Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 6 — Se a penitência é a primeira das virtudes.

O sexto discute-se assim. — Parece que a penitência é a primeira das virtudes.

1. — Pois, aquilo do Evangelho – Fazei pe­nitência, diz a Glosa: A primeira virtude é, pela penitência, punir o homem velho e odiar os vícios.

2. Demais. — Antes de chegarmos ao termo final, começamos por sair do ponto de partida. Ora, parece que todas as outras virtudes têm por objeto a nossa marcha para o ponto de che­gada; pois, todas se ordenam a nos fazer agir retamente. Ora, parece que a penitência tem por fim fazer-nos deixar o mal. Logo, segundo parece, a penitência é a primeira de todas as virtudes.

3. Demais. — Antes da penitência há o pe­cado na alma. Ora, nenhuma virtude pode coe­xistir na alma com o pecado. Logo, não há ne­nhuma virtude, antes da penitência; mas ela deve ser considerada a primeira, que prepara o caminho às outras, excluindo o pecado.

Mas, em contrário, a penitência procede da fé, da esperança e da caridade, como já dissemos. Logo, não é a penitência a primeira das virtudes.

SOI.UÇÃO. — Nas virtudes não se considera a ordem do tempo, quanto à existência delas como hábitos; porque, sendo as virtudes conexas, con­forme estabelecemos na Segunda Parte, todas começam simultaneamente a existir na alma. Mas dizemos que uma delas tem prioridade sobre outra na ordem da natureza, cuja ordem é dependente da ordem dos atos, quando o ato de uma virtude pressupõe o de outra.
Donde devemos concluir que certos atos meritórios podem preceder, mesmo temporalmente, o ato e o hábito da penitência; assim, o ato da fé e da esperança informes, e o ato do temor servil. Quanto ao ato e ao hábito da caridade, são simultâneos no tempo com o ato e o hábito da penitência, e com os hábitos das outras vir­tudes. Pois, como estabelecemos na Segunda Parte, na justificação do ímpio são simultâneos o movimento do livre arbítrio para Deus, que ê um ato de fé informado pela caridade; e o mo­vimento do livre arbítrio relativamente ao pe­cado, que é um ato de penitência. Ora, destes dois atos, o primeiro naturalmente precede o segundo; pois, o ato da virtude de penitência encontra o pecado, pelo amor de Deus que im­plica; portanto, o primeiro ato é a razão e a causa do segundo. Assim, pois, a penitência não é, absolutamente falando, a primeira das vir­tudes, nem na ordem do tempo, nem na ordem da natureza; pois, na ordem da natureza e abso­lutamente falando, as virtudes teologais a pre­cedem.

Mas, de certo modo, é a primeira entre as outras virtudes na ordem do tempo, quanto ao seu ato, que vem em primeiro lugar na justificação do ímpio. Mas, na ordem da natureza, as outras virtudes têm prioridade, assim como o essencial tem prioridade sobre o acidental. Pois, as outras virtudes são essencialmente necessárias ao bem do homem, ao passo que a penitência é necessária condicionalmente, isto é, no caso de preexistir o pecado, como o dissemos quando tra­tamos da relação entre o sacramento da peni­tência e os outros sacramentos referidos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A Glosa referida alude ao ato de penitência como o primeiro, na ordem do tempo, entre os atos das outras virtudes.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Nos movimentos su­cessivos o afastar-se do ponto de partida é tem­poralmente anterior, à chegada ao termo; e anterior, por natureza, no concernente ao su­jeito, ou na ordem da causa material. Mas na ordem da causa agente e final, primeiro che­gamos ao termo, pois, é o que vem em primeiro lugar na intenção do agente. E tal é a ordem a que primeiro atendemos, nos atos da alma, como diz Aristóteles.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A penitência abre o caminho às virtudes, expulsando o pecado pelas virtudes da fé e da caridade, que são anteriores por natureza. Mas abre-lhes o caminho de modo que entram simultaneamente com ela; pois, na justificação do ímpio, ao mesmo tempo que o mo­vimento do livre arbítrio para Deus e o relativo ao pecado, vem a remissão da culpa e a infusão da graça, com o que simultaneamente são infun­didas todas as virtudes, conforme estabelecemos na Segunda Parte.