Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 ─ Se para todos a morte será o termo original da ressurreição.

O primeiro discute-se assim. ─ Parece que a morte não será para todos o termo original da ressurreição.

1. ─ Pois, certos não morrerão mas serão revestidos de imortalidade; assim, o Símbolo diz que o Senhor virá julgar os vivos e os mortos. Ora, isto não pode entender-se do tempo do juízo, porque então todos estarão vivos. Logo, essa distinção entre vivos e mortos há de necessariamente referir-se ao tempo precedente. Portanto, nem todos morrerão antes do juízo.

2. Demais. ─ Um desejo natural e comum não pode ser a tal ponto estéril e vão, que nunca se realize. Ora, segundo o Apóstolo, é desejo comum, que não queremos ser despojados, mas sim revestidos por cima. Logo, certos haverá que nunca serão despojados do corpo pela morte, mas se revestirão da glória da ressurreição.

3. Demais. ─ Agostinho diz, que as quatro últimas petições da oração dominical concernem à vida presente. Uma delas é ─ perdoai-nos as nossas dívidas. Logo, a Igreja pede lhe sejam perdoadas nesta vida as suas dívidas. Ora, a oração da Igreja não pode ser a tal ponto vã, que não seja ouvida, segundo aquilo do Evangelho: Se vós pedirdes a meu Pai alguma causa em meu nome, ele vo-la há de dar. Portanto, a Igreja, nalgum tempo desta vida, alcançará a remissão de todas as dívidas. Ora, uma dessas dívidas que contraímos pelo pecado dos nossos primeiros pais, é nascermos com o pecado original. Logo, um dia o Senhor concederá à Igreja, que os homens nasçam sem pecado original. Ora, a morte é a pena do pecado original. Portanto, certos homens, no fim do mundo, não morrerão. Donde a mesma conclusão que antes.

4. Demais. ─ O sábio deve sempre escolher o caminho mais curto. Ora, transferir imediatamente à impassibilidade da ressurreição os que então estiverem vivos é caminho mais curto do que ressurgi-los da morte para a imortalidade, depois de terem morrido. Logo, Deus, suma sabedoria, tomará esse caminho em relação aos que então estiverem vivos. Donde a mesma conclusão que antes.

Mas, em contrário. ─ Diz o Apóstolo: O que tu semeias não se vivifica se primeiro não morre. E fala, com a semelhança de semente da ressurreição dos corpos. Logo, os corpos ressurgirão da morte.

2. Demais. ─ O Apóstolo diz: Porque como a morte veio por Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Ora, em Cristo todos serão vivificados. Logo, em Adão todos morrerão. Portanto, da morte é que todos ressurgirão.

SOLUÇÃO. ─ Os Santos Padres resolvem diversamente esta questão, como diz o Mestre. A opinião porém mais segura e comum é que todos morrerão e depois ressurgirão. ─ E isto por três razões. Primeiro, por estar mais de acordo com a justiça divina, que condenou a natureza humana por causa do pecado cometido pelos nossos primeiros pais; de modo que todos os que, pela origem natural deles recebera, contraíram a infecção do pecado original, ficassem consequentemente sujeitos à morte. ─ Segundo, por estar mais de acordo com a divina Escritura, que
prediz a futura ressurreição de todos. Ora, a ressurreição não é própria senão de quem perdeu a vida pela dissolução do corpo, como diz Damasceno. ─ Terceiro, porque melhor concorda com a ordem da natureza, que nos mostra que tudo o corrupto e viciado não se reduz à sua pureza primitiva senão mediante a corrupção; assim o vinagre não volta a ser vinho senão depois de corrupto e transformado no suco da uva. Ora, como a natureza humana degradou-se e ficou sujeita à morte, não poderá readquirir a imortalidade senão mediante a morte. Esta
opinião melhor concorda com a ordem da natureza ainda por outra razão. Porque, segundo ensina Aristóteles, o movimento do céu é como que a vida para todos os seres da natureza; assim como o movimento do coração é de certo modo a vida de todo o corpo. Por onde, assim como cessado o movimento do coração, todos os membros morrem, assim, cessado o movimento do céu, não pode nenhum ser vivo continuar a ter aquela vida que se conservava por influência desse movimento. Ora, essa é a vida que agora vivemos. Por onde, é necessário que a percam os que estiverem vivos quando cessar o movimento do céu.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ Essa distinção entre mortos e vivos não deve aplicar-se ao tempo mesmo do juízo, nem à totalidade do tempo passado, porque todos os que deverão ser julgados Em certo tempo foram vivos e, em certo outro, mortos; mas sim, àquele tempo determinado imediatamente precedente ao juízo, quando começarem a se manifestar os sinais dele.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ O desejo perfeito dos santos não pode ser vão; mas nada impede que lh’o seja o desejo condicionado. Ora, quando desejam ser revestidos da imortalidade sem serem despojados do corpo mortal, se o for possível, nutrem um desejo condicionado. E esse é chamado por certos veleidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ É errôneo afirmar que alguém mais, além de Cristo, foi concebido sem pecado original. Do contrário, os que assim fossem concebidos não precisariam da redenção, operada por Cristo. E este seria então o redentor de todos os homens. ─ Nem colhe dizer que dessa redenção não precisaram por lhes ter sido concedido que fossem concebidos sem pecado; porque ou a graça lhe foi feita aos pais de ficarem isentos do vicio da natureza, sem o que não poderiam engendrar filhos isentos do pecado original; ou foi feita à natureza mesma, que foi sanada. Ora, devemos admitir que cada um precisa pessoalmente da redenção de Cristo, e não só em razão da natureza. Pois, ser livrado do mal ou perdoado de uma dívida não o pode senão quem a contraiu ou foi contaminado do mal. Por onde, não poderiam todos colher em si mesmos o fruto da oração dominical, se não tivessem todos nascido devedores e sujeitos ao mal. Portanto, as expressões ─ perdão das dívidas, ou, liberação do mal ─ não podem aplicar-se a quem nasceu sem dívida ou isento do mal, senão só a quem, nascido devedor, foi depois liberado pela graça de Cristo. ─ Mas mesmo concedendo que se possa afirmar sem erro, que certos morrerão, daí não se pode deduzir que nasceram sem culpa original, embora a morte seja a pena do pecado original. Porque Deus pode, na sua misericórdia, perdoar a pena a que um esteja obrigado pela culpa pretérita; assim, quando despediu a adúltera sem lhe impor nenhuma pena. Do mesmo modo, poderá liberar da morte os que lhe contraíram o reato, nascendo com o pecado original. Por onde, não há sequência no raciocínio: Se não hão de morrer é que nasceram sem pecado original.

RESPOSTA À QUARTA. ─ Devemos escolher sempre o caminho mais curto, mas nem sempre, senão só quando mais ou igualmente acomodado à consecução do fim. O que não se dá no caso vertente, como do sobre dito se colhe