Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 — Se por este sacramento se perdoam os pecados veniais.

O quarto discute- se assim. — Parece que por este sacramento não se perdoam os pecados veniais.

1. — Pois, este sacramento, no dizer de Agostinho, é o sacramento da caridade. Ora, os pecados veniais não contrariam a caridade, con­forme se estabeleceu na Segunda Parte. Logo, como os contrários entre si se repelem, pa­rece que os pecados veniais não são perdoados por este sacramento.

2. Demais. — Se os pecados veniais fossem perdoados por este sacramento, da mesma razão se perdoaria um como se perdoariam todos. Ora, parece que todos não se perdoariam porque então seria frequente estarmos sem nenhum pecado venial, contra o dito do Evangelho: Se dissermos que estamos sem pecado nós mesmos nos enganamos. Logo, por este sacramento são perdoados só alguns pecados veniais.

3. Demais. — Os contrários mutualmente se repelem. Ora, os pecados veniais não impedem de receber este sacramento. Assim, Agostinho, aquilo do Evangelho – Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram – diz: Apresentai-vos ao altar vestidos de inocência; pois, os pecados, ain­da quotidianos, não são mortais. Logo, nem os pecados veniais são delidos por este sacramento.

Mas, em contrário, diz lnocêncio III: Este sacramento dele os pecados veniais e fortifica contra os mortais.

SOLUÇÃO. — Duas coisas podemos considerar neste sacramento; o sacramento mesmo e a sua realidade. E de ambos resulta a sua virtude de remitir os pecados veniais. Pois, este sacramento é recebido sob a espécie de uma comida nutri­tiva. Ora, a nutrição pela comida é necessária para refazer o calor natural quotidianamente perdido pelo nosso corpo. Assim também, espiri­tualmente cada dia perdemos, pelos pecados ve­niais, do calor da concupiscência, que diminuem o fervor da caridade, como na Segunda Parte es­tabelecemos. Por onde, é próprio deste sacramen­to remitir-nos os pecados veniais. Por isso diz Ambrósio, que este pão quotidiano nós o come­mos, como remédio de uma quotidiana enfermi­dade. – Quanto à realidade deste sacramento, é a caridade, não só habitual como também atual, que ele desperta; pelo que os pecados ve­niais são delidos. Por onde é manifesto, que este sacramento tem a virtude de delir os pecados veniais.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Os pecados veniais, embora não contrariem ao hábito da caridade, contrariam-lhe contudo, o fervor do ato, excitado por este sacramento. Em razão do que, os pecados veniais são delidos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As palavras citadas não devem entender-se no sentido em que não possamos, em nenhum tempo, estar sem o reato do pecado venial; mas como significando que esta vida os santos não o passam, sem pecados veniais.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Maior é o poder da caridade, da qual é este sacramento, que o dos pecados veniais. Pois um ato de caridade dele os pecados veniais, que contudo, não no podem impedir totalmente. E o mesmo se dá com este sacramento.