Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se a penitência apaga todos os pecados.

O primeiro discute-se assim. — Parece que a penitência não apaga todos os pecados.

1. — Pois, diz o Apóstolo, que Esaú não achou lugar de arrependimento, ainda que o solicitou com lágrimas. Ao que diz a Glosa: i. é não achou lugar de perdão e de bênção, mediante a penitência. E a Escritura diz de An­tíoco: Este malvado orava a Deus, do qual não havia de conseguir misericórdia. Logo, parece que não se apagam todos os pecados.

2. Demais. — Agostinho diz: Tão grande é a mácula desse pecado – isto é, depois de ter um conhecido a Deus pela graça, atacar a fraterni­dade cristã e deixar-se agitar pelos fogos da in­veja contra a própria graça – que não pode mais sofrer a humildade da oração, mesmo se a má consciência o obriga a reconhecer e proclamar o seu pecado. Logo, nem todo pecado pode ser apagado pela penitência.

3. Demais. — O Senhor diz: Todo o que disser alguma palavra contra o Espírito Santo não se lhe perdoará nem neste mundo nem no outro. Logo, nem todo pecado pode remitir-se pela penitência.

Mas, em contrário, a Escritura: Eu não me recordarei de nenhuma das suas iniqüidades, que obrou.

SOLUÇÃO. — De dois modos pode suceder que um pecado não seja susceptível de ser apagado pela penitência: ou porque o pecador não pode penitenciar-se do pecado; ou porque a penitên­cia não pode delir o pecado. Do primeiro modo, não podem ser apagados pela penitência os pecados dos demônios e os das almas condenadas, por terem o afeto confirmado no mal, a ponto de não lhes ser impos­sível a displicência do pecado, como culpa, que só lhes desagrada enquanto pena, que sofrem. Em razão do que praticam uma certa penitên­cia, mas estéril, segundo aquilo da Escritura: Tocados de arrependimento e com angústia do espírito gemendo. Por onde, esta penitência não é acompanhada da esperança do perdão, mas do desespero. — Mas tal não pode ser o caso de nenhum pecado, dos que vivemos neste mun­do, pois o nosso livre arbítrio é susceptível de bem e de mal. Por onde, dizer que há pecados nesta vida, de que não possamos alcançar per­dão, é errôneo. — Primeiro, porque esse modo de ver tiraria a liberdade do arbítrio. Segundo, porque derrogaria à virtude da graça, que pode mover o coração de qualquer pecador à penitên­cia, segundo aquilo da Escritura: O coração do rei se acha na mão do Senhor e ele o inclinará para qualquer parte que quiser. E dizer, do segundo modo, que não pode nenhum pecado ser perdoado pela verdadeira penitência, também é errôneo. — Primeiro, por­que repugna à misericórdia de Deus, do qual diz a Escritura, que é benigno e mavioso, paciente e de muita misericórdia e pode arrepender-se do mal. Ora, de certo modo Deus seria vencido pelo homem, se este quisesse que se delisse um pecado que Deus não quisesse deliro — Segundo, porque encontra a paixão de Cristo, pela qual a penitência é eficaz, assim como os outros sacra­mentos; pois, está escrito — Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nos­sos, mas também pelos de todo o mundo.

Donde devemos concluir que, absolutamente falando, todo o pecado pode ser apagado nesta vida, pela penitência.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Esaú não fez verdadeiramente penitência. O que se deduz do lugar da Escritura: Virão os dias do luto por meu pai e eu matarei a Jacó, meu irmão. — Semelhantemente, nem Antíoco fez verdadeira penitência. — Pois, lamentava-se da passada culpa, não por causa da ofensa a Deus, mas por causa da doença que no corpo sofria.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As palavras citadas de Agostinho devem entender-se assim: Tão grande é a mácula desse pecado, que não pode mais sofrer a humildade da oração, isto é, facil­mente. No mesmo sentido dizemos que não pode ser curado quem não pode facilmente sa­rar. Mas pode fazê-lo o poder da graça divina que às vezes converte no profundo do mar, no dizer da Escritura.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Essa palavra ou blasfêmia contra o Espírito Santo é a impeni­tência final, como explica Agostinho. A qual é absolutamente irremissível, porque acabada esta vida não há mais perdão dos pecados. — Ou se entendermos por blasfêmia contra o Espírito Santo o pecado cometido por malícia premedi­tada, ou ainda a blasfêmia direta contra o Es­pírito Santo, no dizer-se que não pode esse pecado ser perdoado, subentende-se facilmente, porque tal pecado não tem em si nenhuma causa de excusa. Ou então, que quem cometer tal pecado será punido nesta vida e na outra, como expusemos na Segunda Parte.