Comissão da verdade ou comissão do cinismo?

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Mais um passo foi dado no sentido de distorcer a realidade dos fatos da história do Brasil. E o mais grave é que tem contado com o apoio e a simpatia de segmentos da sociedade brasileira que se esperava tivessem uma posição mais prudente diante das iniciativas do governo. Refiro-me à instalação da Comissão da Verdade e à reação da imprensa considerada mais “conservadora” ou de direita, como, por exemplo, o jornal O Estado de S. Paulo.

A primeira coisa que me chama a atenção é a leviandade com que se atribui a palavra verdade a uma comissão criada ad hoc no espírito revanchista de um governo controlado por pessoas que, por princípio, não reconhecem à inteligência humana a capacidade de conhecer a verdade das coisas.

De fato, o patrono dos políticos modernos é Pilatos, o qual perguntou a Nosso Senhor Jesus Cristo que é verdade e nem sequer esperou a resposta, pois não admitia a existência da verdade e muito menos a possibilidade de conhecê-la. Para os políticos da democracia moderna, fundada no dogma de uma suposta soberania popular, só há uma verdade prática: como manipular a opinião pública e vencer as eleições. Assim como, para Pilatos, a única verdade prática era encontrar uma solução para o tumulto que ameaçava crescer entre os judeus sem causar desagrado ao imperador romano. A verdade não era a justiça, a verdade não era o Verbo encarnado, a Sabedoria Eterna que vinha iluminar a inteligência dos homens e fortalecer as vontades no bem. Absolutamente, nada disso.

Como se sabe, a grande maioria dos nossos governantes está constituída por aquela geração perdida dos anos sessenta. Trata-se de pessoas completamente corrompidas em sua inteligência e vontade pela ideologia do materialismo histórico, pelo existencialismo ateu  de Sartre e pelo niilismo de Nietzsche, que negam todos os valores morais e defendem uma liberdade de indiferença do homem diante de qualquer principio, critério ou lei. Nietzsche, que dizia que a decadência da humanidade tinha começado com Sócrates e se consumado com Cristo, dizia também que a ideia da verdade tinha sido valorizada sobretudo pela cultura cristã. Ora, era justamente essa cultura cristã que a geração esquerdista dos anos sessenta da sra. Rousseff combatia. Rousseff e seus camaradas não combatiam em nome de um ideal ou de uma ordem social mais justa; queriam apenas a revolução perpétua contra todos os valores eternos, ainda que essa revolução tivesse de implantar um regime totalitário inimigo de todas as liberdades e opressor da dignidade humana. Rousseff e seus camaradas continuam pensando assim, pois que até hoje não se retrataram de seus atos terroristas.

Com que direito, pois, esse governo instala uma comissão encarrega de investigar fatos históricos sob um título tão nobre e tão solene como o da verdade? Verdade é uma coisa séria, não fica bem na boca de politiqueiros do mensalão ou do ministério da pescaria.

Só os amigos da metafísica, só os admiradores da Idade Média, só os homens de fé, é que têm o direito de pronunciar a palavra verdade com toda coerência. Santo Anselmo de Cantuária, no século XI, discorreu sobre o tema da verdade, deu-lhe uma definição (a verdade é uma retidão perceptível unicamente ao espírito) e distinguiu várias espécies de verdade.

Pois bem, se a verdade é uma retidão perceptível unicamente ao espírito, como podem Rousseff e camaradas, que negam o espírito humano e o reduzem a um fenômeno da química cerebral, falar em verdade? Falam do que não conhecem.

Entre as espécies de verdade distinguidas por Santo Anselmo, há a verdade do pensamento e a verdade da vontade. A verdade do pensamento se dá quando há uma relação de retidão entre o pensamento e a realidade; quando se pensa que algo é na realidade e a realidade é tal como é pensada, ou ainda quando se pensa que aquilo que é é, e aquilo que não é não é. E a verdade da vontade dá-se quando se quer aquilo que se deve querer, e não se quer aquilo que não se deve querer.

De modo que realmente cabe perguntar como podem Rousseff e seus apaniguados falar em verdade. Após a queda do muro de Berlim e o desmoronamento do “paraíso soviético”, após a adoção da economia capitalista pela China, a própria esquerda foi obrigada a dar a mão à palmatória e a reconhecer que a realidade não era bem como ela pensava. Alguns esquerdistas chegam a dizer que perderam o rumo da história. Como podem então esses senhores pretender apurar a verdade histórica sobre violações dos “direitos humanos” de terroristas que lutavam, não para restabelecer a ordem democrática aos moldes do Ocidente mas por uma causa completamente equivocada e nociva?

Esses senhores tinham a inteligência obscurecida pelo erro de uma ideologia demoníaca (sim, demoníaca, porque Marx por um tempo foi satanista) e a vontade escravizada por uma quimera e agora pretendem vingar-se daqueles que os combateram e nos protegeram dos males que os comunistas queriam fazer-nos.

Realmente, vivemos tempos ruins e podem tornar-se piores, por culpa, em grande medida, daqueles que hoje tinham a obrigação moral de desmascarar esses cínicos que desgraçadamente nos governam e nos conduzem à ruína final.

Anápolis, 25 de maio de 2012.
Festa de São Gregório VII, Papa.

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