Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se Cristo está totalmente contido neste sacramento.

O primeiro discute-se assim. — Parece que Cristo não está totalmente contido neste sacra­mento.

1. — Pois Cristo começa a existir neste sacramento pela conversão do pão e do vinho. Ora, é manifesto que o pão e o vinho não podem con­verter-se nem na divindade de Cristo nem na sua alma. Logo, havendo em Cristo três substâncias – a da divindade, a da alma e a do corpo, como se disse – resulta que ele não está totalmente neste sacramento.

2. Demais. — Cristo está neste sacramento do modo por que o convém à alimentação dos fiéis, que consiste na comida e na bebida, como se disse. Ora, o Senhor diz: A minha carne ver­dadeiramente é comida, e o meu sangue verda­deiramente é bebida. Logo, só a carne e o san­gue de Cristo estão contidos neste sacramento. Mas o corpo de Cristo tem muitas outras partes – nervos, ossos e semelhantes. Logo, o corpo de Cristo não está totalmente contido neste sacra­mento.

3. Demais. — Um corpo de maior quantida­de não pode ser totalmente contido pela medida de um de menor quantidade. Ora, a medida do pão e do vinho consagrados é muito menor que a medida própria ao corpo de Cristo. Logo, não é possível Cristo estar totalmente contido neste sacramento.

Mas, em contrário, diz Ambrósio: Naquele sacramento está Cristo.

SOLUÇÃO. — É absolutamente necessário con­fessarmos, segundo a fé, católica, que Cristo está totalmente neste sacramento. Devemos porém saber que algo de Cristo está neste sacramento de dois modos: quase por força do sacramento e por natural concomitância. – Por força do sacramento, está sob as espécies deste aquilo em que diretamente se converte a substância preexistente do pão e do vinho, como o significam as palavras de forma, que são eficazes neste sacra­mento, bem como nos outros, e que são: Isto é o meu corpo, Isto é o meu sangue. – Por concomi­tância natural, porém, está neste sacramento o com que realmente está unido àquilo em que ter­mina a referida conversão. Ora, quando duas coisas estão realmente unidas, onde quer Que uma esteja realmente, aí há de a outra também estar. Mas só por operação da alma se discernem as coisas realmente unidas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — ­A conversão do pão e do vinho não têm por termo a divindade ou a alma de Cristo; e por consequência a divindade ou a alma de Cristo não estão neste sacramento por força do mesmo, mas por concomitância real. Mas, como a divin­dade nunca depôs o corpo assumido, onde quer que esteja o corpo de Cristo, aí estará necessària­mente também a sua divindade. Por isso, neste sacramento está necessariamente a divindade de Cristo, concomitante ao seu corpo. Daí o ler-se rio Símbolo Efesino: Tomamo-nos participantes do corpo e do sangue de Cristo, não como se co­mêssemos uma carne comum, ou a de um varão santificado e unido ao Verbo pela unidade da dignidade, mas uma carne verdadeiramente san­tificante e feita própria do Verbo mesmo. Quanto porem à alma, foi realmente separada do corpo, como se disse. Por onde, se no tríduo da morte de Cristo fosse celebrada este sacramento, nele não estaria a sua alma, nem por força do sacramento nem por concomitância real. Mas, como Cristo, ressurgido dos mortos, já não morre, na frase do Apóstolo, a sua alma lhe está sempre realmente unida ao corpo. Por onde, neste sacramento o corpo de Cristo está pela força mesma do sacramento; mas a alma de Cristo nele está por concomitância real.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Por força do sacra­mento, este contém, quanto à espécie do pão, não só a carne, mas todo o corpo de Cristo, a saber, os ossos, os nervos e partes semelhantes. O que resulta da forma mesma deste sacramento, que não reza – Esta é a minha carne, mas – Isto é o meu corpo. Por onde, quando o Senhor disse ­A minha carne é verdadeiramente comida ­carne aí significa todo o corpo, porque, segundo o costume humano, é mais própria para ser co­mida, pois comumente nos nutrimos da carne dos animais, não porém dos OSSOS e partes semelhan­tes.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como dissemos, feita a conversão do pão no corpo de Cristo ou a do vinho no sangue, os acidentes de um e de outro permanecem. Por onde é claro que as di­mensões do pão e do vinho não se con­vertem nas do corpo de Cristo, mas uma substância é a que se converte em outra. E assim a substância do corpo de Cristo ou do sangue está neste sacramento por força mesma do sa­cramento, não porem as dimensões do corpo ou do sangue de Cristo. Por onde, é claro que o corpo de Cristo está neste sacramento substancialmen­te e não, quantitativamente. Ora, a totalidade própria à substância contém-se indiferentemen­te numa quantidade pequena ou grande; assim como a natureza total do ar está numa quanti­dade grande ou pequena dele, e a total natureza do homem num homem grande ou num pequeno. Por onde, a substância total do corpo e do sangue de Cristo está contida neste sacramento, depois da consagração, assim como antes da consagra­ção, estava aí contida a substância do pão e do vinho na sua totalidade.