Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se o poder das chaves se estende ao perdão da culpa.

O primeiro discute-se assim. — Parece que o poder das chaves se estende ao perdão da culpa.

1. — Pois, diz o Evangelho: Aos que vos perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados. Ora, isto não significa apenas que os pecados se declarem perdoados, como o explica a letra do Mestre; porque então o sacerdote do Testamento Novo não teria maior poder que o do Velho. Logo, exerce o poder para o perdão da culpa.

2. Demais. — Com o poder é dada a graça de perdoar os pecados. Ora, o dispensador deste sacramento é o sacerdote, em virtude do poder das chaves. Logo, como a graça não se opõe ao pecado, no concernente à pena, mas no concernente à culpa, parece que o sacerdote perdoa a culpa em virtude do poder das chaves.

3. Demais. — Maior poder recebe o sacerdote pela sua consagração, que a água do batismo pela sua santificação. Ora, a água do batismo recebe a virtude de tocar o corpo e purificar o coração, segundo Agostinho. Logo e com muito maior razão o sacerdote, na sua consagração, recebe um poder que lhe permite purificar o coração da mácula da culpa.

Mas, em contrário. — Antes, o Mestre tinha dito que Deus não conferiu esse poder ao ministro, para que cooperasse com êle na purificação interior. Ora, se perdoasse a culpa do pecado, cooperaria com ele na purificação interior. Logo, o poder das chaves não se estende ao perdão da culpa

2. Demais. — O pecado não é perdoado senão pelo Espírito Santo. Ora, comunicar o Espírito Santo não pertence a qualquer homem, como disse o Mestre no Livro Primeiro. Logo, nem perdoar a culpa do pecado.

SOLUÇÃO. — Os Sacramentos, segundo Hugo, pela satisfação, contêm a graça invisível. Ora, às vezes a santificação é necessária, assim à matéria como ao ministro do sacramento, como é o caso da confirmação; e então a virtude sacramental existe conjuntamente numa e noutra. Outras vezes, não é necessária senão a santificação da matéria do sacramento, como se dá com o batismo, porque não exige necessariamente um ministro determinado; e então a virtude sacramental está toda na matéria. Outras vezes ainda, o sacramento exige necessariamente a consagração ou a santificação do ministro, sem nenhuma santificação da matéria; e então toda a virtude sacramental está no ministro, como é o caso da penitência. Por onde, o poder das chaves, que tem o sacerdote, está para o efeito do sacramento da penitência, como a virtude da água do batismo está para o efeito do batismo. Ora, o batismo e o sacramento da penitência convêm de certo modo no seu efeito, porque ambos se ordenam diretamente contra a culpa — o que não se dá com os outros sacramentos. Mas diferem em que o sacramento da penitência, tendo como sua matéria os atos de quem os recebe, não por ser conferido senão aos adultos, que devem ter a preparação para colherem o efeito dos sacramentos. Ao passo que o batismo umas vezes é ministrado aos adultos, outras às crianças e aos desprovidos do uso da razão; por isso o batismo confere a graça e a remissão dos pecados às crianças sem deverem elas ter nenhuma preparação precedente; mas não aos adultos, que devem ter uma preparação eliminante da dissimulação. E essa preparação às vezes tem precedência no tempo, suficiente para a recepção da graça, antes de ser o batismo recebido atualmente; mas não antes do desejo do batismo, na vigência da revelação da verdade cristã. Outras vezes porém, não precede essa preparação no tempo, mas é dada simultaneamente com a recepção do batismo; e então com o recebimento do batismo é conferida a graça da remissão da culpa. Mas pelo sacramento da penitência nunca é dada a graça sem preparação presente ou precedente. Por onde, o poder das chaves opera a remissão da culpa, quer quando apenas existe um desejo, quer quando se exerce em ato, como a água do batismo.

Mas, como o batismo não opera na qualidade de agente principal, mas na de instrumento, não contribuindo porém para causar a recepção da graça, mesmo instrumentalmente, mas apenas dispondo para ela, pela qual se opera a remissão da culpa, o mesmo se dá com o poder das chaves. Por onde, só Deus tem o poder de perdoar a culpa; e por virtude dele o batismo opera instrumentalmente, como instrumento inanimado; e o sacerdote como instrumento animado, chamado servo, segundo o Filósofo. Por onde, o sacerdote obra como ministro.

Portanto é claro que o poder das chaves se ordena de certo modo à remissão da culpa, não pela causar mas pela dispor. E assim, quem antes da absolvição não estivesse perfeitamente disposto a receber a graça, consegui-la-ia na confissão mesma e com a absolvição sacramental, não opondo nenhum obstáculo. Se, pois, o poder das chaves de nenhum modo se ordenasse à remissão da culpa, senão só ao perdão da pena — como certos dizem, não seria necessário o desejo de receber o efeito das chaves, para a remissão da culpa, assim como não é necessário o desejo de receber os outros sacramentos, não ordenados à remissão da culpa, mas à da pena. Mas isto faz ver que não se ordenam ao perdão da culpa, porque sempre o uso das chaves, para produzir o seu efeito, exige a preparação da parte de quem deve receber o sacramento. E o mesmo se daria com o batismo se fosse ministrado só aos adultos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Como diz à letra o Mestre, aos sacerdotes foi cometido o poder de remitir os pecados, não por virtude própria, o que só pertence a Deus, mas para manifestarem como ministros, a obra de Deus, que perdoa. O que se dá de três modos. — Primeiro, para que a manifestem, não como presente, mas como futura, sem em nada contribuírem para ela. E assim, os sacramentos da Lei Velha significavam a ação de Deus. Por isso o sacerdote dessa lei apenas mostrava a graça prometida e nada fazia. – Segundo, para a significarem como presente, e que em nada para ela contribuem. Por isso certos dizem que os sacramentos da Lei Nova significam a colação da graça, que Deus dá no ato mesmo de os conferir, sem haver neles nenhuma outra virtude que contribua para ela. E segundo esta opinião mesmo o poder das chaves serviria só para mostrar a ação divina na remissão da culpa, feita no momento da colação sacramental. — Em
terceiro lugar, para significarem a ação divina presente na remissão da culpa, e contribuírem para ela dispositiva e instrumentalmente. E assim, segundo outra opinião mais comumente sustentada, os sacramentos da Lei Nova manifestam a purificação feita por Deus. E deste modo também o sacerdote do Novo Testamento mostra aos absolvidos da culpa que o foram, porque devemos considerar os sacramentos proporcionalmente aos ministros deles. — Nem obsta que as chaves da Igreja não disponham para a remissão da culpa, por já ter ela sido perdoada; assim como não importa que o batismo o disponha, pelo que em si mesmo é, por já ter sido santificado.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Nem o sacramento da penitência nem o do batismo contribuem diretamente para a graça, nem para a remissão da culpa, senão dispositivamente.

Donde também se deduz a RESPOSTA À TERCEIRA.

As outras objeções mostram, que para a remissão da culpa diretamente não contribui o poder das chaves. O que devemos conceder.