Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se este sacramento confere a graça.

O primeiro discute-se assim. — Parece que este sacramento não confere a graça.

1. — Pois, este sacramento é uma nutrição espiritual. Ora, nutrição não se dá senão ao ser vivo. Mas, a vida espiritual, provindo da graça. não pode receber este sacramento senão quem está em graça. Logo, este sacramento não confe­re a graça a quem ainda não a tem. Semelhan­temente, nem vem aumentar a graça, porque o crescimento espiritual é efeito do sacramento da confirmação, como se disse. Logo, este sacramen­to não confere a graça.

2. Demais. — Este sacramento é conferido a modo de uma como refeição espiritual. Ora, a re­feição espiritual implica antes no uso, que na conservação da graça. Logo, parece que este sa­cramento não confere a graça.

3. Demais. — Como dissemos, neste sacramento é oferecido o corpo de Cristo, para saúde do corpo, e o sangue para saúde da alma. Ora, não o corpo, mas a alma é o sujeito da graça, como se estabeleceu na Segunda Parte. Logo, pelo menos, quanto ao corpo, este sacramento não confere a graça.

Mas, em contrário, diz o Senhor: O pão que eu darei é a minha carne, para ser a vida do mundo. Ora, a vida espiritual provém da graça. Logo, este sacramento confere a graça.

SOLUÇÃO. — O efeito deste sacramento deve ser considerado, primária e principalmente, pelo que nele se contém, que é Cristo. O qual, assim como vindo visivelmente ao mundo, deu ao mundo a vida da graça, segundo àquilo do Evangelho — A graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo; assim também, dando-se-nos sacra­mentalmente obra em nós a vida da graça, se­gundo aquilo do Evangelho – O que me come a mim, esse mesmo também viverá por mim. Donde o dizer Cirilo: O verbo vivificante de Deus, unin­do-se a si mesmo à nossa carne, tornou-a vivifi­cante. Pois, era-lhe decente unir-se de certo modo dos nossos corpos pela sua carne e pelo seu pre­cioso sangue, que recebemos sob a forma de pão e de vinho, depois da consagração vivificante. Secundariamente, o seu efeito é considerado no que este sacramento representa, o saber, a paixão de Cristo, como se disse. E assim, o efeito produzido para o mundo pela paixão de Cristo, este sacramento o produz em nós. Por isso, aqui­lo do Evangelho — Imediatamente saiu sangue é água, diz Crisóstomo: Como dai tiveram ori­gem os sagrados mistérios, quando amares o tremendo cálice, fá-lo como se o bebesses do lado mesmo de Cristo. Por isso o próprio Senhor disse: Este é o meu sangue, que será derramado por muito para remissão de pecados. Em terceiro lugar, o efeito deste sacramento é considerado quanto ao modo pelo qual é dado, a saber, a modo de comida e bebida. Por onde, todo o efeito produzido pela comida e pela bebida materiais, quanto à vida do corpo, que é susten­tá-lo, fazê-lo crescer; separá-lo e deleitá-lo, todo ele produz este sacramento para a vida espiritual. Por isso, diz Ambrósio: Este é o pão da vida eter­na; que sustenta a substância da nossa alma. E Crisóstomo: Dá-se-nos aos que o desejamos, a ser tocado, comido e abraçado. Por onde o próprio Senhor diz: A minha carne verdadeiramente é comida e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Em quarto lugar, o efeito deste sacramento é considerado relativamente às espécies, sob as quais é dado. Por isso, Agostinho diz no mesmo lugar: Nosso Senhor quis usar, para que se transformassem no seu sangue, de coisas que constituem uma unidade formada de muitos ele­mentos. Pois uma — o pão, é unidade constituída de muitos grãos; a outra — o vinho é unidade formada da confluência de muitos. Donde o dizer ele ainda, em outro lugar: O sacramento da pie­dade, o sinal da unidade, o vínculo da caridade. E sendo Cristo e a sua paixão a causa da graça, e não podendo haver nutrição e caridade espiritual sem graça, de tudo o que dissemos é manifesto, que este sacramento confere a graça.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Este sacramento tem por si mesmo o poder de conferir a graça. Nem há quem tenha a graça antes de recebê-lo, a não ser que disso tenha o desejo, ou por si mesmo – como os adultos, ou por desejo da Igreja – como as crianças, segun­do dissemos. Por onde, já é eficácia da sua vir­tude, que pelo desejo desse sacramento alcancemos a graça, que nos vivifica espiritualmente. Resta, pois, que, ao recebermos realmente o sa­cramento, a graça aumenta em nós, e a vida es­piritual se aperfeiçoa. Mas de modo diferente do que pelo sacramento da confirmação, que nos faz crescer e aperfeiçoar na graça, para arrostar os ataques exteriores dos inimigos de Cristo. Pois, este sacramento nos aumenta a graça e aperfei­çoa a vida espiritual, para em nós mesmos levamos uma existência perfeita, pela união com Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Este sacramento con­fere a graça espiritualmente, com a virtude da caridade. Por isso Damasceno o compara a brasa que Isaias viu; pois, a brasa não é simples lenha, mas unida ao jogo; assim também o pão da co­munhão não é simples pão, mais unido à divin­dade. Porque como diz Gregório, na homília de Pentecostes, o amor de Deus não é ocioso; e. quando existe em nós obra grandes causas. Por onde, este sacramento tem por si mesmo o poder de nos conferir, não só o hábito da graça e da virtude, mas também o de nos levar a ação, se­gundo aquilo do Apóstolo: O amor de Cristo nos constrange. Donde vem que, por virtude deste sa­cramento, a alma se nutre espiritualmente deleitando-se e de certo modo inebriando-se com a doçura da bondade divina. segundo àquilo da Eucaristia: Comei, amigos e bebei e embriagai-vos, caríssimos.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Os sacramentos, obrando conforme a semelhança que significam, por uma certa assimilação dizemos, que neste sa­cramento o corpo é oferecido para saúde do corpo; e o sangue, para saúde da alma. Embora o corpo e o sangue operem a saúde do corpo e da alma. pois sob ambas as espécies está Cristo totalmente, como dissemos. E embora não seja o corpo o sujeito imediato da graça, contudo da alma, o efeito da graça redunda no corpo, en­quanto que na vida presente os nossos membros como os instrumentos da justiça os oferecemos a Deus, na frase do Apóstolo. E na vida futura o nosso corpo participará da incorrupção e da gló­ria da alma.