Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 — Se as referidas locuções são verdadeiras.

O quinto discute-se assim. — Parece que as referidas locuções não são verdadeiras.

1. — Pois, na expressão — Isto é o meu corpo — o vocábulo — isto — é designativo da substância. Ora, conforme foi dito, quanto se profere o pronome — isto — ainda é existente a substân­cia do pão; porque o transubstanciação se opera no último instante da prolação das palavras. Ora, esta proposição é falsa. — O pão é o corpo de Cristo. Logo, também est’outra o é: Isto é o meu corpo.

2. Demais. — O pronome — isto — designa alguma coisa aos sentidos. Ora, as espécies sen­síveis, neste sacramento, nem são o corpo mesmo de Cristo, nem acidentes dele. Logo. esta SOLUÇÃO não pode ser verdadeira — Isto é o meu corpo.

3. Demais. — Estas palavras, como se disse, pela sua significação, produzem a conversão do pão no corpo de Cristo. Ora, a causa eficiente nós a concebemos como anterior ao efeito. Logo, a significação dessas palavras se entende com an­terior à conversão do pão nó corpo de Cristo. Ora, antes da conversão, é falsa a preposição — Isto é o meu corpo. Logo, devemos julgá-la como falsa, absolutamente falando. E o mesmo se dá com a locução — isto é o cálice do meu sangue, etc.

Mas, em contrário, estas palavras são proferidas da pessoa de Cristo, que de si diz: Eu sou a verdade.

SOLUÇÃO. — Nesta matéria são muitas as opiniões. Uns (Inoc. III) disseram que na locução — Isto é o meu corpo — adição — isto — implica uma designação concebida e não, realizada; pois, toda esta locução é tomada materialmente, quanto proferida declarativamente. Assim, o sa­cerdote declara ter dito — Isto é o meu corpo. ­Mas esta opinião é insustentável. Porque, segun­do ela, as referidas palavras não se aplicariam à matéria corporal presente de modo que o sacra­mento não se celebraria. Por isso diz Agostinho: Acrescentou-se a palavra ao elemento e resultou o sacramento. — Nem assim não se evita totalmente a dificuldade desta questão. Pois, as mes­mas dificuldades permanecem relativamente à primeira prolação, com que Cristo proferiu tais palavras. Por onde é claro, que não foram toma­das materiais, mas, significativamente. Donde de­vemos concluir que, mesmo proferidas pelo sa­cerdote, são tomadas significativa e não só ma­terialmente. — Nem atesta que o sacerdote as profira declarativamente, como se fossem ditas por Cristo. Porque, pelo infinito poder de Cristo, assim como pelo contacto da sua carne, a virtude regenerativa foi infundida, não só naquelas águas que o tocaram, mas em todas as águas da terra, por todos os séculos futuros; assim tam­bém, pela prolação do próprio Cristo, as palavras formais adquiriram a virtude de consagrar, ditas seja por que sacerdote for, como se o próprio Cristo fosse quem as pronunciasse. Por isso outros (Alex. Hal.) disseram que a partícula — isto — nesta locução, designa não aos sentidos, mas à inteligência, significando — ­Isto é o meu corpo, isto é, o que isto significa é o meu corpo. — Mas também tal é insustentável. Porque, como, nos sacramentos, o significado é realizado, não estaria por essa forma verdadeira­mente o corpo de Cristo neste sacramento. Mas só como em sinal. O que e herético, como dissemos. E por isso outros disseram que o pronome — isto — faz uma designação aos sentidos; mas essa designação se entende como realizada não no instante da locução em que a partícula é pro­ferida, mas no último instante da locução. Assim como quando dizemos — agora me calo — o advér­bio agora designa o instante imediatamente se­guinte à locução, sendo o sentido — assim que forem ditas essas palavras, calo-me. — Mas também isto é inadmissível. Porque então, o sen­tido da locução discutida seria — o meu corpo é o meu corpo. O que não é o significado da lo­cução, pois, assim já era mesmo antes da prola­ção das palavras. Por onde, nem isso significa a referida locução.

Portanto, devemos dizer de outro modo, que, como ficou estabelecido, esta locução tem a vir­tude de operar a conversão do pão no corpo de Cristo. E assim está para as outras locuções, cuja força é apenas significativa e não eficiente como está à concepção do intelecto prático. que é efi­ciente realmente, para a concepção do nosso in­telecto especulativo, derivada das coisas; pois, as vozes são sinais do intelecto, segundo o Filóso­fo. Por onde, assim como a concepção do intelec­to prático não pressupõe a causa concebida, mas a faz, assim, a verdade desta locução não pressu­põe a causa significa da, mas a produz; pois, tal é a relação da palavra de Deus com as coisas feitas pelo verbo. Essa conversão, porém não se opera sucessivamente, mas num instante, como dissemos. Por onde, havemos de entender a refe­rida locução relativamente ao último instante da prolação das palavras. Não, porém supondo, em relação ao sujeito, aquilo que é o termo da conversão, a saber, que O corpo de Cristo seja o corpo de Cristo. Nem também o que existia antes da conversão, a saber, o pão. Mas o que se refere em comum a um e outro, isto é, o conteúdo em geral de essas espécies. Pois, não fazem essas palavras com que o corpo de Cristo seja o corpo de Cristo; nem que o pão seja o corpo de Cristo; mas, que o conteúdo dessas espécies, que antes era pão, seja o corpo de Cristo. Por isso o Senhor não diz sinaladamente — este pão é o meu corpo — o que estaria de acordo com o modo de entender da segunda opinião. Nem — este meu corpo é o meu corpo — o que o estaria com o modo de en­tender da terceira. Mas em geral — Isto é o meu corpo — sem acrescentar nenhum nome relati­vo ao sujeito, mas empregando apenas o prono­me, que significa a substância em geral, sem nenhuma qualidade, isto é, sem forma determi­nada.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A dicção — isto — designa a substância, mas sem determinação da natureza própria, como se disse.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O pronome — isto ­não designa os acidentes, mas a substância sob eles contida, o qual de pão, que era, veio a ser o corpo de Cristo, que, embora não informado por esses acidentes, está contudo, contado sob eles.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A significação desta locução se pre-intelige à realidade significada, na ordem da natureza, assim como a causa é na­turalmente anterior ao efeito. Mas não em a or­dem do tempo, pois, esta causa produz simulta­neamente consigo o seu efeito. E isto basta à ver­dade da locução.