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Vargas Llosa e Bento XVI

Postado em 24-02-2013

Foi publicado hoje, n’O Estado de S. Paulo, um interesssante artigo do escritor peruano Mario Vargas Llosa sobre a renúncia do papa Bento XVI.

O articulista, como se sabe, é  agnóstico e liberal. Apesar disso, refere-se ao papa com toda reverência e simpatia, reconhecendo os méritos do Santo Padre em seu esforço para solucionar os sérios problemas que afligem a Igreja. Vargas Llosa diz que os liberais não crentes não devem estar contentes com o fracasso do papa em sua luta por reformar a Igreja. Diz que o isolamento de Bento XVI nos últimos anos de seu pontificado evidencia a decadência e a vulgarização intelectual da Igreja, sendo um dos fatores primordiais de sua renúncia.

Meus aplausos a Vargas Llosa por essas palavras. Realmente, Bento XVI tentou resgatar os valores culturais da tradição católica: a sacralidade da liturgia, o apreço pela língua latina, a solidez na formação intelectual do clero, mas não teve o apoio necessário, não foi correspondido em sua obra. Não teve colaboradores à altura. Mais claro: sua obra foi boicotada por ignorantes, hereges e outros mal intencionados.

Mas o que desejaria assinalar no artigo de Vargas Llosa não é sua análise sobre o pontificado de Bento XVI. O que me deixou intrigado foram essas suas palavras: “Bento XVI não só representou a tradição conservadora da Igreja como também sua melhor herança: a da ilustre e revolucionária cultura clássica e renascentista que, não podemos esquecer, a Igreja preservou e difundiu, por meio de seus conventos, bibliotecas e seminários, a cultura que impregnou o mundo com ideias, formas e costumes que acabaram com a escravidão e, distanciando-se de Roma, tornaram possíveis as noções de igualdade, solidariedade, direitos humanos, liberdade e democracia…”

A frase acima  parece-me surpreendente e merece reparo. Vargas Llosa  estabelece um nexo entre o espírito revolucionário moderno e a cultura clássica preservada pela Igreja. Isto é simplesmente um absurdo. O espírito revolucionário moderno procede de outra fonte. Procede da fonte poluída do nominalismo de Guilherme de Ockham (O imperator, defende me gladio, et ego defendam te verbo). Dessa fonte abeberou-se mais tarde Lutero com sua falsa reforma. E desta falsa reforma resultaram o individualismo e o liberalismo moderno, base da democracia e da ideologia dos direitos humanos, coisas estas tão ruins mas tão festejadas por Vargas Llosa.

E acrescente-se: Lutero não tinha nenhum apreço pelo humanismo renascentista. A cultura clássica preservada pela Igreja não tinha nada de revolucionário. É uma pretensão ilegítima da modernidade  reivindicar raízes na cultura clássica. A cultura clássica concorreu apenas para a edificação dos grandes monumentos da civilização cristã. A Igreja não conservou incubado em seu seio um vírus letal que depois a aniquilaria.

A modernidade tão exaltada por Vargas Llosa não pode ter, em hipótese alguma, nenhum nexo com o catolicismo por várias razões. O individualismo da modernidade supõe, em última análise, a negação do conceito de natureza humana. No mundo só haveria homens soltos, não haveria nenhum grupo social natural, nem sequer a família, formada pelo casamento monogâmico entre homem e mulher. Um dos pais da modernidade, Rousseau, disse que quem ousar empreender um povo deve ter a capacidade de primeiro desnaturar o homem, pois o homem, por natureza, está vocacionado à solidão. Do individualismo ao totalitarismo só falta dar um passo.

Por sua vez, o liberalismo da modernidade não tem nada que ver com a liberdade da tradição cristã. O liberalismo, no fundo, nega a liberdade na medida em que excogita uma liberdade de indiferença, uma liberdade que é fim e não meio. O liberalismo, aliado ao individualismo, é responsável pelo rebaixamento do homem a animal irracional que vive com os indivíduos da sua espécie guiado apenas por um instinto gregário e não pelos vínculos  da palavra e do amor.

Por causa de seus próprios problemas psicológicos, Lutero negou o livre arbítrio do homem. O livre arbítrio seria uma invenção de satanás na Igreja de Deus. Mais tarde os iluministas iriam também negar a liberdade do homem dizendo que todo seu comportamento, toda sua vida interior estão determinadas por reações bioquímicas.

Igualmente, o laicismo moderno não tem nada que ver com o princípio do Evangelho “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Uma coisa é afirmar a distinção entre o poder temporal e o poder espiritual, outra coisa (falsa) é defender a separação entre esses poderes.

A modernidade apresenta-se sedutora a muitos espiritos ingênuos com o seu discurso de defesa da dignidade humana, o que leva muitos à confusão de pensar que há uma compatibilidade entre a Igreja e o liberalismo moderno. Mas é preciso desmascarar a modernidade e mostrar a todos que, ao contrário, a modernidade tem um conceito muito baixo do homem. Com efeito, a partir de Lutero, que dizia ter o pecado original corrompido completamente a natureza do homem, todo o pensamento moderno foi uma loucura em torno do conceito de homem. O homem é lobo do homem. O homem, por natureza, é um inepto para a vida intelectual. O homem é o  que come. O homem é um câncer de pele da Terra. O homem é um vômito da natureza. Todas essas idéias estapafúrdias e indecorosas sobre o homem foram defendidas pelos mais expressivos pensadores da modernidade.

Querer estabelecer um nexo, um ponto em comum entre a modernidade e o catolicismo, é uma ilusão, é um erro crasso. É verdade que os católicos liberais, desde o século XIX, tentaram estabelecer uma aliança, mas foram severamente condenados pelos grandes papas até Pio XII. Depois do Vaticano II, infelizmente, sobretudo durante o pontificado de Paulo VI,  houve uma busca de diálogo e colaboração entre a Igreja e o mundo moderno liberal. Mas os frutos foram os piores possíveis e já tinham sido previstos por Pio IX no famoso Syllabus.

Quando examinamos as raízes ideológicas da modernidade, o nominalismo e o individualismo, chegamos, realmente, à conclusão de que as aberrrações contra a natureza hoje legalizadas (casamento homossexual, aborto, eutanásia etc) são apenas consequências lógicas das premissas colocadas em séculos de cultura liberal. É impossível hoje a Igreja querer dialogar e colaborar com a sociedade laica sem conviver com essas aberrações. A Igreja terá de voltar à postura corajosa dos papas que condenaram o liberalismo. É questão de vida ou morte.

Oxalá o espírito clássico voltasse a ser cultivado em nossos dias. A modernidade estaria com seus dias contados!  Voltem ao latim, voltem a Cícero. Voltem ao estudo da lei natural, e os “direitos humanos” serão objeto de irrisão.

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Anápolis, 24 de fevereiro de 2013.