Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 7 — Se os sacramentos exigem palavras determinadas.

O sétimo discute-se assim. — Parece que os sacramentos não exigem palavras determinadas.

1. — Pois, como diz o Filósofo as palavras não são as mesmas para todos. Ora, a salvação que alcançamos por meio dos sacramentos, é a mesma para todos. Logo, os sacramentos não exigem palavras determinadas.

2. Demais. — Os sacramentos implicam a palavra, cuja principal função dela é ser signi­ficativa, como se disse. Ora, diversas palavras podem significar a mesma coisa. Logo, os sa­cramentos não exigem palavras determinadas.

3. Demais. — A corrupção de um ser muda-lhe a espécie. Ora, certos proferem corruptamente as palavras, mas nem por isso se crê que fica impedido o efeito dos sacramentos; do con­trário os iletrados e os gagos, que conferissem os sacramentos, frequentemente introduziram de­feitos neles. Logo, parece que os sacramentos não requerem palavras determinadas.

Mas, em contrário, o Senhor proferiu palavras determinadas na consagração do sacramen­to da Eucaristia, dizendo: Este é o meu corpo. Semelhantemente, também mandou aos discípu­los batizarem sob uma determinada forma de palavras, conforme está no Evangelho: Ide e ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo.

SOLUÇÃO. — Como dissemos, nos sacramentos as palavras desempenham o papel de forma, e as coisas sensíveis o de matéria. Ora, em todos os seres compostos de matéria e forma, o princípio da determinação procede da forma, que é de certo modo o fim e o termo da matéria. Por isso, um ser, na sua essência, implica mais principalmente uma forma determinada, que uma determinada matéria; pois, a matéria determi­nada é necessário seja proporcionada a uma determinada forma. Ora como os sacramentos re­querem determinadas coisas sensíveis, que neles desempenham o papel de matéria, com muito maior razão exigem uma determinada forma de palavras.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. Como diz Agostinho, a palavra opera nos sacra­mentos, não por serem proferidas, isto é, não pelo som exterior da voz, mas por serem cridas, isto é, pelo sentido delas, apreendido pela fé. Ora, esse sentido é o mesmo para todos, embora as pala­vras não tenham o mesmo som. Por onde, o sacramento se perfaz, uma vez existente o refe­rido sentido das palavras, qualquer que seja a língua.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Embora em qualquer língua palavras diversas possam significar a mesma coisa, sempre contudo uma dessas pala­vras é a que mais principal e comumente usam os que falam a língua, para significar tal coisa. E essa deve ser a palavra empregada na signi­ficação do sacramento. Assim como também dentre as coisas sensíveis tornamos aquela, para a significação do sacramento, cujo uso é mais comum, para exprimir o ato pelo qual é signi­ficado o efeito do sacramento. Tal a água, de que os homens usam mais comumente para lavar o corpo, o que significa a ablução espiri­tual; por isso foi à água escolhida como a ma­téria do batismo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Quem profere cor­ruptas as palavras sacramentais, se por indús­tria o fizer, não intenciona fazer o que faz a Igreja e, portanto não consuma o sacramento. ­Se o fizer, porém por erro ou lapso da língua e for a corruptela tanta que prive totalmente de sentido a locução, não perfaz o sacramento. E isto, sobretudo se dá quando a corruptela está no princípio da dicção; tal o caso de quem em vez de dizer — em nome do Padre, dissesse — em nome da mãe. – Se, porém a referida corruptela não privar totalmente de sentido a locução, então perfaz-se o sacramento. O que, sobretudo acontece quando a corruptela vem no fim; por exemplo: se alguém dissesse pátrias et filias. Pois, embora essas palavras assim proferidas nada signifiquem quando empregadas, concede-se, po­rém que sejam significativas pela acomodação do uso. Por isso, embora seja mudado o som sensível, permanece. contudo, o mesmo sentido. ­Isso, porém que fica dito, sobre a diferença da corruptela no princípio ou no fim da dicção, se funda em que, para nós, o variar da dicção no princípio muda o sentido, ao passo que a varia­ção final não o muda, no mais das vezes. Mas entre os gregos o sentido varia, mesmo no prin­cípio da dicção, em declinação das palavras. ­Mas sobretudo devemos atender à grandeza da corruptela relativamente a dicção. Pois, tanto no fim como no principio pode ela ser tão pe­quena que não tire o sentido às palavras; e tão grande que o tire. Um desses defeitos porém mais facilmente resulta da corrupção no princí­pio e o outro, na do fim.