A contribuição do Brasil para a paz no Oriente Médio

(para além das considerações do Sr. Celso Lafer)

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Leio sempre com apreço os artigos do antigo ministro das Relações Exteriores do governo de Fernando Henrique Cardoso, o distinto intelectual e acadêmico Celso Lafer.

Em recente artigo publicado n’”O Estado de S. Paulo” dia 15 de julho, o ilustre ex-chanceler refere-se a um seminário promovido pelo Itamaraty sobre a contribuição que expoentes de origem da comunidade árabe e judaica radicados em países da América do Sul possam dar ao processo de paz no Oriente Médio.

O Sr. Celso Lafer informa-nos sobre sua experiência como diplomata e sobre sua herança cultural judaica, mencionando especialmente um documento da tradição judaica, a Ética dos Pais, que atribui um valor primordial ao bem da paz, considerado como o bem dos bens.

Para nós católicos, isso não representa nenhuma novidade, herdeiros que somos de toda a sabedoria do Antigo Testamento, levada à plenitude por Nosso Senhor Jesus Cristo no Sermão da Montanha. Não representa nenhuma novidade porque a Santa Igreja é o novo Israel.

O que causa certa estranheza no artigo do Sr. Celso Lafer é que, ao discorrer sobre o papel notável desempenhado por grandes estadistas brasileiros na construção da cultura da paz que caracteriza o povo brasileiro, como o Patriarca da Independência José Bonifácio de Andrada e Silva e o Barão do Rio Branco, e ao falar da nossa experiência histórica como um amálgama criativo capaz de ao longo do tempo ir sempre juntando elementos heterogêneos em covivência pacífica,  não tenha o ex-chanceler dito nenhuma palavra sobre a contribuição da religião histórica do povo brasileiro para a formação de uma alma tão cordata como é a nossa. Afinal, a religião é sempre o elemento mais importante na formação da consciência coletiva de qualquer povo, de qualquer civilização. Tanto assim que se diz que, para conhecer um povo em suas diversas manifestações artísticas e espirituais, como a literatura, a filosofia, a música, a arquitetura e, até mesmo, a economia, cumpre primeiro conhecer a sua religião. Ora, não poderia ser diferente no caso da análise da alma pacífica e acolhedora do povo brasileiro.

Era, pois, justo esperar que o douto diplomata brasileiro se referisse à grande contribuição que a Igreja deu para a origem de uma cultura da paz. Com efeito, a filosofia escolástica, que se pode considerar a filosofia própria da Igreja, tão desenvolvida no período barroco na Península Ibérica e com grande repercussão em toda hispano-américa, concorreu muito para origem do direito internacional e a instauração de uma ordem pacífica entre as nações. Seja mencionado, por exemplo, Francisco de Vitória, célebre por sua obra De Indis em que não só fez uma defesa dos direitos dos povos aborígines do novo continente, mas explanou os princípios fundamentais de um direito internacional público. Igualmente seja citado o jesuíta Francisco Suarez, professor da Universidade de Coimbra, que combateu a falsa teoria do direito divino dos reis (doutrina de origem protestante) e desenvolveu aquelas ideias que mais tarde iluminariam o projeto de uma sociedade das nações. Recorde-se, outrossim, a contribuição de pensadores católicos para a origem de uma teoria da guerra justa, que de tanta serventia foi para que mesmo em meio à beligerância os homens ainda conservassem em sua consciência as exigências da ordem moral.

Por outro lado (embora, talvez, não se pudesse esperar da parte do egrégio acadêmico uma alusão a respeito, dada sua origem religiosa), é preciso reconhecer que o catolicismo, como o próprio nome diz, é uma religião aberta a todos os povos, dotada de uma extraordinária capacidade de diálogo com as mais diversas culturas, superando toda forma de xenofobia à medida que vai concretizando o ideal de cristandade. Nesse ponto, seria desejável (mas seria exigir demais!) que o Sr. Celso Lafer reconhecesse a limitação do judaísmo, sobretudo do judaísmo talmúdico pós-cristão, uma religião que só reconhece a pertença plena ao mundo da sabedoria a quem é descendente carnal da Abraão, a quem está ligado a uma etnia.

Como seria bom que um homem da estatura do Sr. Celso Lafer conhecesse o universalismo da cristandade, o universalismo da Santa Igreja!

O tosco antissemitismo que envenenou os nacionalismos do século passado e causou tanto crime e barbaridade costuma dizer que um judeu jamais se incorpora à cultura de uma nação, permanece sempre um elemento alienígena. Não compartilho dessa opinião, muito menos ainda no que concerne à pessoa do Sr. Celso Lafer, que sempre, em seus escritos, manifesta  respeito aos vultos da história do Brasil como D. Pedro II e Barão do Rio Branco, mas quero consignar minha crítica respeitosa ao seu artigo sobre a contribuição do Brasil para a paz no Oriente Médio, na esperança de que ele venha a suprir uma lacuna em suas análises sobre a formação da nacionalidade brasileira.

Anápolis, 17 de julho de 2012.

Memória de Santo Aleixo, confessor.

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