Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 ─ Se o sacramento da ordem confere a graça santificante.

O primeiro discute-se assim. ─ Parece que o sacramento da ordem não confere a graça santificante.

1. ─ Pois, geralmente se diz que o sacramento da ordem é um remédio contra a ignorância. Ora, a graça, que visa expelir a ignorância, não é a santificante, mas a gratuita; porque a santificante concerne, antes, ao afeto. Logo, o sacramento da ordem não confere a graça santificante.

2. Demais. ─ A ordem implica uma distinção. Ora, os membros da Igreja não se distinguem uns dos outros pela graça santificante, mas antes, pela graça gratuita, da qual diz o Apóstolo: Há repartição de graças. Logo, a ordem não confere a graça santificante.

3. Demais. ─ Nenhuma causa pressupõe o seu efeito. Ora, quem vai receber as ordens há de ter tido antes a graça, que o torna idôneo a recebê-las. Logo, tal graça não é dada quando é conferida a ordem.

Mas, em contrário. ─ Os sacramentos da lei nova realizam o que figuram. Ora, a ordem pelo número sete significa os sete dons do Espírito Santo, como diz o Mestre. Logo, os dons do Espírito Santo, que não existem sem a graça santificante, são conferidos juntamente com a ordem.

2. Demais. ─- A ordem é um sacramento da Lei Nova. Ora, na definição desse sacramento se diz ─ para que seja a causa da graça. Logo, causa a graça em quem o recebe.

SOLUÇÃO. ─ As obras de Deus são perfeitas, como diz a Escritura. Por onde, a quem Deus dá um poder qualquer dá também os meios de pô-la convenientemente em exercício. O que bem vemos na ordem natural; assim, aos animais foram dados membros, pelos quais as potências da alma possam exercer os seus atos, salvo se alguma deficiência da matéria a isso se opuser. Ora, assim como a graça santificante é necessária, para recebermos dignamente os sacramentos, assim também o é para serem dignamente dispensados. Por onde, assim como pelo batismo, que nos torna capazes de receber os outros sacramentos, é dada a graça santificante, assim, pelo sacramento da ordem, que destina alguém a dispensador dos outros sacramentos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ A ordem é conferida em benefício, não de uma pessoa, mas de toda a Igreja. Por isso a expressão ─ remédio contra a ignorância ─ não se deve entender como significando, que o fato de receber a ordem elimina a ignorância de quem a recebe; mas, que quem a recebe está preparado a acabar com a ignorância do povo.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ Embora os dons da graça santificante sejam comuns a todos os membros da Igreja, contudo ninguém, que não tenha a caridade, pode dignamente receber a ação daqueles dons, nos quais se funda a distinção entre os vários membros da Igreja; e a caridade não pode existir sem a graça santificante.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─- Para o cabal exercício das ordens não basta qualquer bondade, mas é necessário uma bondade excelente. De modo que, como aqueles que recebem a ordem, ela os coloca em grau superior ao povo, assim também lhe sejam superiores pelo mérito da santidade. Por isso devem ter antes a graça bastante para fazerem dignamente parte do povo cristão; quando porém recebem a ordem, recebem também maior dom da graça, que os torna capazes de coisas maiores.