Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 ─ Se a confissão é de direito natural.

O segundo discute-se assim. ─ Parece que a confissão é de direito natural.

1. ─ Pois, Adão e Caim não estavam obrigados senão aos preceitos da lei natural. Ora, foram censurados por não terem confessado os seus pecados. Logo, a confissão dos pecados é de direito natural.

2. Demais. ─ Os preceitos existentes tanto na Lei Velha Como na Nova são de direito natural. Ora, a confissão existia na Lei Velha, como diz Isaías: Faze o teu arrazoado, se algum fundamento tens para te justificar. Logo, é de direito natural.

3. Demais. ─ Job não estava sujeito senão à lei natural. Ora, ele confessava os pecados, como o refere a Escritura: Se encobri como homem o meu pecado. Logo, é de direito natural.

Mas, em contrário. ─ Isidoro diz, que o direito natural é o mesmo para todos. Ora, a confissão não na fazem todos do mesmo modo. Logo, não é de direito natural.

2. Demais ─ A confissão se faz a quem tem o poder das chaves. Ora, poder das chaves da Igreja não foi instituído por direito natural. Logo, nem a confissão.

SOLUÇÃO. ─ Os sacramentos são umas como proclamações da fé; por isso hão-se de lhe proporcionar a elas. Ora, a fé é superior ao conhecimento da razão natural. Por isso os sacramentos também são superiores ao ditame da razão natural. E como o direito natural não no gerou a opinião, mas uma certa virtude inata infundiu em nós, como diz Túlio, por isso os sacramentos não são de direito natural, mas de direito divino, superior à natureza. Mas às vezes também se chama natural aquilo que o Criador impôs a uma determinada coisa. Contudo, propriamente se chama natural o causado pelos princípios da natureza. E sobrenaturais são as obras que Deus se reserva à sua ação, sem o ministério da natureza; quer nas obras milagrosas, quer nas revelações dos mistérios, quer na instituição dos sacramentos. E assim a confissão, que tem necessidade sacramental, não é de direito natural, mas divino.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ─ Adão foi censurado por não ter reconhecido o seu pecado na presença de Deus; pois, a confissão feita a Deus pelo reconhecimento do pecado é de direito natural. Ora, presentemente tratamos da confissão feita ao homem. ─ Ou devemos responder que confessar o pecado, num caso, é de direito natural, isto é, quando alguém constituído em juízo é interrogado pelo juiz. Pois então o pecador não deve mentir excusando ou negando o seu pecado; e disso foram repreendidos Adão e Caim. Mas a confissão que fazemos espontaneamente a um homem para conseguir a remissão dos pecados, de Deus, é de direito natural.

RESPOSTA À SEGUNDA. ─ Os preceitos da lei natural permanecem do mesmo modo na lei de Moisés e na Lei Nova. Mas a confissão, embora de certo modo já existisse na lei de Moisés, não existia porém do mesmo modo que na Lei Nova nem na lei da natureza. Pois, na lei da natureza bastava o reconhecimento do pecado interior, perante Deus. Mas na lei de Moisés era preciso manifestar o pecado por algum sinal exterior, como pela oblação da vítima pelo pecado, por onde também podia o pecador revelar-se aos outros como tal. Mas não era preciso o pecador manifestar em especial o pecado cometido ou as circunstancias do pecado, como o era na Lei Nova.

RESPOSTA À TERCEIRA. ─ Job se refere àquela dissimulação do pecado feita pelo acusado, negando o pecado ou excusando-o, como se pode concluir da Glosa ao mesmo lugar.