Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 7 — Se a conversão de que se trata se faz instantânea ou sucessivamente.

O sétimo discute-se assim. — Parece que a conversão de que se trata não se faz instantânea, mas sucessivamente.

1. — Pois, nessa conversão existe primeiro, a substância do pão e, depois, a substância do corpo de Cristo. Logo, uma e outra existe não num mesmo instante, mas em dois. Ora, entre dois instantes quaisquer há um tempo intermédio. Logo, há de necessàriamente essa conver­são operar-se no tempo sucessivo que medeia entre o último instante, em que ainda existe o pão, e o primeiro instante, em que já aí existe ­o corpo de Cristo.

2. Demais. — Toda conversão implica o vir a ser e o ser feito. Ora, um não se identifica com o outro, pois, o vir a ser não existe; e o feito já deixou de existir. Logo, nesta conversão há anterioridade e posterioridade. E, portanto não pode ser instantânea, mas é sucessiva.

3. Demais. — Ambrósio diz que este sacra­mento se celebra pela palavra de Cristo. Ora, a palavra de Cristo é proferida sucessivamente. Logo, esta conversão se opera sucessivamente.

Mas, em contrário, esta conversão se opera pelo poder infinito, cuja operação é subitânea.

SOLUÇÃO. — Uma mudança pode ser instantânea por três razões. – De um modo, por parte da forma, termo da mutação. Se, pois, houver uma forma susceptível de mais e de menos, como a saúde, o sujeito a recebe sucessivamente. Ora, a forma substancial, não sendo susceptível de mais nem de menos, é recebida pela matéria instantaneamente. – De outro modo, por parte do sujeito, que às vezes é preparado sucessiva­mente para receber a forma. Por isso a água se aquece sucessivamente. Mas quando já o sujei­to está na disposição última para receber a forma, recebe-a instantaneamente. Assim, um cor­po diáfano é iluminado subitamente. – De um terceiro modo, quando o agente tem um poder infinito pode dispor imediatamente a matéria, para receber a forma. Assim, refere o Evangelho, que quando Cristo disse: Epheta, que quer dizer – abre-te, no mesmo instante se abri­ram os olhos do paciente e se lhe soltou a prisão da língua.

E, por estas três razões, a conversão de que se trata é instantânea. – Primeiro, porque a substância do corpo de Cristo, em que termina esta conversão, não é susceptível de mais nem de menos. – Segundo, porque nesta conversão não há nenhum sujeito preparado sucessivamente. – Terceiro, porque a operação resulta do poder infinito de Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Certos (como Alberto Magno e S. Boaventura) não concedem, absolutamente falando, que entre dois instantes quaisquer haja um tempo intermediário. Isto, dizem se dá com dois instantes referidos ao mesmo movimento; não porem com dois instantes relativos a termos diversos. Por onde, entre o instante que mede o fim do re­pouso, e outro instante que mede o princípio do movimento, não há tempo intermediário. – Mas nisto se enganam. Porque a unidade do tempo e do instante, ou ainda a pluralidade deles, não dependem de movimentos quaisquer, mas do movimento do céu, medida de todos os movimentos e repouso. Por isso outros o concedem, em se tratando do tempo que mede o movimento dependente do movimento do céu. Mas há certos movimentos não dependentes do movimento do céu nem por este medidos, como na Primeira Parte dissemos, dos movimentos dos anjos. Por onde, entre esses dois instantes, correspondentes aos referidos mo­vimentos, não há tempo intermediário. – Mas isto não se dá no caso vertente. Porque, em­bora a conversão, de que se trata não dependa em si mesma do movimento do céu, depende po­rém da prol ação de certas palavras, que necessàriamente há de medir-se pelo movimento do céu. E, portanto, é forçoso haver um tempo mé­dio entre dois instantes determinados quaisquer na conversão em questão.

Por isso outros dizem, que o instante em que por último existe o pão e o em que primeiro existe o corpo de Cristo, são por certo dois, rela­tivamente ao medido, mas são um só relativa­mente ao tempo que os mede; assim como quan­do duas linhas se tocam, são dois os pontos per­tencentes a duas linhas, mas apenas um ponto da parte da linha continente. – Mas este símile não colhe. Porque o instante e o tempo não são medida intrínseca aos movimentos particulares, como a linha e o ponto o são, dos corpos; mas são uma medida extrínseca, como o lugar, para os corpos.

Donde, outros opinam pela identidade entre o instante e a realidade, embora difiram racionalmente. – Mas, segundo esta opinião, os con­trários existiriam real e simultaneamente. Pois, a diversidade de razão não introduz nenhuma variação na realidade. Portanto, devemos concluir, que esta conversão, como dissemos, se opera pelas palavras de Cristo, proferidas pelo sacerdote, de modo que o instante último da prolação das palavras é o primeiro da existência do corpo de Cristo no sacramento, havendo ai, em todo o tempo prece­dente, a substância do pão. Em cujo tempo não devemos supor nenhum instante proximamente precedente ao último, porque o tempo não se compõe de instantes consecutivos uns aos outros, como o prova Aristóteles. Portanto, devemos por certo admitir um primeiro instante da existência do corpo de Cristo, mas não um último instante, em que existe a substância do pão; mas sim, um último tempo. E o mesmo se dá nas mutações naturais, como está claro no Filósofo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Nas mutações instan­tâneas, vir a ser e ser feito são simultâneos, assim como simultâneos são o iluminar-se e o estar iluminado. Pois, em tais casos, ser feito, diremos do que já existe; e vir a ser, do que não existia antes.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Esta conversão, como se disse, se opera no último instante da prolação das palavras; porque então se completa a signi­ficação delas, que é eficaz nas formas dos sacra­mentos. Donde não se segue que esta conver­são seja sucessiva.