Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 — Se pela penitência pode ser perdoado um pecado sem o serem os outros.

O terceiro discute-se assim. — Parece que pela penitência um pecado pode ser perdoado sem o serem os outros.

1. — Pois, diz a Escritura: fiz que chovesse sobre uma cidade e sobre outra cidade não cho­vesse; uma parte ficou regada com a chuva, e outra parte, sobre a qual não dei chuva, secou-se. Expondo o que, diz Gregório: Quando aquele que odeia o próximo se corrige dos outros vícios, uma só e mesma cidade é em parte regada com a chuva e outra parte seca-se; pois, há pecadores que, vencendo certos vícios, continuam a cometer pecados graves. Logo, pode um pecado ser perdoado pela penitência, sem o serem os outros.

2. Demais. — Ambrósio diz: A primeira consolação é que Deus não esquece de fazer mi­sericórdia; a segunda é a punição, quando na falta de fé, essa punição mesma serve de satis­fação e de emenda. Logo, podemos nos emen­dar de um pecado, permanecendo no pecado de infidelidade.

3. Demais. — De coisas que de necessidade não existem simultaneamente, uma pode ser eli­minada sem que a outra o seja. Ora, os peca­dos, como se estabeleceu na segunda Parte, não são conexos; e portanto um pode existir sem os outros. Logo, também um deles pode ser per­doado pela penitência, sem que o sejam os outros.

4. Demais. — Os pecados são dívidas que pedimos sejam perdoadas, quando rezamos na Oração Dominical: Perdoai-nos as nossas dívi­das. Ora, às vezes perdoamos uma dívida sem perdoarmos outra. Logo, também Deus pode perdoar, pela penitência, um pecado, sem per­doar os outros.

5. Demais. — Pelo amor de Deus são perdoados os nossos pecados, segundo aquilo da Es­critura: Com amor eterno te amei; por isso, compadecido de ti, te atraí a mim. Ora, nada impede que Deus nos ame por um lado, e con­tinue ofendido por outro. Assim, ama o peca­dor na sua natureza, mas o odeia pela culpa. Logo, parece que Deus pode, pela penitência, perdoar-nos um pecado, sem perdoar os outros.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Há muitos que se arrependem de ter pecado, mas não com­pletamente, reservando-se certos pecados com os quais se comprazem. E não notam que o Se­nhor livrou do demônio possesso, curando-lhe ao mesmo tempo a surdez e a mudez, ensinando-­nos por aí que só podemos ser curados de todos os pecados ao mesmo tempo.

SOLUÇÃO. — É impossível ser perdoado, pela penitência, um pecado, sem o serem os outros. — Primeiro, porque o ser o pecado perdoado consiste em ser perdoada a ofensa a Deus, pela graça. Por isso estabelecemos na Segunda Par­te, que nenhum pecado pode ser perdoado sem a graça. Ora, todo pecado mortal contraria a graça e a exclui. Por onde, é impossível um pecado ser perdoado sem que o sejam os outros. — segundo, porque, como já dissemos o pecado mortal não pode ser perdoado sem verdadeira penitência, e esta requere que abandonemos o pecado, por ser contra Deus — o que é comum a todos os pecados mortais. Ora, o mesmo prin­cípio de ação produz o mesmo efeito. Por onde, não pode ser verdadeiro penitente quem se arrepende de um pecado, e não dos outros. Pois, se lhe repugnassem os outros, por serem contra Deus, amável sobre todas as coisas — e isso o requer a verdadeira penitência pela sua natu­reza mesma — necessariamente havia de arre­pender-se de todos. Donde se segue a impossi­bilidade de ser um pecado perdoado, sem que o sejam os outros. — Terceiro, porque encontraria a perfeição da misericórdia de Deus, cujas obras são perfeitas, na frase da Escritura. Por isso, de quem tem misericórdia a tem de maneira total. E tal é o que diz Agostinho: É de certo modo impiedade de infiel esperar meio perdão daquele que é a justiça.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Essas palavras de Gregório não devem entender-­se como referentes à remissão da culpa, mas quanto à cessação do ato. Porque às vezes quem estava acostumado a cometer muitos pe­cados deixa um, mas não os outros. Isso certa­mente o faz por auxílio divino, o qual contudo, não chega até a remissão da culpa.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Essas palavras de Ambrósio não podem significar a fé pela qual cremos em Cristo. Pois, comentando aquilo do Evangelho — Se eu não viera e não lhes tivesse falado, não teriam eles o pecado, isto é, de infide­lidade — diz Agostinho: Esse é o pecado que faz serem retidos todos os outros. Mas é a fé aí tomada pela consciência, porque às vezes, pelas penas sofridas pacientemente, conseguimos a remissão dos pecados de que não temos consciência.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Os pecados, embora não conexos quanto à conversão para os bens transitórios, são-no contudo quanto à aversão do bem incomutável, no que convêm todos os pe­cados mortais. E por aí têm a natureza de ofensa, que deve ser delida pela penitência.

RESPOSTA À QUARTA. — A dívida de uma coisa externa, por exemplo, de dinheiro, não contraria a amizade, que perdoa as dívidas. Por onde, pode uma ser perdoada, sem o serem as outras. Mas, a dívida da culpa contraria a amizade. Por isso não pode uma culpa ser perdoada sem que o sejam as outras. Pois, mesmo entre os ho­mens, seria ridículo quem pedisse perdão de uma ofensa, mas não de outra.

RESPOSTA À QUINTA. — O amor com que Deus ama a natureza humana não se ordena ao bem da glória, da qual ficamos impedidos por qual­quer pecado. Mas o amor da graça, pelo qual se faz a remissão do pecado mortal, ordena-nos para a vida eterna, segundo aquilo do Apóstolo: A graça de Deus é a vida eterna. Por onde, não há semelhança de razões.