Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 — Se é uma definição exata da fé a que dá o Apóstolo quando diz: É a fé a substância das coisas que se devem esperar, e um argumento das coisas que não aparecem.

O primeiro discute-se assim. — Parece inexata a definição da fé que dá o Apóstolo, quando diz (Heb 11, 1): É a fé a substância das coisas que se devem esperar, e um argumento das coisas que não aparecem.

1. — Pois, nenhuma qualidade é substância. Ora, a fé, sendo uma virtude teologal, como já se demonstrou1, é uma qualidade. Logo, não é substância.

2. Demais. — Virtudes diversas têm objetos diversos. Ora, o que esperamos é objeto da esperança. Logo, não deve entrar na definição da fé, como seu objeto.

3. Demais. — A fé mais se aperfeiçoa pela caridade do que pela esperança, porque a caridade é a forma da fé, como a seguir se dirá2. Logo, devia-se introduzir, na definição da fé, a coisa que devemos amar de preferência à que devemos esperar.

4. Demais. — Uma mesma coisa não deve entrar em gêneros diversos sem subalternação. Logo, inconveniente é dizer que é a fé substância e argumento.

5. Demais. — Um argumento manifesta a verdade daquilo a que se aplica. Ora, chama-se aparente ao que é de verdade manifesta. Logo, há uma oposição implicada no dito — argumento das coisas que não aparecem. Portanto, a fé está inconvenientemente definida.

Mas, em contrário, basta a autoridade do Apóstolo.

SOLUÇÃO. — Muitos dizem que as palavras citadas do Apóstolo não constituem definição da fé. Quem as considerar, porém, retamente, verá que encerram tudo o que entra em tal definição, embora não estejam ordenadas em forma de definição. Assim também os filósofos aplicam os princípios dos silogismos, pondo de parte a forma silogística.

E para evidenciá-lo, devemos considerar que, sendo os hábitos conhecidos pelos atos e estes, pelos seus objeto, a fé sendo hábito, deve ser definida pelo seu ato próprio posto em relação com o seu objeto próprio. Ora, é o ato de fé crer, que, como já dissemos3, é ato do intelecto determinado a um objeto, por império da vontade. Assim, pois, o ato de fé se ordena, de um lado, ao objeto da vontade, que é o bem e o fim, e de outro, ao do intelecto, que é a verdade. E sendo a fé uma virtude teologal, como já dissemos4, o seu objeto se identifica com o seu fim. Por onde, é necessário que o objeto e o fim da fé se correspondam proporcionalmente. Ora, como já foi dito5, a verdade primeira enquanto inevidente e as verdades a que, por causa dela, aderimos constituem o objeto da fé. E deste modo, é necessário que a verdade primeira se comporte em relação ao ato de fé, como fim, enquanto realiza a essência da realidade não vista. Ora, isto é essencialmente o que esperamos, conforme àquilo do Apóstolo (Rm 8, 25): O que não vemos, esperamos. Pois, ver a verdade é possuí-la. Mas, ninguém espera o que já tem; pois que a esperança se refere ao que ainda não possuímos, como já dissemos6.

Assim, pois, a relação entre o ato de fé e o fim o qual é o objeto da vontade, está expressa pelas palavras: É a fé a substância das coisas que se devem esperar. Pois, de ordinário se chama substância à primeira incoação de uma coisa qualquer, e sobretudo quando no princípio primeiro está contido, virtualmente, tudo quanto dele se segue. Por exemplo, se dissermos que os primeiros princípios indemonstráveis são a substância da ciência, por serem os primeiros elementos, que temos da ciência, esses princípios, que a contém virtualmente toda. Ora, é deste modo que se diz — é a fé a substância das coisas esperadas. Pois — onde a primeira incoação das coisas esperadas, em nós, depende do assentimento da fé, que contém virtualmente tudo o que esperamos. Pois, esperamos que havemos de ser felizes por vermos, com visão plena, a verdade a que aderimos pela fé, como é claro pelo que já dissemos antes sobre a felicidade7.

Por outro lado, a relação entre o ato de fé e o objeto do intelecto, enquanto objeto da fé, é designada pela expressão: argumento das coisas que não aparecem. E toma-se o argumento, pelo seu efeito. Pois, pelo argumento, a inteligência é levada a aderir a alguma verdade; por onde, à mesma adesão firme do intelecto à verdade da fé que não aparece, chama-se, no caso, argumento. Por isso, outra versão diz — convicção; pois, pela autoridade divina, o intelecto do crente é convencido a assentir ao que não vê.

Quem quiser, pois, reduzir as palavras referidas à forma de definição, poderá dizer: é a fé um hábito da mente, pelo qual começa a vida eterna em nós, e que faz a inteligência assentir ao que não aparece. — Por onde, a fé distingue-se de tudo o mais que pertence ao intelecto. Assim, chamando-se — argumento — distingue-se da opinião, da suspeita e da dúvida, pelas quais não é firme a primeira adesão da inteligência a nada. Quando se diz — Das coisas que não aparecem — distingue-se a fé da ciência e do intelecto, que tornam as coisas aparentes. E enfim, quando se diz — substância das coisas que se devem esperar — distingue-se a fé virtude, da fé comumente considerada, que não se ordena à beatitude esperada.

Quanto a quaisquer outras definições dadas da fé, elas são explicações da que dá o Apóstolo. Assim, Agostinho: É a fé uma virtude pela qual cremos o que não vemos8. Damasceno: é a fé um consentimento que não indaga9. E outros: É a fé uma determinada certeza da alma, sobre objetos ausentes, superior à opinião e inferior à ciência10. Ora, todas estas definições se identificam com o dito do Apóstolo: Argumento das coisas que não aparecem. Enfim, a definição de Dionísio — é a fé um fundamento permanente dos crentes, que os faz ter a verdade e, por eles, a manifesta11 — é a mesma que a referida: substância das coisas que se devem esperar.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — No texto em questão não se toma substância como gênero generalíssimo, dividido, por oposição, dos outros gêneros. Mas enquanto que em qualquer gênero, se encontra uma certa semelhança de substância. Assim, ao primeiro, em qualquer gênero, que contém virtualmente, em si, as mais subdivisões dele, se chama substância delas.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Pertencendo a fé ao intelecto, enquanto imperado pela vontade, há de necessariamente ordenar-se, como ao fim aos objetos das virtudes por que a vontade se aperfeiçoa. Entre elas está a esperança, como a seguir se dirá12. Por onde, na definição da fé inclui-se o objeto da esperança.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O amor pode recair tanto sobre o visível como sobre o invisível, sobre o presente como sobre o ausente. Por isso, o amável não se adapta à fé tão propriamente como o esperado, porque a esperança recai sempre sobre um objeto ausente e invisível.

RESPOSTA À QUARTA. — A substância e o argumento, enquanto incluídos na definição da fé, não implicam gêneros diversos dela, nem atos diversos. Mas relações diversas de um ato para objetos diversos, como do sobredito resulta.

RESPOSTA À QUINTA. — O argumento fundado nos princípios próprios de uma verdade fá-la aparente. Mas o fundado na autoridade divina não a torna tal. Ora, é um argumento dessa espécie que entra na definição da fé.
1. Ia-IIae, q. 62, a. 3.
2. a. 3
3. Q. 2, a. 1, 2, 9
4. Ia-IIae, q. 62, a. 3
5. Q. 1, a. 1, 4.
6. Ia-IIae, q. 67, a. 4
7. Ia-IIae, q. 3, a. 8; q. 4, a. 3.
8.Tract. XL in Ioan., et lib. II Quaest. Evang., cap., XXXIX.
9. lib. IV Orth. Fid., cap. XI
10. Hugus S. Victor, De Sacram., l. 1 c. 1.
11. cap. VII. De div. Nom. (lect. V)
12. Q. 18, a. 1.