Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 — Se também os varões santos não sacerdotes tem o uso das chaves.

O quarto discute-se assim. — Parece que também os varões santos não sacerdotes tem o uso das chaves.

1. — Pois, a absolvição e a ligação, feitas pelas chaves, tiram a sua eficácia do mérito da paixão de Cristo. Ora, aqueles por excelência se conformam com a paixão de Cristo que pela paciência e pela prática das outras virtudes sofrem com ele. Logo, parece que mesmo sem a ordem sacerdotal, podem ligar e absolver.

2. Demais. — O Apóstolo diz: Sem nenhuma contrição, o que é inferior recebe a bênção do superior. Ora, na ordem espiritual, segundo Agostinho, ser superior é ser melhor. Logo, os melhores, isto é, os que tem mais caridade podem abençoar os outros, absolvendo-os. Donde, a mesma conclusão anterior.

Mas, em contrário. — Quem tem o poder também tem a ação, segundo o Filósofo. Ora, as chaves, que são o poder espiritual, só cabem aos sacerdotes. Logo, só os sacerdotes podem ter o uso delas.

SOLUÇÃO. — O agente essencial e o instrumental diferem em que este não infunde no efeito a sua semelhança, mas a do agente principal, o qual, sim, nele infunde a sua semelhança. Por onde, é agente principal o que tem uma forma que pode transfundir em outro; não constitui isso porém o agente instrumental, mas o ser aplicado pelo agente principal para produzir um certo efeito. Ora, como no exercício do poder das chaves o agente principal é Cristo, pela sua autoridade, como Deus e pelo seu mérito, como homem, resulta da plenitude mesma da divina bondade e da perfeição da sua graça, que pode exercer o poder das chaves. Mas, nenhum outro homem pode exercer esse poder como agente principal; pois nenhum pode dar a outrem a graça, pela qual se remitem os pecados, nem merecer suficientemente. Por isso não pode agir senão como agente instrumental. Assim, aquele que recebe o efeito do poder das chaves, não se assemelha a quem usa desse poder, mas a Cristo. E por isso, seja qual for a graça que alguém tenha, não pode alcançar o efeito das chaves; se a ela não for chamado na qualidade de ministro mediante a recepção da ordem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Assim como entre o instrumento e o efeito não é necessária a semelhança por uma conveniência formal, mas segundo uma proporção entre o instrumento e o efeito, assim também nem entre o instrumento e o agente principal. E tal semelhança existe entre os varões santos e Cristo padecente; mas essa não lhes confere o poder das chaves.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Embora um simples homem não possa merecer a outro a graça de condigno, contudo o mérito de um pode cooperar para a salvação de outro. Donde uma dupla bênção. — Uma, desse homem, puro e simples, como merecedor, pelo seu ato próprio. Essa qualquer varão santo, em quem Cristo habita pela graça, pode conferi-la; e requer dum tal varão maior bondade, pelo menos enquanto confere a bênção. — Outra é a bênção pela qual quem a dá não age senão como instrumento, e em virtude do mérito de Cristo. E essa implica superioridade em ordem, mas não em virtude.