Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 8 ─ Se o fogo da conflagração final terá sobre os homens o efeito que se lhe atribui.

O oitavo discute-se assim. ─ Parece que o fogo da conflagração final não terá sobre os homens o efeito que se lhe atribui.

1. ─ Pois, dizemos que se consome o que é reduzido ao nada. Ora, os corpos dos ímpios não serão reduzidos ao nada, mas subsistirão eternamente para sofrerem uma pena eterna. Logo, esse fogo não consumirá os maus, como diz o Mestre.

2. Demais. ─ A quem disser que esse fogo consumirá os corpos dos maus, reduzindo-os a cinza, responde-se em contrário o seguinte. Tanto os corpos dos maus como o dos bons se resolverão em cinza. E só Cristo teve o privilégio de o seu corpo não haver sofrido a corrupção. Logo, também os bons, que viverem no momento da conflagração geral, serão consumidos pelo fogo.

3. Demais. ─ Foram mais contaminados pelo pecado os elementos, que entram na composição do corpo humano, onde se radicou a concupiscência, mesmo nos bons, que os elementos estranhos a esse corpo. Ora, estes últimos terão de ser purificados da contaminação do pecado. Logo e com maior razão, precisam de ser purificados pelo fogo os elementos, que entram na composição do corpo humano, tanto dos bons como dos maus. Portanto, todos hão de ser reduzidos ao nada.

4. Demais. ─ Enquanto dura esta vida, os elementos atuam do mesmo modo, tanto no corpo dos bons como no dos maus. Ora, ainda haverá vivos no momento da conflagração universal, porque depois desta vida já não haverá morte natural, que contudo será provocada por essa conflagração. Logo, o fogo atuará igualmente sobre os bons e os maus. Donde, pois, parece que não haverá nenhuma diferença entre eles, quanto a sofrerem o efeito do fogo, ao contrário do que diz o Mestre.

5. Demais. ─ A conflagração final será quase momentânea. Ora, virá apanhar muitos ainda vivos e que devem ser purificados. Logo, essa conflagração não bastará para purificá-los.

SOLUÇÃO. ─ O fogo da conflagração final, como precursor do juízo, atuará como instrumento da justiça divina e pela virtude natural do fogo. Pela sua virtude natural atuará tanto sobre os maus como sobre os bons, que nessa ocasião estiverem vivos, reduzindo-lhes os corpos a cinzas. Mas como instrumento da justiça divina, fará com que uns e outros lhe sofram diferentemente a pena. Os maus serão cruciados. Ao contrário, os bons, não precisando de ser purificados, nada sofrerão, como não sofreram os meninos na fornalha, conforme o refere a Escritura. Embora, como os destes, os seus corpos não hajam de conservar a sua integridade. Pois, o poder divino, fará esses corpos, sem serem cruciados pela dor, se reduzirem a cinza. Os bons, porém, que ainda deverem ser purificados, sentirão as dores causadas pelo fogo, mais ou menos, conforme o merecerem. Mas, depois do juízo, a sua ação se exercerá apenas sobre os maus, porque os corpos dos bons serão impassíveis.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ A consumpção, no lugar citado, se toma no sentido de redução a cinzas, e não no de aniquilamento.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ Os corpos dos bons, embora reduzidos a cinzas pelo fogo, nem por isso sentirão qualquer dor, como nenhuma sofreram os meninos na fornalha da Babilônia. Por ai haverá, pois, diferença entre bons e maus.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ Os elementos do corpo humano serão purificados pelo fogo, mesmo os do corpo dos bons; mas o poder divino fará com que tal se dê sem os tormentos da dor.

RESPOSTA À QUARTA. ─ O fogo em questão não atuará só pela virtude do elemento natural, mas também como instrumento da justiça divina.

RESPOSTA À QUINTA. ─ Três são as causas por que poderão ser instantaneamente purificados os que estiverem vivos por ocasião da conflagração universal. ─ A primeira é que pouco precisarão de ser purificados; depois de já o terem sido pelos terrores e perseguições precedentes. ─ A segunda é que, em vida sofreram a sua pena voluntariamente. Ora, uma pena sofrida de livre vontade nesta vida purifica muito mais que a infligida depois da morte. E o comprova o exemplo dos mártires, em que a foice do sofrimento lhes eliminará o que porventura ainda mereça purificação, como o diz Agostinho. Contudo, a pena do martírio é breve em comparação com as penas do purgatório. ─ A terceira é que o calor desse fogo ganhará em intensidade o que perder pela abreviação do tempo.