Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 3 — Se pela penitência recobramos a nossa anterior dignidade.

O terceiro discute-se assim. — Parece que pela penitência não recobramos a nossa anterior dignidade.

1. — Pois, aquilo da Escritura — A virgem de Israel caiu — diz a Glosa: Não nega que ressurja a virgem, mas que possa ressurgir; pois a ovelha que uma vez se transviou, embora re­conduzida aos ombros do Pastor, não ascende contudo a uma tão grande glória, como a que nunca aberrou. Logo, pela penitência não reco­bramos a nossa anterior dignidade.

2. Demais. — Jerônimo diz: Os que não conservarem a dignidade do grau da sua vida divina contentem-se com salvar a alma; pois, retornar ao grau anterior é difícil. E Inocên­cio Papa (I) diz, que os cânones constituídos em Nicéia excluem os penitentes, mesmo dos ínfimos graus do clericato. Logo, pela penitência não recobramos a nossa dignidade anterior.

3. Demais. — Antes de pecarmos podemos ascender a um grau mais elevado. Mas isso não é dado ao penitente, depois do pecado. Assim, diz a Escritura: Os levitas que se apararam longe de mim, nunca se achegarão a mim para fazerem a função do sacerdócio. E uma dispo­sição do concilio Hilerdense determina: Os que servem aos santos altares se forem vítimas da lamentável fragilidade da carne e, os olhos pos­tos em Deus, fizerem penitência, recobrem os lugares dos seus ofícios, mas não possam ser promovidos a mais altas dignidades. Logo, pela penitência não recobramos a nossa anterior dignidade.

Mas, em contrário, como se lê na mesma distinção, Gregório, escrevendo a Secundino, diz: Depois de ter dado a devida satisfação, permi­timos que possa, um readquirir as suas honras. E o concilio Agatense dispõe: Os clérigos con­tumazes, conforme o permitir a ordem da digni­dade, sejam corrigidos pelo bispo; mas de modo que, quando emendados pela penitência, reco­brem o grau da sua dignidade.

SOLUÇÃO. — Pelo pecado perde o homem uma dupla dignidade — uma relativa a Deus; a outra, relativa à Igreja. Ora, relativamente a Deus, perde duas dignidades. — Uma principal, pela qual era contado entre os filhos de Deus, em virtude da graça. E esta dignidade a recupera pela penitência. O que é significado pelo filho pródigo, ao qual arre­pendido o pai mandou restituir o seu primeiro vestido, o anel e os sapatos. — A outra dignidade que perde, e essa secundária, é a inocência. Dela, como lemos no mesmo lugar, se gloriava o filho mais velho, dizendo: Há tantos anos que te sirvo sem transgredir mandamento algum teu. E tal dignidade o penitente não na pode recuperar. Mas as vezes adquire uma outra maior, conforme o diz Gregório: Os que re­fletem na sua aberração de Deus, compensam suas perdas precedentes com os lucros subsequentes. Maior alegria por isso causam ao céu, assim como também o chefe, no combate, mais ama o soldado que, voltando, depois de ter fu­gido, ataca o inimigo mais impetuosamente, que o que nunca voltou as costas mas também nunca lutou com coragem. A dignidade eclesiástica perde-a o clérigo pelo pecado, se se tornou indigno do exercício dela. E essa não na pode recuperar. — Primei­ro, se não fizer penitência. Por isso Isidoro es­creve como lemos na referida distinção: Os cânones ordenam que recuperem os graus que ocupavam, os que deram a satisfação da peni­tência, ou fizeram uma condigna confissão dos pecados. Mas, ao contrário, os que não se emen­dam do vício da sua corrupção, não recuperem o grau das dignidades que tinham, nem a graça da comunhão. — Segundo, se fizer com negligência a penitência. Donde o dizer-se na mesma dis­tinção: Quando esses clérigos penitentes não derem quaisquer mostras de humilde compun­ção, de nenhuma assiduidade na oração, de nenhuma prática do jejum ou de leituras pie­dosas, não podemos prever a negligência com que, se as recobrarem, exercerão as suas primi­tivas dignidades. — Terceiro, se cometer algum pecado que implique irregularidade. Por isso, na mesma distinção, dispõe um cânone de um con­cílio convocado pelo Papa Martinho: Quem desposar uma viúva, ou, mulher abandonada pelo marido, não seja admitido ao clericato. Se nele se intrometeu subrepticiamente, seja expulso. Semelhantemente, quem, depois do batismo, for réu de homicídio por ato, por conselho ou de­fesa do assassino. Isto porém não é em razão do pecado, mas da irregularidade. — Quarto, por causa do escândalo. Por isso lemos na mesma distinção: Os surpreendidos ou apanhados publicamente na prática do perjúrio, do furto ou da fornicação ou de outros crimes, decaiam das suas dignidades, segundo o estatuído pelos sa­grados cânones. Pois, seria escândalo para o povo de Deus ter essas pessoas como superiores. Os que porém se confessarem em particular a um sacerdote de terem cometido esses pecados às ocultas, se tratarem de as expiar por jejuns, esmolas, vigílias e santas práticas, a esses tam­bém, conservadas as suas dignidades próprias, seja prometida a esperança do perdão da misericórdia de Deus. E ainda: Se os crimes irro­gados não foram estabelecidos por uma sentença judicial ou não são notórios de nenhum outro modo, salvo os homicidas, não podem, depois da penitência, ser afastados do exercício das ordens já recebidas ou de as receberem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O que se dá com a recuperação da virgindade também se dá com a da inocência, concernente à dignidade secundária relativamente a Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Com as palavras ci­tadas, Jerônimo não quer dizer que é impossível, mas difícil, recuperarmos, depois do pecado, a nossa primitiva dignidade. Porque isto não é concedido senão ao perfeito penitente, como se disse. — Quanto às prescrições dos cânones, que parece proibirem essa concessão, responde Agostinho escrevendo a Bonifácio: Não é porque desesperasse de poder perdoar, mas pelo rigor da sua disciplina, que a Igreja proibiu receber o cle­ricato, a ele voltar ou nele permanecer, a quem fez penitência de algum crime. O contrário seria pôr em discussão o poder das chaves dado à Igre­ja e do qual foi dito: Tudo o que tiverdes desata­do na terra será desatado no céu. E depois acrescenta: Assim, o santo rei Davi fez penitência dos seus crimes e contudo permaneceu na sua dignidade. E S. Pedro fez profunda penitência de ter negado ao Senhor, derramando amaríssi­mas lágrimas; e contudo permaneceu Apóstolo. Mas nem por isso julguemos supervacâneo o es­tudo daqueles que, mais tarde, aumentaram as humilhações da penitência, quando já isso nenhum detrimento causava à penitência. Ti­nham, como creio aprendido pela experiência que o apego ao poder das dignidades tornava, fictícia a penitência de certos pecadores.

RESPOSTA À TERCEIRA. — E essa disposição se entende dos que fazem penitência pública e não podem por isso ser alçados depois a uma digni­dade maior. Assim também Pedro, depois da negação, foi constituído pastor das ovelhas de Cristo, como lemos no Evangelho. Ao que diz Crisóstomo: Pedro, depois da negação e da pe­nitência, ficou com maior confiança em Cristo. Pois, aquele que na Ceia não ousava interrogar e pediu a João que o fizesse em seu lugar, a esse foi confiada depois a chefia sobre seus irmãos, e não só não cometeu a outrem o interrogar o que lhe concernia, mas, quanto ao mais, ele pró­prio interrogou o Mestre em nome de João.