Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se devem ser sete os sacramentos.

O primeiro discute-se assim. — Parece que não devem ser sete os sacramentos.

1. — Pois, os sacramentos tiram a sua eficá­cia da virtude divina e da virtude da paixão de Cristo. Ora, uma só é a virtude divina, e uma só a paixão de Cristo; pois, no dizer do Após­tolo, com uma só oferenda fez perfeitos para sempre os que têm santificados. Logo, devia haver só um sacramento.

2. Demais. — O sacramento se ordena a sanar a falta do pecado. Ora, esta é dupla: a pena e a culpa. Logo, bastavam dois sacramentos.

3. Demais. — Os sacramentos são relativos aos atos da hierarquia eclesiástica, como está claro em Dionísio. Ora como diz ainda Dioní­sio, três são as ações hierárquicas: a purgação, a iluminação e a perfeição. Logo, não deve haver senão três sacramentos.

4. Demais. — Agostinho diz que os sacramentos da lei nova são em menor número que os da velha. Ora, na lei velha nenhum sacra­mento havia correspondente à confirmação e à extrema unção. Logo, não devem também estes ser contados entre os sacramentos da lei nova.

5. Demais. — A luxúria não é mais grave que os outros pecados, como se infere do dito na segunda Parte. Ora, para remédio dos outros pecados não se instituem nenhum sacramento. Logo, nem contra a luxúria devia ser instituído o sacramento do matrimônio.

Mas, em contrário. — Parece que são mais de sete os sacramentos.

6. — Demais. — Os sacramentos assim se chamam por serem uns quase sinais sagrados. Ora, muitas outras santificações se fazem na Igreja por meio de sinais sensíveis; assim, a água ben­ta, a consagração dos altares e outras semelhan­tes. Logo, há mais de sete sacramentos.

7. Demais. — Hugo de S. Vitor diz que os sacramentos da lei velha eram as oferendas os dízimos e os sacrifícios. Ora, o sacrifício da Igreja é um sacramento e se chama Eucaristia. Logo, também as oferendas e os dízimos devem considerar-se sacramentos.

8. Demais. — Três são os gêneros de peca­dos: o original, o mortal e o venial. Ora, contra o pecado original foi instituído o batismo; e contra o mortal, a penitência. Logo, deveria haver mais um sacramento, além dos sete, orde­nado contra o pecado venial.

SOLUÇÃO. — Como dissemos, os sacramentos da Igreja se ordenam a dois fins: à perfeição do homem no concernente ao culto de Deus, segun­do a religião da vida cristã; e também como remédio contra a falta do pecado. Ora, em re­lação a esses dois fins foram convenientemente instituídos sete sacramentos. Pois, a vida espiritual tem uma certa conformidade com a vida do corpo; assim como também as coisas materiais têm uma certa con­formidade com as espirituais. Ora, a vida do nosso corpo é susceptível de dupla perfeição; quanto à nossa própria pessoa e quanto à toda a comunidade da sociedade em que vivemos, por­que o homem é um animal naturalmente social. Ora, em relação a si mesmo a nossa vida corpórea é susceptível de dupla perfeição. Uma consiste em adquirirmos uma perfeição vital, essencialmente falando. Outra é acidental e consiste na remoção dos obstáculos à vida, como a doença e outras semelhantes.

Ora, essencialmente falando, a vida do nos­so corpo é capaz de tríplice perfeição. — A primeira, é a geração, pela qual começa a nossa existência e a nossa vida. E a esta corresponde, na ordem espiritual, o batismo, que é uma rege­neração espiritual, segundo o Apóstolo: Pelo batismo da regeneração etc. — A segunda é o crescimento, pelo qual chegamos à perfeição da estatura e da robustez. E a esta corresponde, na vida espiritual, a confirmação, pela qual o Espí­rito Santo nos fortifica. Por isso, Jesus diz aos discípulos já batizados: Ficai vós de assento na cidade, até que sejais revestidos da virtude lá do alto. — Terceiro, a nutrição pela qual conserva­mos a vida e vigor. E a esta corresponde na vida espiritual, a Eucaristia. Por isso disse Jesus: Se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós. E isto nos bastaria se tivéssemos corporal e espiritualmente falando, uma vida impassível. Mas, como às vezes sofremos a doença do corpo, e a do espírito, que é o pecado, é nos necessário curarmo-nos dela. E essa cura é dupla. Uma nos sana, de modo a nos restituir a saúde. E li essa corresponde, na ordem espiritual, a peni­tência, segundo aquilo da Escritura: Sara a minha alma porque pequei contra ti. — Outra é a restauração da nossa saúde anterior por um regime e exercício convenientes. E a isto cor­responde, na vida espiritual a extrema unção, que dele os resíduos do pecado e nos torna pre­parados para a glória final. Donde o dizer a Escritura: E se estiver em alguns pecados, ser-­lhe-hão perdoados.

Quanto à universal comunidade, no seu total nós nos aperfeiçoamos de dois modos. — Primeiro, recebendo o poder de governar o povo e de exercer atos públicos. E a isto corresponde, na ordem espiritual, o sacramento da ordem, segundo o dito do Apóstolo, que os sacerdotes oferecem as vítimas não só por si, mas ainda por todo o povo. — Segundo, quanto à propaga­ção natural da espécie. O que se dá pelo matri­mônio tanto na vida do corpo como na espiri­tual: pois, não só é um sacramento mas uma função da natureza.

Do que acabamos de dizer também resulta claro o número dos sacramentos, enquanto têm a finalidade de reparar as faltas introduzidas pelo pecado. Assim, o batismo supre à privação da vida espiritual; a confirmação se ordena a fortalecer a alma fraca dos que têm pouca idade; a Eucaristia é contra a inclinação da alma ao pecado; a penitência, contra o pecado atual cometido depois do batismo; a extrema unção, contra os resíduos dos pecados que, por negligência ou ignorância, não foram suficien­temente delidos pela penitência; a ordem con­tra a indisciplina do povo; o matrimônio, como remédio contra a concupiscência individual e contra a diminuição da população, causada pela morte.

Certos porém consideram o número dos sacramentos por uma adaptação às virtudes e aos defeitos das culpas e das penas. E dizem que à fé corresponde o batismo, que é dado como re­médio à culpa original; à esperança, a extrema unção, aplicada contra a culpa venial; à cari­dade, a Eucaristia, para obviar à penalidade da malícia; à prudência, a ordem, remédio à ignorância; à justiça, a penitência; remédio contra o pecado mortal; à temperança, o matri­mônio, remédio contra a concupiscência; à for­taleza, a confirmação, remédio para a fraqueza.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­Um mesmo agente principal pode servir—se de diversos instrumentos para efeitos diversos, conforme a exigência da obra. Semelhante­mente, a virtude divina e a paixão de Cristo obram em nós pelos diversos sacramentos, quase como por instrumentos diversos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A culpa e a pena são diversas, pela espécie, por serem diversas as es­pécies de culpas e de penas, e também os esta­dos e as relações dos homens. E por isso era necessário multiplicarem-se os sacramentos, como do sobredito resulta.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Nas ações hierár­quicas consideram—se os agentes, os que recebem e as ações. — Quanto aos agentes, são os mi­nistros da Igreja, a quem concerne o sacramento da ordem. — Os que recebem são os que se ache­gam ao sacramento, e são produzidos pelo ma­trimônio. — As ações são: a purgação, a ilumi­nação e a perfeição. Mas só a purgação não pode ser sacramento da lei nova, que confere a graça; mas se inclui em certos sacramentais que são a catequese e o exorcismo. Quanto à purgação e à iluminação, pertencem simultânea­mente, segundo Dionísio, ao batismo; e, por causa das recidivas, incluem-se secundàriamen­te na penitência e na extrema unção. A perfei­ção enfim — quanto à sua virtude, que é uma quase perfeição formal, pertence à confirmação: e quanto à consecução do fim pertence à Eucaristia.

RESPOSTA À QUARTA. — O sacramento da con­firmação dá—nos a força pela plenitude do Es­pírito Santo; e pela extrema unção preparamo-­nos a receber imediatamente a glória. Nada do que podia existir no tempo do Testamento Velho. Por isso, na lei Velha nada podia corresponder a esses sacramentos. Nem por isso porem os sa­cramentos da lei Velha deixaram de ser mais numerosos, por causa da diversidade dos sacri­fícios e das cerimônias.

RESPOSTA À QUINTA. — Contra a concupis­cência da carne era necessário instituir um sa­cramento que fosse especialmente um remédio para tal. Primeiro, porque essa concupiscência não só contamina o individuo pessoalmente mas, também a natureza. Segundo, por causa da sua veemência, que priva da razão.

RESPOSTA À SEXTA. — A água benta e as outras coisas consagradas não se chamam sacramentos, por não produzirem o efeito do sa­cramento, que é a consecução da graça. Mas são umas disposições para o sacramento. Ou porque removem os obstáculos, como a água benta eficaz contra as insídias dos demônios e contra os pecados veniais. Ou produzem maior dignidade à solenidade do sacramento; assim, consagra-se o altar e os vasos pela reverência para com a Eucaristia.

RESPOSTA À SÉTIMA. — As oferendas e os dí­zimos eram, tanto na lei da natureza como na de Moisés, ordenadas não só ao subsídio dos mi­nistros e dos pobres, mas também para serem figuras; e por isso eram sacramentos. Mas não ficaram, até ao presente como figuras que eram e por isso já não são sacramentos.

RESPOSTA À OITAVA. — Para delir o pecado venial não é necessária a infusão da graça. Por onde, como por qualquer dos sacramentos da lei nova se infunde a graça, nenhum sacramento dessa lei é instituído diretamente contra o pe­cado venial, que é delido por certos sacramen­tais, como a água benta e outros semelhantes. — Mas certos, dizem que a extrema unção vale contra o pecado venial. Disto porem trataremos em seu lugar.