Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se Cristo foi santificado no primeiro instante da sua concepção.

O primeiro discute-se assim. — Parece que Cristo não foi santificado no primeiro instante da sua concepção.

1. — Pois, diz o Apóstolo: Não primeiro o que é espiritual, senão o que é animal; depois o que é espiritual. Ora, a santificação da graça pertence ao espiritual. Logo, Cristo não recebeu a graça da santificação imediatamente, desde o princípio da sua concepção, mas depois de um certo espaço de tempo.

2. Demais. — Nós nos santificamos é do pecado, conforme aquilo do Apóstolo: E tais haveis sido alguns, isto é, pecadores, mas haveis sido justificados Ora. em Cristo nunca houve pecado. Logo, não devia ser santificado pela graça.

3. Demais. — Assim como pelo Verbo de Deus todas as coisas foram feitas, assim pelo Verbo encarnado todos os homens foram santificados, que são santificados, como diz o Apóstolo: O que santifica e os que são santificados todos veem de um mesmo princípio. Ora, o Verbo de Deus, por quem foram feitas todas as coisas, não foi feito, como diz Agostinho. Logo, Cristo, por quem todos são santificados, não foi santificado.

Mas, em contrário, o Evangelho: O santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus. E noutro lugar: A quem o Pai santificou e enviou ao mundo.

SOLUÇÃO. — Como dissemos, a abundância da graça santificante da alma de Cristo derivou da união mesma com c Verbo, segundo o Evangelho: Nós vimos a sua glória, como de Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. Pois, como já demonstramos, no primeiro instante da sua concepção o corpo de Cristo foi animado e assumido pelo Verbo de Deus. Por onde e consequentemente, no primeiro instante da sua concepção Cristo teve a plenitude da graça que lhe santificou o corpo e a alma.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A ordem expressa pelo Apóstolo respeita aqueles que progridem até chegar ao estado espiritual. Ora, no mistério da Encarnação consideramos, antes, o descenço da divina plenitude à natureza humana, que um progresso da natureza humana, suposta preexistente, até Deus. Por isso, o homem Cristo teve, desde o princípio, o estado espiritual do homem.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Ser santificado é tornar-se uma coisa santa. Ora, uma coisa vem a ser, não somente partindo de um estado contrário, mas também de um termo contrário simplesmente negativo ou privativo; assim, o branco vem do preto e também do não branco. Ora, nós, de pecadores, tornamo-nos santos; e assim, a nossa santificação tem no pecado a sua causa. Ora, Cristo, enquanto homem, foi santificado, pois, nem sempre teve a santidade da graça; mas não se tornou santo, de pecador que antes fosse, porque nunca teve pecado. Santificou-se, portanto, de não santo que era, enquanto homem; não privativamente, como se antes, tendo sido homem, não tivesse sido santo; mas negativamente. isto é, porque enquanto não foi homem não teve a santidade humana. Por onde, foi simultaneamente feito homem e homem santo. Por isso disse o Anjo: O santo que há de nascer de ti. Expondo o que, diz Gregório: Afirma-se que Jesus nascerá santo, para distinguir a sua da nossa santidade; pois, nós, se nos tornamos santos, não nascemos santos, por estarmos sujeitos à condição de uma natureza corruptível. Mas só aquele verdadeiramente nasceu santo, que foi concebido sem o congresso sexual.

RESPOSTA À TERCEIRA. — De um modo o Pai produz a criação das coisas pelo Filho, e de outra toda a Trindade, a santificação dos homens, pelo homem Cristo. Pois, o Verbo de Deus tem uma operação da mesma virtude que a de Deus Padre; e assim. o Pai não opera pelo Filho, como por um instrumento movido, que move. Mas, a humanidade de Cristo, é como o instrumento da divindade. no sentido explicado antes. Por onde, a humanidade de Cristo é santificante e santificada.