Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Um remédio contra o niilismo: a memória dos heróis

Postado em 13-04-2011

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

(Louvemos aos varões gloriosos, e aos nossos pais na sua geração. Eclo. 44, 1.)

No momento crítico em que vivemos, quando tudo aquilo que veneramos parece condenado à extinção, recordar e estudar a vida e os exemplos dos grandes combatentes da nossa causa é de grande utilidade. Uma causa que teve tão valorosos paladinos não pode ser uma causa perecível.

Este ano de 2001 comemoramos o vigésimo aniversário do falecimento dos dois grandes bispos, D. Marcel Lefebvre e D. Antonio de Castro Mayer, que lutaram juntos durante o concílio e o pós-concílio contra todos os energúmenos do progressismo. Que dizer desses dois heróicos defensores da ortodoxia? Muita coisa já foi dita com maior ou menor felicidade. Passados vinte anos do desaparecimento de ambos e diante da situação agonizante  da Igreja e da sociedade, creio poder dizer que foram os homens que  melhor compreenderam os desafios da modernidade para a Igeja.  Viram que para a Igreja não há outra saída  em um mundo cada vez mais hostil senão na fidelidade a sua tradição. Quanto mais a Igreja se abre ao mundo moderno e procura ver nele valores apreciáveis, mais ele se torna anticristão e a despreza.

Se Roma tem alguma objeção contra a atitude dos dignos prelados, deveria ao menos agradecer-lhes a sinceridade e recusar como coisa abjeta a adulação daqueles que lhe dão um ósculo de Judas em suas visitas à Santa Sé. De fato, enquanto a maioria dos bispos que divergiam do magistério da Igreja fingia uma comunhão farisaica com o papa ao mesmo tempo que sabotava em suas dioceses as ordens emanadas da Santa Sé, D. Lefebvre e D. Castro Mayer agiam com toda franqueza  manifestando abertamente ao santo padre sua perplexidade ante os rumos da Igreja em flagrante contradição com o que haviam ensinado os papas de antes do Vaticano II.

Comemoramos também o centésimo décimo aniversário da morte do grande escritor Eduardo Prado, falecido tão prematuramente aos 41 anos de idade. Inexplicavelmente esse admirável escritor paulista está esquecido até mesmo pelos católicos da tradição. Devo dizer que é um dos autores que me ajudou muito na juventude a nutrir minha fé e meu amor às tradições nacionais.

Em um Brasil que cada vez mais deixa de ser verdadeiramente brasileiro,  em que a nossa cultura e identidade tão bem retratas em obras de arte como a Primeira Missa de Vitor Meirelles e o Grito do Ipiranga de Pedro Américo parecem coisas alienígenas , Eduardo Prado é um autor que nos ajuda na dura tarefa de reconstruir nossa miserável nação.

Sua figura humana, tão nobre, tão cristã e tão lhana, foi altamente elogiada, por ocasião de sua morte, pelos inúmeros amigos que privaram com ele e puderam beneficiar de sua inteligência superior e de seu coração de ouro. Imortalizado por Eça de Queirós em A cidade e as Serras, Eduardo Paulo da Silva Prado será sempre o espécime do homem católico, fino e patriota, que põe seus talentos a serviço da verdade e da justiça.

Homem profundamente religioso, viu que a proclamação da República em 1889 representava um desastre para a Igreja e a Nação. Não porque o Império tivesse sido um modelo de regime político católico que respeitasse os direitos da Igreja, mas porque  era sucedido por um regimeque seria muito pior em razão do seu laicismo de principio e de seu espírito de ruptura com as nossas tradições históricas. Viu, como poucos então, que o laicismo da república era uma grande falácia porquanto a nova religião do Estado era a ridícula religião da humanidade de Augusto Comte e desancou o sectário Luís Pereira Barreto em memorável polêmica.

Em defesa da monarquia e contra os abusos e arbitrariedades do novo regime escreveu dois livros que ainda se lêem com grande proveito: A ilusão americana Fastos da ditadura militar. A ilusão americana, se peca por se exceder nas críticas aos Estados Unidos na tentativa de desacreditar o sistema republicano, não deixa, entretanto, de demonstrar, com argumentos muito razoáveis, as vantagens e benefícios do regime monárquico. O mais interessante, porém, é que Eduardo Prado mostra que justamente naquele contexto histórico em que as classes operárias eram espezinhadas pela burguesia endinheirada as nações monárquicas, sob o influxo do magistério do papa Leão XIII, eram as mais sensíveis à questão social.

Se essas reflexões de Eduardo Prado hoje parecem anacrônicas, deve-se dizer que elas não esgotam o conteúdo de seus saborosos escritos. Em A ilusão americana, obra apreendida pela polícia do regime republicano, Eduardo Prado faz interessantes observações sobre aqueles que vivem embasbacados com o modelo norte-americano querendo que Brasil o imite. Diz Prado: “A civilização norte-americana pode deslumbrar as naturezas inferiores que não passam da concepção materialística da vida. A civilização não se mede pelo aperfeiçoamento material, mas sim pela elevação moral. O verdadeiro termômetro da civilização de um povo é o respeito  que ele tem pela vida humana e pela liberdade. Ora, os americanos têm pouco respeito pela vida humana.” E em seguida Prado discorre sobre as práticas brutais de linchamento, os assassínios  criminosos, a introdução de tormentos e novos aparelhos de suplício, adotados pelos americanos em contraste com o espírito latino transmitido aos brasileiros. E diz Eduardo Prado que as colônias americanas formadas no Brasil após a guerra da secessão se distinguiam pela ferocidade e perversidade com que atormentavam os escravos.

Essas considerações de Eduardo Prado me parecem de valor atual porque hoje muitos brasileiros estão deslumbrados com o crescimento econômico do nosso país, esquecidos de que a grandeza de uma nação não se resume ao PIB. Que diria ele hoje daqueles que estão alvoroçados com o crescimento da China e se alegram com o estreitamento das relações entre o Brasil e aquele país submetido a  um regime tão desumano? Que diria ele do Brasil petista que quer legalizar o aborto e outros atentados contra a vida e a família? Que falta nos fazem homens como ele!

Eduardo Prado foi também um grande pesquisador da nossa história. Escreveu coisas notáveis sobre a contribuição das missões jesuíticas para a formação da nacionalidade. Suas páginas em que faz um contraste entre Santo Inácio de Loyola e César Borgia revelam um homem de sólida vida espiritual para não dizer mística.

Seus escritos sobre a história do Brasil e seus vultos são uma fonte riquíssima de informações. Seu libelo contra a traição de Quintino Bocayuva –  o republicano que entregou à Argentina um vasto território que nos pertencia e foi homenageado com seu nome dado a uma importante rua de Buenos Aires – bem como suas crônicas sobre o Barão do Rio Branco, são um bálsamo para a alma do brasileiro deprimido de nossos dias diante do triunfo da súcia esquerdista que se apoderou do Brasil.

Pode-se dizer também que Eduardo Prado foi   um pensador da tradição, tendo  analisado, por exemplo, a importância do amor ao passado para a formação moral do homem e das nações. Disse ele : “O amor do passado é um sentimento atribuído pela opinião vulgar somente à senilidade queixosa e enfadonha. Eis aí uma opinião que envolve um erro, e, como todo erro, também uma injustiça, e isto quer se trate dos indivíduos, quer se trate das nações. Desprezar o passado (e a mais forte expressão do desprezo por alguma coisa é não querer conhecê-la) – denota no indivíduo degradação intelectual. E, num povo, esse sentir demonstra que esse povo está em estado infantil de selvageria, porque, diz Cícero, ignorar o sucedido antes de nós é a nossa condenação a sermos crianças perpetuamente. E de que vale, pergunta ainda o mesmo Cícero, a vida do homem se a lembrança dos fatos anteriores não ligar o presente ao passado? (…) Certamente o homem deve viver no seu tempo, mas a tendência  para a contemplação do passado é um dom nobilíssimo da sua alma. Quem se aplica ao presente é movido, quase sempre, pelo interesse. Quem trata do passado é desinteressado, e só o desinteresse enobrece, eleva e dignifica as aspirações dos homens.”

Grande Eduardo Prado! Disse tudo em poucas palavras! Quantas pessoas, hoje, não acham que se a Igreja restaurasse a sua tradição morreria à míngua?! Não têm outro argumento contra a tradição senão o interesse, e o interesse material!

No pandemônio dos nossos dias, quando os homens, dominados por um utilitarismo, vivem na ânsia do imediatismo, desprezam os bens mais altos do espírito e descuidam do dever de preservar para as gerações futuras o tesouro da tradição, a evocação de figuras como D. Lefebvre, D. Castro Mayer e Eduardo Prado nos chama à responsabilidade e nos anima à luta por uma causa que jamais perecerá porque é a causa da civilização. Porque é a causa de Deus.

Anápolis, 13 de abril de 2011

Santo Hermenegildo Mártir