Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 — Se são convenientemente assinaladas as seguintes partes da penitência — a contrição, a confissão e a satisfação.

O segundo discute-se assim. — Parece que não são convenientemente assinaladas as se­guintes partes da penitência – a contrição, a confissão e a satisfação.

1. — Pois, a contrição existe no coração; e assim constitui penitência interior. Ao passo que a confissão se faz pela boca e a satisfação pelas obras; e assim essas duas últimas pertencem à penitência exterior. Ora, a penitência interior não é sacramento; mas só a penitência exterior, dependente dos sentidos. Logo, não estão convenientemente assinaladas essas partes da penitência.

2. Demais. — Pelos sacramentos da Lei Nova é conferida a graça, como se disse. Ora, pela satisfação nenhuma graça é conferida. Logo, a satisfação não é parte do sacramento.

3. Demais. — Não é o mesmo ser fruto e parte de uma coisa. Ora, a satisfação é fruto da penitência, segundo aquilo da Escritura: Fa­zei frutos dignos da penitência. Logo, não é parte da penitência.

4. Demais. — A penitência se ordena con­tra o pecado. Ora, o pecado podemos cometê-lo só no coração, pelo consentimento, como se estabeleceu na Segunda Parte. Logo, também a penitência. Portanto, não devem considerar-se partes da penitência a confissão oral e a satis­fação das obras.

Mas, em contrário. — Parece que devemos distinguir várias partes na penitência. Pois, parte do homem se considera, não só o corpo, que é a sua matéria; mas também a alma, que é a sua forma. Ora, os três elementos referidos, sendo atos do penitente, constituem a ma­téria dela; sendo a forma a absolvição dada pelo sacerdote. Logo, a absolvição do sacerdote deve ser considerada a quarta parte da penitência.

SOLUÇÃO. — Há duas espécies de partes, como o ensina Aristóteles: a parte da essência e a parte da quantidade. As partes da essência são, naturalmente, a forma e a matéria; e logicamente, o gênero e a diferença. Ora, deste modo, em cada sacramento distinguimos a ma­téria e a forma como partes da essência deles; por isso dissemos que os sacramentos consistem em realidades e palavras. Mas como a quanti­dade faz parte da matéria, as partes quantita­tivas são partes da matéria. E assim, especial­mente no sacramento da penitência distingui­mos partes, como dissemos, relativas aos atos do penitente, que são a matéria deste sacra­mento. Mas, como dissemos, compensa-se de um modo a ofensa na penitência e, de outro, na justiça vindicativa. Pois, na justiça vindicativa a compensação depende arbítrio do juiz e não da vontade do ofensor ou do ofendido. Ao pas­so que na penitência a compensação da ofensa se realiza segundo a vontade do pecador e o arbítrio de Deus contra quem pecou. Porque aí não se requer só a reintegração da igualdade da justiça, como no caso da justiça vindicativa, mas ainda a reconciliação da amizade, o que se rea­liza pela recompensa do ofensor segundo a von­tade do ofendido. Assim, pois, exige-se, da parte do penitente: primeiro, a vontade de com­pensar, o que se realiza pela contrição; segundo, a sujeição ao arbítrio do sacerdote, representante de Deus, o que se realiza pela confissão, e terceiro, recompensar segundo o arbítrio do ministro de Deus, e isso se opera pela satis­fação. Por onde, a contrição, a confissão e a satisfação se consideram partes da penitência.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — ­A contrição existe, essencialmente no coração e pertence à penitência interior; mas virtualmen­te, pertence à penitência exterior, isto é, enquanto implica o propósito de confessar e satisfazer.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A satisfação confe­re a graça, enquanto querida, e a aumenta, en­quanto executada, como o faz o batismo com os adultos, conforme dissemos.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A satisfação é parte do sacramento da penitência, e fruto da virtude da penitência.

RESPOSTA À QUARTA. — Mais elementos re­querem o bem, que procede de uma causa íntegra, que o mal, que nasce de qualquer deleito, segundo Dionísio. Por isso, embora o pecado se con­sume no consentimento do coração, contudo para ser completa, a penitência requere a contrição do coração, a confissão oral e a obra satisfa­tória.