Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 9 — Se as crianças devem ser batizadas.

O nono discute-se assim. — Parece que não devem as crianças ser batizadas.

1. — Pois, de quem se apresenta ao batismo exige-se a intenção de recebê-lo, como se disse. Ora, tal intenção não na podem ter as crianças, que não têm o uso do livre arbítrio. Logo, pa­rece que não podem receber o sacramento do batismo.

2. Demais. — O batismo é o sacramento da fé, como se disse. Ora, as crianças não têm fé, que consiste na vontade do crente, como diz Agostinho. Nem se pode dizer que se salvem pela fé dos pais; pois estes às vezes são infiéis e, então, seriam antes condenadas pela infide­lidade deles. Logo, parece que as crianças não podem ser batizadas.

3. Demais. — A Escritura diz: O batismo nos salva; não a purificação das imundícies da carne, mas a promessa da boa consciência para com Deus. Ora, as crianças, não tendo o uso da razão, não têm consciência boa nem má; nem podem ser convenientemente interrogados por não terem compreensão. Logo, as crianças não devem ser batizadas.

Mas, em contrário, diz Dionísio: Os nossos divinos chefes, isto é, os Apóstolos aprovaram que as crianças recebessem o batismo.

SOLUÇÃO. — Como diz o Apóstolo se pelo pecado de um reinou a morte por um só homem, isto é, por Adão, muito mais reinarão em vida por um só, que é Jesus Cristo, os que rece­bem abundância da graça e do dom e da justiça. Ora, as crianças, pelo pecado de Adão, contraem o pecado original, como o mostra o fato de es­tarem sujeitos à morte que, pelo pecado do pri­meiro homem passou para todos, na linguagem do Apóstolo. Logo, com muito maior razão, podem elas, mediante Cristo, receber a graça, para reinarem na vida eterna. Pois, o próprio Senhor diz: Quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus. Por isso é necessário batizá-las, para que, assim como por Adão incorreram na condenação ao nascer, assim, renascendo, consigam a salva­ção por Cristo. – É também conveniente sejam as crianças batiza das a fim de, educa das desde a puerícía nas verdades da vida cristã mais firmemente nela perseverem – segundo aquilo da Escritura: O homem, segundo o caminho que tomou sendo mancebo, dele se não apartará, ainda quando for velho. E essa razão a apre­senta Dionísio.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — – A regeneração espiritual produzida pelo batis­mo, é de certo modo semelhante à natividade carnal. Pois, assim como as crianças, formadas no ventre materno, não se nutrem por si mesmas, mas se sustentam da nutrição materna, assim também as que ainda não têm o uso da razão, como se fossem constituídas no ventre da madre Igreja, alcançam a salvação, não por si mesmas, mas por ato da Igreja. Donde o dizer Agosti­nho: A Madre Igreja deixa os seus filhinhos se servirem da sua boca maternal, para que se abe­berem dos sagrados mistérios; pois, ainda não podem crer de próprio coração na justiça, nem por boca própria confessar a fé, para se salva­rem. Se porém podem ser chamados fiéis por proclamarem de certo modo a sua fé pela boca de quem os traz no seu seio, por que não podem também ser considerados como penitentes, pois, por essa mesma boca, mostraram ter renunciado ao diabo e a este mundo? E pela mesma razão podemos dizer que têm intenção, não por ato próprio, pois, às vezes se lhe opõem e choram, mas pelo ato de quem os apresenta.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz Agostinho, escrevendo a Bonifácio, na Igreja do Salvador, as crianças crêem pelos outros, como pelos outros é que contraíram os pecados de que os livra o batismo. Nem lhes impede a salvação o fato de serem os pais infiéis. Pois, como diz Agostinho, escrevendo ao mesmo Bonifácio, as crianças são apresentadas a receberem a graça espiritual, não tanto pelos que os carregam nos braços (embora também por eles, se forem bons fiéis), como por toda a sociedade dos santos e dos fiéis. E temos razão de crer que os apresentam todos aqueles a quem é agradável que sejam oferecidos e por cuja caridade são admitido à comunhão do Espírito Santo. Quanto à infidelidade mesma dos pais, mesmo se depois do batismo dos filhos se esforçarem pelos iniciar no culto dos demônios, ela não prejudica aos filhos. Pois, como diz Agostinho no mesmo lugar, a criança, uma vez gerada por vontade alheia, não pode depois ficar adstrita ao vínculo da alheia iniquidade, a que de nenhum modo deu o consentimento da sua vontade, segundo aquilo da Escritura ­assim como é minha a alma do pai, assim tam­bém o é a da filha, a alma que pecar, essa morrerá. E se a alma contraiu de Adão a mácula de que o pecado há de lavar, é que ela não vivia ainda por si mesma. Ora a fé de um só, antes, de toda a Igreja, aproveita a criança por obra do Espírito Santo, que une a Igreja e comunica o bem de um aos outros.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Assim como a criança batizada não crê por si mesma, mas por outrem, assim não por si mesma, mas por outrem é interrogada; e os interrogados confessam a fé da Igreja· na pessoa da criança, a qual é a ela incorporada pelo sacramento da fé. Quanto à boa consciência a criança a tem por si mesma, não certo em ato, mas por hábito pela graça justificante.