Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 — Se só os homens ou se também os anjos podem receber este sacramento espiritualmente.

O segundo discute-se assim. — Parece que não só os homens, mas também os anjos, podem re­ceber este sacramento espiritualmente.

1. — Pois, àquilo da Escritura — Pão dos anjos come o homem — diz a Glosa: I, é, o corpo de Cristo, que é verdadeiramente comida dos anjos. Ora, tal não seria se os anjos não pudessem receber espiritualmente a Cristo. Logo, os anjos podem receber espiritualmente a Cristo.

2. Demais. — Agostinho diz: Por esta co­mida e esta bebida se entende a sociedade do corpo e dos seus membros, que é a Igreja nos seus predestinados. Ora, a esta sociedade não pertencem só os homens, mas também os santos anjos. Logo, os santos anjos podem receber espi­ritualmente a Cristo.

3. Demais. — Agostinho diz: Devemos rece­ber espiritualmente a Cristo, pois ele próprio disse — Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Ora, isto podem não só os homens, mas também os santos anjos, nos quais Cristo habita pela caridade, e eles em Cristo. Logo, parece que receber a Cristo espiritualmente o podem não só os homens, mas também os anjos.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Comei espiritualmente o pão do altar, achegai-vos ao altar revestidos de inocência. Ora, os anjos não podem aproximar-se do altar como se devessem de receber dele alguma coisa. Logo, os anjos não podem receber espiritualmente a Cristo.

SOLUÇÃO. — Neste sacramento está contido Cristo, não em espécie própria, mas em espécie sacramental. Ora, de dois modos é possível rece­ber a Cristo espiritualmente. — Primeiro, rece­bendo-o tal como ele em espécie é. E deste modo os anjos o recebem espiritualmente, enquanto estão com ele unidos pela função da caridade perfeita e pela visão clara, que nós esperamos na pátria; e não pela fé, como é a nossa união com Cristo. — De outro modo, pode-se receber espiritualmente a Cristo, como ele está sob as espécies deste sacramento; isto é, acreditando nele, com o desejo de o receber neste sacramento. E isto não só é receber a Cristo espiritualmente, mas ainda receber espiritualmente este sacramento. O que não podem os anjos. Por onde, embora os anjos recebam espiritualmente a Cristo, não podem contudo receber este sacramento espiritualmente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — ­O receber a Cristo neste sacramento se ordena como ao fim, ao gozo da pátria, do modo pelo qual os anjos o gozam. E como os meios derivam do fim, o recebermos a Cristo, como o recebemos neste sacramento, de certa maneira deriva do modo de o receber pelo qual os anjos dele gozam na pátria. Por isso dizemos que o homem come o pão dos anjos, porque primária e principalmen­te é dos anjos, que o gozam no céu; secundària­mente porém é dos homens, que recebem a Cristo neste sacramento.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A sociedade do corpo místico pertence certamente os homens pela fé; mas os anjos, pela visão manifesta. Os sacramen­tos porém são, proporcionados à fé, pela qual a verdade é contemplada como por um espelho, em enigmas. Por onde, propriamente falando, não aos anjos, mas aos homens convém receber espi­ritualmente este sacramento.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Cristo permaneceu em nós, na condição da nossa vida presente, pela fé; mas, nos santos anjos, pela visão clara. Logo, o símile não colhe, como dissemos.