Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 ─ Se o som da trombeta será a causa da nossa ressurreição.

O segundo discute-se assim. ─ Parece que o som da trombeta não será a causa da nossa ressurreição.

1. ─ Pois, como diz Damasceno: Crê que a ressurreição há de realizar-se pela vontade, pelo poder e arbítrio de Deus. Logo, sendo estas as causas ela nossa ressurreição, não é necessário supor-lhe como o som da trombeta.

2. Demais. ─ É inútil emitir um som a quem não no pode ouvir. Ora, os mortos não terão o sentido do ouvido. Logo, não há necessidade de ouvirem nenhum som para ressurgirem.

3. Demais. ─ Se algum som for a causa da ressurreição, não o será senão por uma virtude recebida do alto. Por isso aquilo da Escritura ─ Dará a sua voz de virtude ─ diz a Glosa: de ressuscitar os corpos: Ora, desde que uma virtude é dada a alguém, embora milagrosamente, o ato dela resultante é natural; como no caso do cego de nascença que, recobrando miraculosamente a vista, depois via naturalmente. Logo, se um som fosse a causa da ressurreição, esta serra natural. O que é falso.

Mas, em contrário, o Apóstolo: O mesmo Senhor com a trombeta de Deus descerá do céu, e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro.

2. Demais. ─ A Escritura diz ─ que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Ora, é a essa voz que se chama trombeta, segundo o Mestre. Logo, etc.

SOLUÇÃO. ─ A causa há de certo modo conjugar-se com o efeito; porque o motor e o movido, a obra e o operário, devem existir simultaneamente, como o ensina Aristóteles. Ora, Cristo ressurrecto é a causa unívoca da nossa ressurreição. Por onde depois de ter ressurgido, Cristo fará sentir a sua ação na ressurreição dos corpos, por algum sinal material. E esse, na opinião de certos, será literalmente a voz de Cristo ordenando a ressurreição, como quando pôs preceitos ao mar e aos ventos e logo se seguiu uma grande bonança. Mas outros são de opinião, que esse sinal não será outro senão a aparição mesma e manifesta do Filho de Deus ao mundo, da qual diz o Evangelho: Do modo que um relâmpago sai do oriente e se mostra até o ocidente, assim há de ser também a vinda do Filho do homem. E se apelam nas seguintes palavras de Gregório: O som da tuba não é mais do que a manifestação do Filho como juiz do universo. E neste sentido a aparição mesma do Filho se chama voz de Deus; porque toda a natureza se apressará em lhe obedecer à manifestação, como a uma ordem, concorrendo para a restauração dos corpos humanos. Por isso, o Apóstolo diz que virá com mandato. Daí o nome de voz dada à sua aparição, por ter o poder de uma ordem. E essa voz, qualquer que ela seja, noutros lugares da Escritura é chamada clamor, como que do pregoeiro, que convoca ao juízo. Ou ainda som da tuba, quer por ser ouvido de todos, como explica o Mestre; ou pela semelhança com o uso que se fazia da trombeta no Antigo Testamento. Pois, convocavam para as assembléias, tocavam a reunir nos combates e convidavam para as festas, ao som da trompa. Ora, os ressurrectos serão convocados para a grande assembléia do juízo e para o combate, no qual todo o universo pelejará contra os insensatos; e também a festa da eterna solenidade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ Damasceno, com as palavras citadas, tocou em três pontos da causa material da ressurreição: a vontade divina, que ordena; o poder, que executa; e a facilidade na execução, quando acrescentou ─ o sinal ─ à semelhança do que passa conosco. Pois, é nos muito fácil fazer o que se realiza imediatamente, à simples manifestação da nossa vontade. Mas muito maior será essa facilidade, se já antes de pronunciarmos qualquer palavra, ao primeiro sinal da nossa vontade, chamado em latim nutus, os ministros a executam. E esse nosso sinal é de certo modo uma causa dessa execução, pois induz ele a que outros ponham em prática o nosso querer. Ora, o sinal (nutus) divino operativo da ressurreição, não é senão um sinal dado por Deus, a que toda a natureza obedecerá para fazer ressurgirem os mortos. E esse sinal é o mesmo que o som da trombeta, como do sobredito resulta.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ As formas dos sacramentos tem a virtude de santificar, não quando são ouvidas, mas quando proferidas. Assim também o referido som, qualquer que ele seja, terá uma eficácia instrumental para ressuscitar, não por ser ouvido, mas por ser desferido; do mesmo modo por que uma voz, fazendo vibrar o ar, desperta um adormecido, por lhe desatar a faculdade sensitiva, e não por ser conhecida; porque o julgarmos da voz, que nos fere os ouvidos, é consequente ao despertar, e não o causa.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ A objeção colheria, se a virtude dada ao sem produtivo da ressurreição fosse um ser de natureza perfeita; porque então o efeito dela procedente teria como princípio uma virtude feita natural. Ora, a virtude em questão não é tal; mas como a que dissemos terem as formas dos sacramentos.

3. Demais. ─ A mesma causa produz o mesmo efeito na mesma ordem de cousas. Ora, a ressurreição será comum a todos os homens. Logo, a ressurreição de Cristo, não sendo a causa de si mesma, não o é também da dos outros.