Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 — Se a oração de Cristo sempre foi ouvida.

O quarto discute-se assim: — Parece que a o oração de Cristo nem sempre foi ouvida.

1. — Pois, pediu que passasse de si o cálice da paixão, e contudo dele não passou. Logo, parece que nem toda oração sua foi ouvida.

2. Demais. — Cristo pediu fosse perdoado o pecado dos que o crucificaram, como se lê no Evangelho. Contudo esse pecado não foi perdoado a todos, pois os Judeus foram punidos por ele. Logo parece que nem todas as suas orações foram ouvidas.

3. Demais. — O Senhor orou por aqueles que haviam de crer nele, por meio da palavra dos Apóstolos, para que todos fossem. nele um e chegassem à união com ele. Ora, nem todos chegam a tal. Logo, nem todas as suas orações foram ouvidas.

4. Demais. — A Escritura diz, da Pessoa de Cristo: Clamarei durante o dia e tu não me ouvirás. Logo, nem todas as suas orações foram ouvidas.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo: Oferecendo com um grande brado e com lágrimas, foi atendido pela sua reverência.

SOLUÇÃO. — Como dissemos, a oração é de certo modo interpretativa da vontade humana. Pois, quando oramos, a nossa oração é ouvida, se a nossa vontade é satisfeita. Ora, em sentido absoluto, a vontade do homem é a vontade racional; pois, queremos, absolutamente falando, o que queremos com razão deliberada. Mas, o que queremos por um movimento da sensualidade, ou ainda por um movimento de simples vontade, considerada como natureza, não o queremos absolutamente falando, mas só relativamente, isto é, se não se opuser nenhum obstáculo proveniente da deliberação da razão. Por isso essa vontade se chama antes veleidade que vontade absoluta; isto é, consiste em querermos uma determinada coisa, se nenhum obstáculo se nos opuser. Ora, pela vontade racional, Cristo não queria senão o que sabia estar de acordo com a vontade de Deus. Por isso, toda vontade absoluta de Cristo, mesmo humana, foi cumprida, porque era conforme a Deus; e por consequência todas as suas orações foram ouvidas. Pois, também as orações dos outros são exalçadas, quando as suas vontades estão conformes com Deus, segundo àquilo do Apóstolo: Aquele que esquadrinha os corações sabe, isto é, aprova, o que deseja o Espírito, isto é, que faz os santos desejarem, porque ele só pede pelos santos segundo Deus, isto é, de conformidade com a vontade divina.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O pedido de Cristo de se lhe passar o cálice os santos e expõem diversamente. – Assim, Hilário diz: Quando rogava que de si passasse aquele cálice, não pedia que fosse livre dele, mas que recaísse sobre outros o que de si passasse. E desse modo orava pelos que depois dele haveriam de sofrer, sendo o sentido: Assim como eu bebo este cálice da paixão, assim também o bebam com esperança confiante, sem sentir dor e sem medo da morte. – Ou, segundo Jerônimo: Diz sinaladamente – este cálice, isto é, do povo judeu, que não tem nenhuma escusa de ignorância, se me matar, porque tem as leis e os profetas que todos os dias vaticinam a meu respeito. — Ou segundo Dionísio Alexandrino: Quando disse — Passe de mim este cálice — não quis significar — Não me seja oferecido — pois, sem lho ter sido oferecido, dele não podia passar. Mas significava que assim como o pretérito nem é intacto nem permanente, assim o Salvador pede seja afastado a tentação que de leve ia penetrando. — Ambrósio, porém, Orígenes e Crisóstomo, dizem que pediu como homem, que por vontade natural foge a morte. — Se, pois, entendermos que pedia, com essas palavras, que os outros mártires lhe viessem a ser os imitadores da paixão, segundo Hilário; ou se pediu que o temor de beber o cálice não o perturbasse; ou que a morte não o detivesse, de qualquer modo cumpriu-se o que ele pediu. — Se porém se entende que pediu para não beber o cálice da morte e da paixão; ou que não o bebesse, dado pelos Judeus, por certo não se cumpriu o que pediu, porque a razão, que propôs a petição, não queria que tal se cumprisse; mas, para nossa instrução, quis nos mostrar a sua vontade natural e o movimento da sensibilidade, que, como homem. tinha.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O Senhor não orou por todos os que o crucificaram, nem também por todos os que haviam de acreditar nele; mas só pelos predestinados para que, por ele, conseguissem a vida eterna.

Donde se deduz também a RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO.

RESPOSTA À QUARTA. — A expressão — Clamarei e tu não me ouvirás — devemos entendê-la quanto ao efeito da sensibilidade, a que repugnava a morte. Cristo foi porém ouvido quanto ao afeto da razão, como se disse.