bem uma religião ser instituída para o estudo das letras.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A exposição citada da Glosa se aplica à letra da lei antiga, da qual diz o Apóstolo: A letra mata. Por onde, não conhecer a literatura é não aprovar a circuncisão, literalmente considerada, e as demais observâncias temporais.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O estudo se ordena à ciência, que, sem a caridade, incha e por consequência causa dissensões, como o diz a Escritura: Entre os soberbos sempre há contendas; mas, com a caridade, edifica e gera a concórdia. Por isso, o Apóstolo, depois de ter dito – Sai; enriquecidos em toda a palavra e em toda a ciência – acrescenta: Todos digais uma mesma causa e não haja entre vós cismas. Mas, Jerônimo, no lugar citado, não se refere ao estudo das letras; senão ao zelo que causa dissensões, que os heréticos e os cismáticos introduziram na religião cristã.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os filósofos professavam o estudo das letras, cultivando assim as ciências humanas. Mas os religiosos devem sobretudo se dedicar ao estudo das letras que conduz ao conhecimento que é segundo a piedade, no dizer do Apóstolo. Mas, dedicar–se ao estudo das demais doutrinas não é próprio dos religiosos, que consagraram toda a vida ao serviço de Deus – salvo na medida em que esse estudo se ordena à ciência sagrada. Por isso diz Agostinho: Quanto a nós, persuadidos que não devemos perder de vista aqueles que os heréticos seduzem pela promessa da instrução e de uma ciência falaz, nós avançamos lentamente neste caminho pelo cuidado mesmo que pomos em estudá–lo. O que contudo não ousaríamos fazer, se não tivéssemos diante dos olhos o exemplo de muitos piedosos filhos da Igreja, que assim procederam pela mesma necessidade de refutar os heréticos.