Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se a carne de Cristo foi tomada de Adão.

O primeiro discute-se assim. — Parece que a carne de Cristo não foi tomada de Adão.

1. — Pois, diz o Apóstolo: O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem, do céu, celestial. Ora, o primeiro homem foi Adão; o segundo é Cristo. Logo, Cristo não descende de Adão, mas teve uma origem distinta dele.

2. Demais. — A concepção de Cristo devia ser miraculosa por excelência. Ora, maior milagre foi formar o corpo do homem do limo da terra, do que de uma humana matéria, tirada de Adão. Logo, parece que não era conveniente Cristo tirar a sua carne, de Adão. Portanto, parece que o corpo de Cristo não devia ser formado da massa do gênero humano derivada de Adão, mas de uma outra matéria.

3. Demais. — O pecado entrou neste mundo por um homem, isto é, por Adão, porque todas as gentes nele pecaram originalmente, como está claro no Apóstolo. Mas, se o corpo de Cristo tivesse sido tomado de Adão, também ele teria estado originalmente em Adão, quando este pecou. Logo, teria contraído o pecado original. O que não condizia com a pureza de Cristo. Logo, o corpo de Cristo não foi formado da matéria tirada de Adão.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo: Ele, isto é, o Filho de Deus, em nenhum lugar tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão. Ora, a descendência de Abraão foi originada em Adão. Logo, o corpo de Cristo foi formado de matéria tomada de Adão.

SOLUÇÃO. — Cristo assumiu a natureza humana para purificá-la da sua corrupção. Ora, a natureza humana não precisava de purificação senão porque estava contaminada pela origem viciada da sua descendência de Adão. Por isso foi conveniente que tomasse Cristo uma carne derivada de Adão, de modo que a natureza mesma fosse curada por essa assunção.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Diz-se que o segundo homem, isto é, Cristo procedia do céu, não quanto à matéria do seu corpo, mas, ou quanto à virtude formativa dele, ou também quanto à sua própria divindade. Pois, quanto à matéria, o corpo de Cristo era terreno, como o foi o de Adão.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como dissemos, o mistério da Encarnação de Cristo é um fato milagroso, não como ordenado à confirmação da fé, mas como um artigo de fé. Por isso, esse mistério não precisa de ser contado entre os maiores milagres, como o hão de ser os milagres feitos para a confirmação da fé. Mas, devemos descobrir nele uma conveniência maior com a divina sabedoria e mais expediente à salvação humana, o que é necessário a tudo o que é objeto de fé. Já podemos dizer que no mistério da Encarnação não consideramos o milagre relativamente à matéria da concepção, mas sobretudo quanto ao modo da concepção e do parto, isto é, por ter sido uma virgem a que concebe e deu a luz a Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como se disse, o corpo de Cristo existiu em Adão pela sua origem material, isto é, porque a matéria mesma do corpo de Cristo foi derivada de Adão. Mas nele não existiu pela origem seminal, pois não foi gerado do sêmen humano. Por isso não contraiu o pecado original, como os outros homens, derivados de Adão por via de origem seminal.