Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 6 — Se a remissão da culpa é efeito da penitência como virtude.

O sexto discute-se assim. — Parece que a remissão da culpa não é efeito da penitência como virtude.

1. — Pois, a penitência é considerada virtu­de, enquanto princípio de atos humanos. Ora, os atos humanos não produzem a remissão da culpa, que é efeito da graça operante. Logo, a remissão da culpa não é efeito da penitência; enquanto virtude.

2. Demais. — Há certas outras virtudes mais excelentes que a penitência. Ora, a remis­são da culpa não é considerada efeito de nenhu­ma outra virtude. Logo, também não é efeito da penitência, como virtude.

3. Demais. — A remissão da culpa não pro­cede senão da virtude da paixão de Cristo, se­gundo aquilo do Apóstolo: Sem efusão de san­gue não há remissão. Ora, a penitência, en­quanto sacramento, obra em virtude da paixão de Cristo, assim como os outros sacramentos, conforme do sobredito se colige. Logo, a remis­são da culpa não é efeito da penitência como virtude, mas enquanto sacramento.

Mas, em contrário. — Aquilo é propriamente causa de um efeito, sem o qual este não pode existir; pois, todo efeito depende da sua causa. Ora, a remissão da culpa Deus pode dá-Ia sem o sacramento da penitência; mas não, sem a penitência enquanto virtude, como se disse. Por isso, antes dos sacramentos da Lei Nova, Deus perdoava os pecados aos penitentes. Logo, a re­missão da culpa não é efeito da penitência, como virtude.

SOLUÇÃO. — A penitência é virtude enquan­to princípio de certos atos humanos. Ora, os atos humanos praticados por um pecador, como tal, constituem a matéria do sacramento da penitência. Mas, todos os sacramentos produzem o seu efeito, não só em virtude da forma, mas também em virtude da matéria; pois, de ambas se constitui a unidade do sacramento, como es­tabelecemos. Por onde, assim como a remissão da culpa se dá no batismo, não só em virtude da forma, mas também em virtude da matéria a saber, da água; mas mais principalmente em virtude da forma, da qual a própria água tira a sua virtude, assim também a remissão da culpa é efeito da penitência. Mais principal­mente porém por virtude das chaves, a qual os ministros têm, donde deriva o que este sacramento tem de formal, como dissemos. Secun­dariamente porém, o formal do sacramento de­riva dos atos do penitente concernentes à vir­tude da penitência, mas enquanto esses atos de certo modo se ordenam às chaves da Igreja. Por onde é claro, que a remissão da culpa é efeito da penitência enquanto virtude; mas mais prin­cipalmente, enquanto é sacramento.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O efeito da graça operante é a justificação do ímpio, como dissemos na Segunda Parte. E essa justificação implica conforme mostramos no mesmo lugar, não só a infusão da graça e a remissão da culpa, como também o movimento do livre arbítrio, que de um lado, nos leva para Deus, um ato de fé formada, e de outro, nos afasta do pecado, por um ato de penitência. Mas esses atos humanos são aí como efeitos da graça operante, produzidos simultaneamente com a remissão da culpa. Por onde, a remissão da culpa não se opera sem o ato da virtude da penitência; embora seja efeito da graça ope­rante.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A justificação do ím­pio implica, não só um ato de penitência, mas também um ato de fé como dissemos. Por onde, a remissão da culpa não é considerada como efeito só da virtude da penitência, mas mais principalmente, da fé e da caridade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A paixão de Cristo se ordena o ato da virtude da penitência, tanto pela fé como pela sua subordinação ao poder das chaves, que tem a Igreja. Por onde, de um e outro modo causa a remissão da culpa em vir­tude da paixão de Cristo.

Quanto ao objetado em contrário, respondemos, que o ato da virtude da penitência tem um caráter de necessidade tal, que sem ela não pode haver remissão da culpa, enquanto esta é um efeito inseparável da graça, pela qual prin­cipalmente a culpa é perdoada e que opera tam­bém em todos os sacramentos. E por isso daí se não pode concluir, que a graça é causa da· re­missão da culpa, mais principal que o sacramento da penitência. Mas devemos saber, que mesmo na vigência da Lei Velha e na da natu­reza, havia de certo modo o sacramento da pe­nitência, como dissemos.