Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

A CONVERSÃO DOS JUDEUS (DRAMA DO FIM DOS TEMPOS)

Postado em 23-10-2017

A Santa Escritura nos assinala um grande acontecimento que se nos mostra entrelaçado na guerra que o Anticristo desencadeará contra a Igreja: a conversão dos judeus. Deixamos este assunto de lado até aqui para tratá-lo com mais detalhes. Além disso, aqui ele estará muito bem colocado, pois a conversão dos judeus nos é apresentada como fruto da pregação de Elias.

O povo judeu é o ponto em torno do qual gira a história da humanidade. Ele recebeu o toque de Deus na pessoa de Abraão de onde saiu. É, antes da vinda de Nosso Senhor, o povo sacerdotal por excelência, cujo estado, no testemunho de Santo Agostinho, é inteiramente profético; dele nasceu a Santíssima Virgem e o Salvador do mundo; ele formou o núcleo da Igreja nascente. Todos esses privilégios fazem da raça judia uma raça excepcional cujos destinos são misteriosos.

Por uma inversão estranha e lamentável, no momento em que ela produz o Salvador do mundo, a raça eleita, a raça bendita entre todas merece ser condenada. Recusa reconhecer, em sua humildade, Aquele em quem ela não sabe adorar as grandezas invisíveis. Parece que Deus quis mostrar assim que não há nada da carne e do sangue na vocação do cristianismo, já que aqueles mesmos a quem pertencia o Cristo, segundo a carne (Rm 9, 5), são rejeitados por causa de seu orgulho tenaz e carnal.

Será uma condenação definitiva? Permanecerão presas de Satã excluídos do resto do mundo pela cruz do Senhor? Deus não permita! Deus prepara supremas misericórdias para o povo que foi seu. A esse povo, a quem foi dito: “Não sois mais meu povo“, será dito um dia: “Vós sois os filhos do Deus vivo“. (Os 3, 4-5). Depois de ter ficado longos anos sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem altar, os filhos de Israel procurarão o Senhor seu Deus; e isso acontecerá no fim dos tempos. (Id. III, 4, 5)

Elias será o instrumento dessa volta maravilhosa. “Eu vos enviarei, diz o Senhor em Malaquias, o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. E ele voltará o coração dos pais para os filhos, o coração dos filhos para os pais” (Ml 4, 5-6). Quer dizer, restabelecerá a harmonia dos mesmos amores, das mesmas adorações entre os santos antepassados do povo judeu e seus últimos descendentes.

São Paulo insiste por sua vez sobre esse acontecimento tão consolador. Ele vê na condenação dos Judeus a causa ocasional da vocação dos Gentios. Depois acrescenta: “Porque eu não quero, irmãos, que vós ignoreis este mistério, que uma parte de Israel caiu na cegueira até que tenha entrado a plenitude das nações e então todo Israel se salve” (Rm 11, 25).

Tal é o desígnio de Deus. É preciso que toda a gentilidade entre na Igreja; e que, quando terminar o desfile das nações, Israel entre por sua vez. Este será o grande jubileu do mundo; a graça se espalhará por torrentes. Tomando as profecias ao pé da letra, todos os judeus que então estiverem vivos, ainda que numerosos como as areias do mar, serão salvos até o último (Rm 9, 27).

Para compreender os frêmitos profundos que esse grande acontecimento fará correr pelo mundo, é preciso usar as figuras proféticas pelas quais, Deus houve por bem anunciá-lo. O povo judeu entrando na Igreja é como Esaú se reconciliando com Jacob. Com que ternura! “Correndo ao encontro de seu irmão, Esaú abraçou-lhe o pescoço e beijando-o, chorou“. Mas é, sobretudo José reconhecido por seus irmãos que é o verdadeiro símbolo de Jesus reconhecido por seus irmãos, os judeus! Outrora venderam-no e crucificaram-no e agora uma imperativa necessidade de verdade e de amor leva-os a seus pés no fim dos tempos. Que encontro! Que espetáculo! Jesus, com todo o brilho de seu poder, desvendando aos judeus os tesouros de seu coração, e lhes dizendo: “Eu sou Jesus a quem vós vendestes!” (Gn 45).

Abri enfim o Evangelho, na página do filho pródigo (Lc 15). Esse pródigo que vem de tão longe são os pobres gentios entrando na Igreja. Os judeus são representados pelo filho mais velho, ciumento, egoísta, que se obstina em permanecer de fora porque seu irmão foi recebido em casa. O pai sai e lhe faz instantes rogos, coepit illum rogare. Esse desnaturado recusa escutar o pai; mas por fim o escutará, entrará e essa entrada trará alegria dobrada à casa paterna. Não, não se pode imaginar qual será a alegria da Igreja quando ela abrir seu seio de mãe aos filhos de Jacó. Não se pode imaginar as lágrimas, os transportes de amor destes quando for retirado o véu de seus olhos, reconhecerem seu Jesus. Qual será o momento preciso deste grande acontecimento? Esta é a dificuldade. Sem pretender resolvê-la, esperamos esclarecê-la um pouco.

Segundo a tradição, parece certo que o Anticristo será de nacionalidade judia. Ele aparecerá como o produto desta fermentação de ódio que há séculos exaspera o coração dos judeus contra Jesus, seu terno irmão, seu incomparável amigo. Também parece certo que os judeus, em boa parte, acolherão esse falso messias seguindo-o em cortejo e lhe submetendo o mundo pela má imprensa e pelas altas finanças. Mas desde o tempo que precederá o homem do pecado, se formará entre os judeus uma corrente de adesão à Igreja! Os grandes acontecimentos têm prelúdios que os anunciam.

São Gregório declara que o furor da perseguição do Anticristo cairá principalmente sobre os judeus convertidos a quem ninguém igualará na constância em suportar todos os ultrajes e todos os tormentos pelo nome mil vezes bendito de Jesus. Esta passagem de São Gregório é muito importante para ser omitida.

O grande papa explica uma das grandes profecias em ação de Ezequiel (Ez 3). É um drama em três atos. 1°) Deus ordena que o profeta saia para o campo; esta saída representa a difusão do Evangelho entre os gentios. 2°) Manda que volte para casa, onde é atado com cadeias, aprisionado e reduzido ao silêncio: isso indica como o Evangelho será pregado pelos judeus aos próprios judeus, dos quais alguns se converterão, outros prenderão os pregadores e os oprimirão com maus tratos, durante a perseguição do Anticristo. 3°) Deus aparece, abre a boca do profeta que fala com mais força do que nunca; é o que acontecerá na vinda de Elias que, com suas pregações inflamadas e irresistíveis, converterá os restos de sua nação (In Ezeq. lib I, hom XIII).

Não nos cansamos de admirar a lucidez profética de São Gregório. Ele distingue de antemão as fases do grande acontecimento que nos ocupa: cisão do povo judeu em duas partes, opressão dos convertidos pelos refratários, conversão total operada por Elias. O santo Papa assegura, em seus comentários sobre Jó, que esta volta definitiva dos restos de Israel será feita diante dos próprios olhos e a despeito da raiva do Anticristo (Mor. lib XXXV e XIV). Se a Igreja goza de semelhantes consolações debaixo do fogo da perseguição, qual não será esse gozo na hora do triunfo! É o que vamos considerar rapidamente.

Deus emprega anjos maus para destruições necessárias. O Anticristo, a seu modo e sem o querer, será a vara de Deus. Esta vara de ferro pulverizará os cismas, as heresias, as falsas religiões, os restos do paganismo, o maometismo e o próprio judaísmo: ela esmagará o mundo em favor de uma prodigiosa unidade. Quando esse colosso de impiedade for abatido pela pedrinha, esta se tornará uma montanha imensa e cobrirá a terra; o Evangelho, não tendo mais nenhuma sorte de obstáculo, reinará sem contradição sobre o universo inteiro.

Os judeus serão os primeiros operários desse estabelecimento do reino de Deus. São Paulo se extasia diante das grandes coisas que resultarão de sua conversão. “Se o pecado dos judeus foi a riqueza do mundo e a sua redução a riqueza das nações quanto mais sua adesão total? … se sua perda é a reconciliação do mundo o que será a sua entrada na Igreja senão uma ressurreição?”(Rm 11,12,15). Tememos enfraquecer estas antíteses enérgicas comentando-as.

É legítimo concluir que os judeus convertidos porão ao serviço da Igreja um inestimável ardor de proselitismo. Rejuvenescida por essa infusão de vida, a Igreja sairá das garras da perseguição como de um túmulo, e tomará posse do mundo com a majestade de uma rainha e a ternura de uma mãe. Serão esses acontecimentos o prelúdio imediato do último julgamento ou a aurora de uma nova era? Falaremos sobre as conjecturas que se pode formular sobre esta questão.

O Drama do Fim dos Tempos  –  Pe. Emmanuel-André