Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 7 — Se a mistura da água é indispensável neste sacramento.

O sétimo discute-se assim. — Parece que a mistura da água é indispensável neste sacramento.

1. — Pois, diz Cipriano: Como no cálice do Senhor não há somente água nem vinho somen­te, mas ambos misturados, do mesmo modo o seu corpo não pode ser farinha só, mas um misto de farinha e água. Ora, a mistura da água com a farinha é indispensável neste sacramento. Logo, e pela mesma razão, a mistura da água com o vi­nho.

2. Demais. — Na paixão do Senhor, de que este sacramento é o memorial, assim como do seu lado saiu sangue, assim também água. Ora, o vinho, sacramento do sangue, é indispensável neste sacramento. Logo, pela mesma razão, a água.

3. Demais. — Se a água não fosse indispensável neste sacramento, não importaria de que água se usasse; portanto, poder-se-ia usar de água rosada, ou qualquer água semelhante, o que é o uso da Igreja. Logo, a água é indispensável neste sacramento.

Mas, em contrário, diz Cipriano: Se algum dos nossos antecessores, por ignorância ou sim­plicidade, não observou, isto é, se não misturou água com vinho neste sacramento, concedemos perdão à sua simplicidade. O que não se daria, se a água fosse indispensável neste sacramento, como o é o vinho ou o pão. Logo, a mistura com a água não é indispensável, neste sacramento.

SOLUÇÃO. — Devemos julgar um sinal por aquilo que êle significa. Ora, a razão de se mis­turar a água com o vinho é significar a parti­cipação deste sacramento pelos fiéis, pois, essa mistura simboliza o povo amado com Cristo, como se disse. E o mesmo ter comido a água do lado de Cristo pendente da cruz, tem idêntica sig­nificação, pois, a água significa a ablução dos pecados, feita pela paixão de Cristo. Ora, como dissemos, este sacramento se consuma pela con­sagração da matéria: mas o uso dos fiéis não lhe é indispensável a êle, sendo apenas uma consequência do sacramento. Por onde, a mistura com a água não é indispensável neste sacramento.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — ­Essas palavras de Cipriano devem entender-se no sentido em que dizemos não poder existir o que não pode convenientemente existir. E assim, a referida semelhança se funda no que deve ser feito, e não na necessidade de o fazer, pois, a água é da essência do pão, mas não da do vinho.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A efusão do sangue resultava diretamente da paixão mesma de Cris­to; pois, é natural do corpo humano ferido pro­manar o sangue. Ao contrário, a efusão da água não havia necessàriamente de se dar na paixão, senão para lhe mostrar o efeito, que é a ablução dos pecados e o refrigério contra o ardor da concupiscência. Por isso a água não é oferecida se­paradamente do vinho, neste sacramento, como o vinho é separadamente do pão; mas a água é oferecida misturada com vinho, para mostrar que o vinho por si é indispensável à existência mesma deste sacramento, ao passo que a água só é misturada com o vinho.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A mistura da água com o vinho não é de necessidade neste sacra­mento; por isso não importa à validade dele que água seja misturada com o vinho – natural, ar­tificial ou rosada. Embora, quanto à conveniên­cia do sacramento, peque quem misturar água que não seja a natural e verdadeira. Porque do lado de Cristo pendente da cruz, manou verda­deira água e não um humor fleugmático, como certos disseram, para mostrar que o corpo de Cristo era verdadeiramente composto dos quatro elementos; assim como o sangue que correu mos­trava ser o seu corpo composto dos quatro humo­res, conforme diz Inocêncio III, numa Decretal. Sendo porem a mistura da água com a farinha indispensável neste sacramento, por constituir a substância do pão, se se misturar farinha com água rosada, ou com qualquer outro líquido que não a verdadeira água, não pode com essa maté­ria ser celebrado o sacramento, porque não haveria verdadeiro pão.