Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 — Se a penitência é uma virtude especial.

O segundo discute-se assim. — Parece que a penitência não é uma virtude especial.

1. — Pois, a mesma razão que nos leva a nos comprazermos com os bons atos anteriormente praticados, faz-nos lamentar os males perpetrados. Ora, comprazermo-nos com o bem anteriormente feito não é uma virtude especial; mas, um afeto louvável, proveniente da cari­dade, como está claro em Agostinho. E por isso também o Apóstolo diz: A caridade não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Logo, pela mesma razão, nem a penitência, que é a dor dos pecados passados, é uma virtude espe­cial; senão um afeto proveniente da caridade.

2. Demais. — Toda virtude especial tem matéria especial; pois, os hábitos se distinguem pelos Pactos; e os atos, pelos seus objetos. Ora, a penitência não tem matéria especial; pois, a sua matéria são os pecados passados, sejam de que natureza forem. Logo, a penitência não é uma virtude especial.

3. Demais. — Nada é expulso senão pelo seu contrário. Ora, a penitência expulsa todos os pecados. Logo, encontra. todos os pecados. Portanto, não é uma virtude especial.

Mas, em contrário, é matéria especial de um preceito de lei, como se estabeleceu.

SOLUÇÃO. — Como dissemos na Segunda Parte, as espécies de hábitos se distinguem pelas espécies dos atos; portanto, a um ato louvável de uma determinada espécie necessariamente corresponde um especial hábito virtuoso. Ora, é manifesto que a penitência constitui um ato louvável de natureza especial, consistente no es­tudo posto em destruir o pecado passado, enquanto ofensa a Deus; o que não é da natureza de nenhuma outra virtude. Logo e neces­sariamente devemos considerar a penitência como uma virtude especial.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Um ato pode derivar da caridade, de dois mo­dos. – Primeiro, como elícito dela. E um tal ato virtuoso não supõe nenhuma virtude além da caridade; tal o ato de amarmos bem e nos comprazermos nele, e o de nos entristecermos com o seu oposto. – De outro modo, um ato pode proceder da caridade como imperado por ela. E assim, como ela impera sobre todas as virtudes, como ordenando-as para o seu fim, o ato procedente da caridade pode também pertencer a uma virtude especial. – Se, pois, no ato do penitente considerarmos só a displicên­cia do pecado passado, procede imediatamente da caridade, assim como o ato de nos compra­zermos com o bem passado. Mas, a intenção de pôr estudo em delir o pecado passado requer uma virtude especial dependente da caridade.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A penitência tem por certo e realmente matéria geral, enquanto respeita todos os pecados; mas sob uma razão especial, enquanto esses atos podem ser emen­dados pelo ato do homem cooperando com Deus para a sua justificação.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Qualquer virtude es­pecial expulsa o hábito do vício oposto; assim como a brancura expulsa a negrura, de um mes­mo sujeito. Mas a penitência expulsa efetiva­mente todos os pecados, contribuindo para a destruição deles, enquanto susceptíveis de ser perdoado pela graça divina, com a cooperação do homem. Donde não se segue que seja uma virtude especial.